Festival Kanema

O cinema africano no São Jorge.

Está a decorrer desde o dia 17 de Novembro, no cinema São Jorge, o Festival Kanema, ciclo inteiramente dedicado ao cinema africano. Até dia 26 vão passar pela sala do São Jorge 18 filmes e 12 documentários, realizados por 22 cineastas oriundos de África, e duas peças cinematográficas de autoria europeia.

Os filmes vêm de países tão distantes como o Burkina Faso, Camarões, Moçambique, Guiné-Conacri, Senegal ou Níger. Com esta iniciativa, a Associação Tamarindo pretende divulgar o cinema feito no continente africano, que dificilmente chega às salas de cinema europeias, tendo por objectivo dar a conhecer a realidade social destes países pelos olhos autóctones dos realizadores.

Desde a ficção até aos documentários, a mostra pretende dar a conhecer o que de melhor se faz no cinema africano, exibindo também filmes premiados. Este ano, o Festival Kanema tem mais duas vertentes nas sessões competitivas.

Assim, e ao longo da próxima semana, as ruas da cidade do Dakar, no Senegal e os bares “habitados” pelos emigrantes cabo-verdianos vão estar acessíveis a todos os que quiserem ver “Saudade à Dakar”, filme realizado por Laurence Gavron e que nos leva até à Zona A, bairro suburbano povoado por cabo-verdianos, que ao cair da noite se juntam e, através da música, recordam o seu país de origem. “Saudade à Dakar” é exibido dia 20, na sessão das 19 horas.

Num registo diferente e na mesma sessão, Ibéa Julie Atondi e Karim Miské, através de “Contes Cruels de la Guerre”, propõem-nos conhecer as inúmeras guerras “étnicas” que ocorrem em África, sob a perspectiva das vítimas e dos carrascos, para que assim possamos reflectir sobre a guerra e os crimes que nela se cometem com mais do que as imagens pontuais que passam nos noticiários, conhecendo pessoas transformadas em “símbolos de miséria e fatalidade”. Reflexão esta que é guiada pela narradora na viagem de regresso ao seu país natal, o Congo-Brazaville.

Ao fim da tarde de terça-feira, passa “Junod”, documentário Moçambicano que retrata a vida do missionário e etnógrafo suíço que viveu na África Austral. Nesta película, o missionário que produziu importantes reflexões sobre o continente negro é-nos dado a conhecer pelos olhos da comunidade.

Pelas 21:30, e durante aproximadamente meia-hora, a realizadora Amy Collé Diop desenha-nos a sua visão da indústria cinematográfica senegalesa, considerada uma das mais prolíficas e interessantes de África, numa tentativa de melhor compreender o cinema feito no Senegal e prever o seu curso.

No dia seguinte, entre outros, poderemos ver o filme de animação “Kirikou et la Sorcière”, realizado por Michel Ocelot e que conta com a voz de Youssou N’dour. Nesta animação, o cantor dá vida ao pequeno Kirikou, que nasce numa aldeia enfeitiçada pela maléfica Karaba. Karaba fez com que a aldeia de Kirikou não se possa abastecer de água e, como se tal não bastasse, os homens desta aldeia desaparecem sem deixar rasto…

O desejo de uma vida melhor e a vontade de encontrar outro caminho para todos os jovens africanos, leva dois amigos guineenses a elaborar um projecto que, a seu ver, poderá chamar a atenção dos líderes ocidentais para os problemas que enfrentam no seu país e continente. Yaguine e Fodé são encontrados num trem de aterragem de um avião da Sabena, em Bruxelas, e escrevem uma carta a explicar todos os motivos pelos quais precisam que “Suas Excelências, os responsáveis da Europa” olhem para eles. Esta carta é um tocante pedido de ajuda dos dois adolescentes sonhadores. “Un Matin Bonne Heure” é realizado por Gahité Fofana e vêm da Guiné-Conacri.

Na quinta-feira, pelas 15 horas, passa “Ouaga Saga”, filme do Burkina Faso realizado por Dani Kouyaté, que retrata as aventuras de um grupo de amigos que procura desafios excitantes e mais ou menos loucos, o que os leva a cometer pequenos delitos, sem nunca perder o optimismo e a astúcia, que frequentemente compensam a falta de dinheiro e as difíceis condições de vida. As aventuras deste grupo de jovens tem como cenário a cidade de Ouagadougou, capital do Burkina Faso.

Às nove e meia da noite chega-nos, do Senegal, a história de uma mulher que, por meio de uma carta, conta a violação que sofreu aos 18 anos. Sokhna Amar apresenta assim o ensaio “Pourquoi” de oito minutos. De seguida é projectado “Juventude em Marcha”, filme dramático do português Pedro Costa, que versa sobre a vida de Ventura, um operário cabo-verdiano que certo dia é abandonado pela mulher. O elenco é formado por actores não-profissionais que interpretam as suas próprias personagens e é filmado nas ruínas do bairro das Fontainhas e no novo bairro Casal da Boba.

No dia 24 de Novembro destacamos a comédia dramática marroquina “Tenja”. “Tenja” conta a viagem de regresso de Nordine, nascido em França, que se vê incumbido de enterrar o seu pai, um imigrante dos anos 60, na sua aldeia natal Aderj, uma pequena comunidade dos Atlas marroquinos. Na viagem até Marrocos, Nordine conhece uma mulher que lhe desfaz a visão de um país que apenas conhece através de retratos e histórias familiares.

Do Níger chega o documentário “Village Nomade”, um documento que retrata o avanço do deserto e do vento sobre a aldeia do camponês Zeinami. “Village Nomade” foi produzido com o apoio da Unesco e inscreve-se num projecto de defesa ambiental.

Para Sábado está programada a exibição de “Guimba” documentário histórico sobre Guimba Dunbuya, tirano que satisfaz todos os desejos do filho Janguiné. Histórias de amor e donzelas acorrentadas ao destino.

Na última sessão do dia destacamos “Na cidade vazia”, de Maria João Ganga, que versa sobre a viagem de um grupo de crianças orfãs de guerra até Luanda. Quando lá chegadas, N´dala escapa ao controle da freira que os acompanha e vê-se perdido na capital do país. A freira vê-se então obrigada a procurar N´dala, que entretanto anda à deriva pela cidade imaginando que reencontra os pais, nos céus da sua província natal.

No último dia da mostra destacamos “D`une fleur double et de quatre mille autres”, documentário da República Democrática do Congo. “D`une fleur double et de quatre mille autres” é o titulo de uma parte da carta escrita por Pierre Haffner, especialista de cinema africano, onde partilha as suas apreensões quanto ao futuro do cinema que tão bem conhecia.

“The sky in Her eyes”, uma curta de apenas 11 minutos, vinda da África do Sul, conta-nos a história de uma rapariga que fica sem mãe, vítima do HIV. Para aliviar a sua própria dor, constrói um papagaio de papel e faz um desenho da mãe.

Estas são algumas das muitas propostas que nos esperam durante a próxima semana no Festival Kanema.



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