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Festival Rendezvous

Versão ponto dois do novo festival de culto setubalense.

Quando começou, no ano passado, conhecemos o Rendezvous com o epíteto de Festival de Jazz de Setúbal. No fundo, fazia todo o sentido; numa altura em que todas as cidades dignas dessa denominação têm ou um festival de jazz ou um de world music, Setúbal não tinha nem um nem outro. No entanto, quando este ano esperávamos pela segunda edição, eis que a World Community of People (WCP) – a associação responsável pelo certame – nos presenteia com um novo conceito: o Rendez Vouz, festival de jazz experimental, de improviso e electrónica.

Ana Baliza, directora artística do festival, explica-nos que “no primeiro ano houve uma tentativa de ganhar o coração das pessoas”, ao mesmo tempo que se pretendia “chamar a atenção para o jazz, que era pouco falado em Setúbal”. Numa cidade em que o público “não está habituado” a estes hábitos culturais e que, muitas vezes, não os procuram “por medo ou desconhecimento”, a WCP sentiu necessidade de se “aproximar mais das pessoas”. Assim, nesta segunda edição, a criança cresceu e o certame já procurou “um cariz mais próprio”, até porque “não era sustentável continuar a ser estruturalmente um festival só de jazz”. Além disso, pessoalmente, para a organização era mais interessante um cartaz e um programa “mais ecléctico e aberto a outro tipo de estilos”, sublinha.

Mas que será que andam a colocar na água de Setúbal, uma região onde música experimental parece proliferar mais do que em qualquer outro lado (lembram-se dos Encontros de Música Experimental (EME) ou do Out.Fest?). E será que há público para tanta oferta? Ana Baliza considera que o cartaz é “acessível” ao público em geral. “É experimental, mas é jovem”, descreve. Além disso, parece haver uma frescura renovada em Setúbal, com vários concertos, muita gente a fazer coisas e até bandas a surgirem com uma regularidade há muito não vista – sinal de que “a cidade está mais jovem”.

Além disso, há uma perspectiva diferente com o Rendezvous, que passa por “abrir a cidade a outra coisa e que se possa estender para além da sua própria geografia”. É que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, Setúbal não fica tão longe quanto isso de Lisboa. São apenas 30 minutos de carro. E para que não haja desculpas, a WCF estabeleceu duas parcerias “muito importantes”, uma com a Fertagus e outra com a Transportes Sul do Tejo (TST), concessionárias ferroviária e rodoviária da ligação Setúbal a Lisboa. Assim, quem quiser vir ao festival a Setúbal de transportes públicos, terá um incentivo monetário de 50 por cento e de 25 por cento do custo total do bilhete, respectivamente.

O Rendezvous poderá então tornar-se num acontecimento de culto para Setúbal a curt(íssim)o prazo, uma cidade “com enorme potencial” e que, na opinião de Ana Baliza, não se deve limitar a “nivelar com tudo aquilo que é tido como actual e moderno e que é pouco interessante”. E esta é uma das formas de se “distanciar” de outras cidades, pela positiva.

Olhamos para o cartaz e percebemos que isso está ao alcance. Este ano, aberto à internacionalização, o festival abriu portas para fora do país, numa perspectiva de criar colaborações inéditas entre os artistas. No fundo, passam pelo conceito de que o festival possa ser “um campo de experimentação”, uma plataforma para os artistas e um balão de ensaio público e aberto a todos. É neste âmbito que surge, por exemplo, o concerto de Manuel Mota com Jason Kahn. Ana Baliza explica que, inicialmente, o concerto era para ser uma experiência musical inédita entre o guitarrista português e David Maranha, “num contexto diferente do que costumam apresentar”, mas depois isso não foi possível e surgiu a possibilidade de o juntar ao norte-americano Jason Kahn. “É a vantagem de ter flexibilidade de cartaz”, realça Ana Baliza.

Mas os principais destaques do festival (se nos arriscamos a fazê-lo, tarefa sempre ingrata nestas situações) passam pelos nomes internacionais. Ana Baliza começa por destacar o francês Benoît Delbecq, em estreia absoluta em território nacional, e que é “um músico de jazz que apela à música contemporânea”, o que pode resultar em algo “diferente”. Depois, realça “os dois jovens de Leeds, onde têm sido membros bastante activos do panorama artístico” (não só da música, mas também das artes visuais): falamos de These Mountains e de Glaciers. O primeiro, vulgo Nicolas Burrows, é responsável por “um jazz influenciado pela música do Médio Oriente e da Índia”, enquanto o segundo, vulgo Jonny Fryer, apesar de estar “imerso em bastantes projectos e outras bandas”, a solo apresenta-se quase como um homem dos sete instrumentos. Além disso, o cartaz inclui ainda Mikado Lab, que trazem na bagagem um novo disco, o incontornável Sei Miguel, ou Coclea, projecto a solo de Guilherme Gonçalves, que o ano passado, com os Gala Drop, lançou um dos discos mais estimulantes do panorama mais experimental português.

Paralelamente a isto, o Rendezvous faz-se também de cinema, uma vez que “faz parte também do crescimento do festival” desde o ano passado e, claro, “não são só os concertos que definem o carácter de um festival”. Surge aqui então “On The Edge” parte III e IV, o “único documentário feito sobre improvisação”, que transmite um lado mais “pedagógico” a um festival de música experimental, conceito lato e muito difícil de explicar e que, às vezes (a maior parte das vezes?), pode ser mal entendido. Esta é uma “raridade”: dois filmes de Derek Bailey, “complicadíssimos de se arranjar”, uma vez que nunca foram editados pelo Channel 4 e que chegam a Setúbal devido à boa vontade de um cidadão brasileiro, bem confortável lá do outro lado do Atlântico.

Para mais tarde fica um workshop “que era para acontecer agora”. Ana Baliza explica que é uma colaboração com uma escola preparatória, a do Aranguês, em Setúbal, e que se prende com o programa musical pedagógico deles. E como as escolas não fazem visitas de estudo no primeiro período, a iniciativa só vai acontecer em meados de Abril. E em que consiste? No fundo, uma vez que já não se fazem, em Ciências da Natureza, visitas à serra da Arrábida – “um crime”, ressalva – passa por se juntar o útil ao agradável. Em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza (ICNB), a WCP vai promover uma visita dos jovens à serra – ex-libris setubalense – com um workshop musical ligado à percussão numa pedreira abandonada. E, embora o convite ainda não tenha sido feito, o nome do instrutor até já está pensado – Ricardo Martins, ilustre baterista dos Lobster, Adorno, R- e de mais um sem número de igualmente ilustres projectos.

Este ano, o festival ocorre todo no centenário Club Setubalense, instituição mui honrada do panorama de Setúbal, depois de ter sido acolhido pelo fórum municipal Luísa Todi no ano passado. Este ano, devido às obras de requalificação deste, foram obrigados a mudarem-se para “uma casa que os tem recebido bem”. No fundo, a escolha não causou surpresa: ao longo dos últimos meses, a WCP foi pontuando a sua actividade com alguns concertos no Club Setubalense, desde os nossos Azevedo Silva ou Júlio Resende até às lendas do free-jazz Alan Silva e Burton Greene, algo que Ana Baliza garante que é para continuar e não necessariamente circunscrito à música experimental. No fundo, é assim que se criam os tais hábitos culturais e a habituação do público. E é assim que se preparam os bons festivais.



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