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O Estranho Mundo Rendez Vous

Improvisação, Free Jazz & Electrónica @ Mosteiro da Igreja de Jesus, 4 e 5 Novembro - Setúbal.

A dar as boas-vindas ao público no primeiro dia, uma estrutura sonora gritava dos azulejos em queda nas arcadas húmidas e gastas pelo tempo dos velhos Claustros do Mosteiro. Vultos deambulavam em volta do fontanário, misturavam-se com as vozes seculares ainda cativas no labirinto religioso dando ao festival um toque medieval e pagão.

Na ala reservada para os concertos, que outrora sofrera outras preces, a minimal escultura sonora de Alexandre Estrela com participação de Neil Campbell ousava debitar, dissimuladamente, uma distorcida samplagem de «Rock n’ Roll» dos Daft Punk num tom agressivo e assustador que, misturado com o céu que carregava lá fora para mais uma noite de canícula invernosa, conferia à noite um ambiente lúdico e promissor, um ambiente Rendez Vous.

Numa áurea gótico-caótica, que fazia jus ao edifício manuelino do arquitecto Diogo Boitaca, foi-se aglomerando uma pequena multidão, muitos deles habitués das edições anteriores do festival. Alguns deles espreitavam a medo por entre as cortinas negras que separavam a pequena sala de concertos do espaço exterior. É então que um loop salivar reuniu novamente o público no salão quentinho dos Yong Yong, Rodolfo Brito e Francisco Silva. Agachados sobre os seus laptops, entrincheirados entre os cadavéricos alicerces de uma sala quase em ruínas, os Yong Yong entoavam nas fendas das paredes, interrompendo o silêncio. Orava-se um perfume a «Kid A» e «Amnisiac» dos Radiohead com a paciência e a boa vontade do «In non sense, non sense» dos Art Of noise. As bases da Pop desenrolaram-se concerto dentro sem nunca ferir a susceptibilidade da aristocracia experimentalista e minimal repetitiva, e acabou mesmo por ser a melhor actuação da primeira noite.

Entre moedas a cintilar nos bolsos, cerveja, moscatel e vinho tinto a preços saudáveis, refrescamos a mente na chuva miudinha e numa dança absorta avançamos para Tropa Macaca. Luzes dispararam sombras para o palco e loops soltaram os invólucros dos primórdios da Big Beats, projectando do palco fantasmas dos Low Fidelity All Stars, ainda que amputados dos ritmos que acabaram por dar origem a bandas como os Prodigy ou Chemical Brothers. A beat Box e dois teclados de Joana da Conceição ditavam a improvisação da guitarra de André Abel que sofria de falta de imaginação, não entrando no mesmo diálogo da sua parceira de espectáculo. Aquele som já gotejara mil vezes antes em mil palcos anteriores, ou nas disfuncionais bandas sonoras dos thrillers de série B dos anos 80. Até no caótico panorama da improvisação há uma disciplina que não se deve descorar e havia ali uma dificuldade em traduzir o dialecto sonoro da dupla para um calão mais despreocupado, situação que se foi prolongando pela noite fria. Lá fora a intempérie dificultava a fuga; por mais que se tentasse sintetizar ou compactar o que se ouvia para a atmosfera do festival, a sala dividia-se atordoada e expectante por uma explosão que nunca aconteceu. Chibatados pela confusa odisseia em que nos encontrávamos, ouvíamos o estalar de dedos nervosos na espera por Sábado, o dia mais promissor do festival.

Ao derradeiro dia, no que aos concertos concerne, coube a Marcia Bassett  e Margarida Garcia alojarem-se em palco para um concerto que começou com um considerável atraso. O público foi-se sentando em volta da dupla feminina, no aconchego de um tapete que aquecia o centro da sala. Marcia Bassett sentou-se com a guitarra sobre os joelhos e acariciou-a no cumprimento e na doçura de uma mãe que amamenta um filho. Margarida Garcia curvou-se num contrabaixo eléctrico, num simulacro de dores de parto e deram início a uma valsa balsâmica para os ouvidos de uma generosa plateia. Revisitaram Richard Strauss na agonia de Stanley Kubrick beijando assim a religiosa e composta ala do Mosteiro. Nada mais interessava no momento. O som estava em sintonia com o festival numa exacerbação intimista – houve mesmo quem o descrevesse como uma “experiência intergaláctica” – o diálogo feminino abrangia a plateia com uma sensualidade dolorosa, como um documentário a projectar o “anti-semitismo de campos de concentração nazis” e, muito amiúde, éramos acordados pelo roçar de pernas a cruzar e espasmos involuntários do diafragma. Sem compromisso assumido e de uma forma involuntária, a exibição sonora entrou pelo existencialismo de Arthur C. Clarcke e a carnificina de Adolf Hitler, ressuscitando de boa forma o dia.

Ao segundo acto, havia que apelar à memória da história da música nacional. Sei Miguel entrou em palco e anunciou o concerto como “uma paisagem sonora com um horizonte de 40 minutos e poeiras”. Apresentou a banda e depressa se desenvencilhou da timidez rotineira alinhando as arestas do microfone com o seu casual trompete de bolso. Como um espelho distorcido de «Another sucker in the wine» de Tom Waits, inventando um free jazz slow core, desalinhou em palco New Orleans e lambeu as feridas do furacão Katrina. Sei Miguel exprimiu em palco o romantismo de Chat Baker na rotina díspare de Hermet Pascoal com a barba descuidada da John Coltrane e o non sense de Jan Gabareck. A fusão dos instrumentos era difícil de captar, apesar do esforço de uma dedicada fotógrafa na plateia. Não há logística no free jazz, é cada músico por si na criação de um som para todos. É como alinhar fios numa tapeçaria no escuro e no fim alumiar um candeeiro para se comtemplar a surpresa do retalho. A magreza do som retocou a maquilhagem ao jazz sem o tornar proxeneta e vulgar. Há um dialecto infinito para se exprimir nesta vertente e neste concerto os músicos em palco meteram mais um parágrafo nesse discurso interminável. Sei Miguel deve ter mais anos de palco que o papa de concílio, mas ainda assim, ao contrário deste último, sempre que se vira ao púlpito tem uma mensagem a passar. Só temos que ter compreensão e discernimento para a receber, entender e massificar as tonalidades sonoras que cria a cada actuação.

Agradeceu-se solenemente a prestação do português e subiu ao palco nova montagem sonora. “Makimono”, de Werner Nekes com som de Anthony Moore, foi apresentado e projectado por Alexandre Estrela como preludio a Astral Social Club, que começou a vomitar imagens de uma natureza outonal no efeito de um loop postiço. Árvores, uma casa singela no meio da paisagem, um homem caminha nessa desolação. Ouviam-se ruídos por detrás da tela, mas a montagem reclamava para a imagem toda a atenção. Até poderia estar em casa, sintoniar a tv no MyZen ou no Odisseia, ligar o secador de cabelo na direcção das cortinas do quarto que a chuva de outono molhou, ou deixar o aspirador a esquecer os pêlos de gato no édredon da cama enquanto o carteiro nos soava on repeat a campainha com um ultimato para pagar a água. Mas isso não seria arte.

Finalmente o britânico entrou em palco rolando botões, transístores num ruído infernal e gratuito, que se acentuou quando deu uso a uma guitarra, havia quem se torcesse de prazer quem reclamasse para o palco um colete-de-forças para o veterano do drone/noise britânico. Uma coisa é certa, indiferente ninguém ficou à desordem que se acendeu em palco.

O festival fica marcado pela atenção positiva de Yong Yong, a confirmação de Sei Miguel, a agradável descoberta de Marcia Basset e Margarida Garcia, por um dia menos bom para os Tropa Macaca e por um britânico num bloco operatório com prognóstico clínico muito reservado.

Fotografia por Rendez Vous / Rui Silveira



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