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Filipe Raposo @ Culturgest Lisboa

Filipe Raposo é um músico singular. As suas composições são actos únicos, pautados de muito rigor e subtileza. É por isso que a mestria de "First Falls" dá muito que falar.

O concerto de apresentação de “First Falls”, o primeiro disco de originais de Filipe Raposo, não poderia ter corrido da melhor forma. O palco do Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, recebeu no dia 14 de janeiro o músico e compositor, assim como os dois trios que o acompanham há vários anos. Do lado de fora, a chuva fez-se anunciar como as primeiras chuvas de Janeiro. Coincidências…

Filipe Raposo subiu ao palco pouco depois da hora agendada, dirigindo-se de imediato para o piano de cauda que se encontrava no lado esquerdo do palco. Sentado de forma intermédia, de modo a poder observar os músicos que iriam juntar-se a ele, o músico inicia o concerto com um pequeno solo. De seguida, juntou-se Carlos Bica (contrabaixo) e Carlos Miguel (bateria) para tocarem «Em Tu Puerta», um tema tradicional transmontano. Seguiram-se os temas «Just Before Leaving», «Em Fado» e «Kind Of Impatience». Esta última canção contou com a participação de Hugo Fernandes no violoncelo e tem como base o tema «Trio Opus 100» de F. Schubert, música que o realizador Stanley Kubrick imortalizou no filme “Barry Lyndon”.

O cinema é a outra arte que complementa a musicalidade estética de Filipe Raposo. Durante as composições musicais foram projectadas na tela, que servia de pano de fundo, curtas-metragens realizadas por Nuno Bouça com fotografia e desenho de luz de Miguel Robalo. Filmadas a preto-e-branco e fazendo lembrar a origem do cinema, estas curtas-metragens ilustravam cada uma das melodias: assistimos a uma mulher de mão dada a uma criança enquanto subiam umas escadas; uma fila de pessoas de várias idades e vários modelos sociais, numa estação de comboio; ou então, já no final, uma viagem ao tempo como rotina e em contra-relógio ilustrado pela velocidade máxima com que apareciam as imagens.

Voltando à música, os músicos Yuri Daniel (baixo fretless) e Vicky Marques (bateria) juntaram-se em palco para interpretar «As Guerras Que Se Apregoaram», um tema tradicional algarvio e com uma base de improvisação entre os dois bateristas que deixaram a plateia absolutamente rendida. Por conseguinte, tocaram «First Falls», «I Found An Icon» e «Sadie Donka», um tema tradicional da Bulgária transformado em sonoridade jazzística de forma brilhante. Para finalizar, o tema «South Way». Com toda a plateia de pé, os seis músicos juntaram-se no centro do palco para agradecer e depressa regressaram para tocar mais um tema de forma improvisada, mas antes, novamente um pequeno solo interpretado pelo protagonista da noite.

Ao longo de todo o espectáculo, foi visível a extrema cumplicidade e conivência que todos os músicos detêm entre si. Bastava um simples olhar, um simples gesto, ou até nem sequer dizer nada, que a improvisação musical surgia naturalmente e de forma tão subtil, que todos se enquadravam e organizavam hermeticamente.

Para sintetizar, sobre este concerto, há apenas mais dois aspectos a reter.

O primeiro: Filipe Raposo é um músico singular. As suas composições são actos únicos, pautados de muito rigor e subtileza. É, por antagonismo, um músico plural, pois constrói a raiz da música com base na aprendizagem retirada do seu percurso académico e, também, entre descobertas. Nos seus solos, o piano ganha vida própria e quando os trios se juntam, as notas musicais harmonizam-se num só corpo, o que origina uma matéria única. O próprio músico afirma que este disco “é o eterno retorno do conhecimento – recebemos primeiro para depois descobrir”. E por isso eu continuo a afirmar que “First Falls” é uma metáfora aos sentidos explorados, às linguagens e ao tempo que se escuta em cada compasso.

O segundo: se não conhecem o trabalho de Filipe Raposo, então têm que o descobrir.

Galeria fotográfica dos ensaios do concerto por Joana Cardoso aqui.



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