header

Um casamento feliz

No Urban Sounds, a música casou com a internet. A Adidas e o Myspace apadrinharam

Chegamos cépticos a Alcântara, no passado dia 5 de Maio – mais uma marca, desta feita uma de equipamento desportivo, que se aventura neste conceito de mini-South by Southwest, ou seja, evento em que temos várias salas, com vários artistas a actuar simultaneamente. Estamos cépticos, sim… até entrar no recinto.

Chegamos em cima da hora, às 18, altura em que DJ Ride já distribui scratches e gira discos – sem Stereossauro, o seu companheiro de aventuras nos Beatbombers. Sala cheia para um Ride que se passeia, como já é habitual, pelo hip hop, pelo psicadelismo, pelo drum n’ bass e até pelo fado. Ouvimos samples de gente como Jay-Z e DMC e ficamos na expectativa relativamente a uma previsível homenagem a MCA – o recém-falecido Beastie Boy. Não sabemos se aconteceu, temos que mudar de sala – uma constante ao longo de todo o evento.

Mudamos de sala e, pelo caminho, somos surpreendidos por graffiti, uns finalizados, outros quase terminados. Seguimos para a Sala Sleek, onde está Chad Valley, projecto de um homem só que se passeia pelas electrónicas de quarto. Aborrece-nos rapidamente. Voltamos para trás, espreitamos o DJ set de um sereno Paulo Furtado aka The Legendary Tigerman, na sala Firebird. Set sexy, rock n’ roll, é um set de Paulo Furtado. Nota-se.

Na sala Adicolor, os Cavaliers of Fun, duo pop nacional sem vergonha de soar… pop. Dedica-se à mui nobre manobra rock n’ roll do air keyboard. De volta às ruas, reparamos que a música também se faz ouvir aqui – o que colocou problemas aos artistas menos dados à electricidade pura e dura, artistas como Norberto Lobo e Nick Nicotine, por exemplo.

Na Sala Campus, Os Velhos, talvez a aposta mais forte do momento vinda da Amor Fúria, oferecem indie-rock cantado em português com momentos bons e outros menos bons. A sala é a pior do recinto, o som é terrível. Refugiamo-nos na Sala Mary Jane, onde nos deparamos com a primeira infelicidade da noite. Nick Nicotine dá um concerto para uma sala vazia – de resto, a mais bonita das salas, uma biblioteca. Sozinho, apenas ele, de guitarra, no pequeno palco. Ao mesmo tempo que se atiram canções que se referem ao surf no Barreiro, ouvimos, no café, a audiência referir-se a discos e o público, que está de pé a folhear livros. Bebemos um café, exploramos o espaço e continuamos.

De regresso à rua, reparamos que, agora sim, os graffitis estão todos terminados e as latas de spray amontoam-se no chão. Regressamos à Sala Superstar, a que se situa logo na entrada do recinto e deparamo-nos com uma figura muito peculiar – um sujeito alto, de cabelos longos, calções, meias brancas e vestido pela Adidas. Infelizmente, a sala está longe de cheia, DJ Swamp merecia mais público. O DJ que mais tarde faria a festa também na Sala Originals brinca com os discos e usa e abusa do scratch, ao mesmo tempo que esses mesmos discos, sobrepostos, são atirados, um a um, ao chão. É o chamado espectáculo dentro do espectáculo. Infelizmente, temos que seguir caminho e passamos pela Sala Firebird que, entre o set de Paulo Furtado e de um Jazzanova, passa Beastie Boys. «(You Gotta) Fight For Your Right (To Party)», claro.

Voltamos a fazer a rua, à caça de outra sala, a Gazelle, e deparamo-nos com um conjunto de b-boys a actuar, sob o olhar atento de um enorme círculo humano. A cultura hip hop está, portanto, cem por cento representada. Na tal sala, Futurecop! oferece boas doses de revivalismo dos anos 80 – ouvimos, por exemplo, um dos maiores sucessos dos Naked and Famous – gente boa. Mais uma vez lá fora, antes de chegarmos aos Capitães da Areia, deparamo-nos com demonstrações parkour. A actuação dos primeiros capitães da noite apetece-nos colocar sob a forma de enumeração alguns nomes: Heróis do Mar, alegria, Verão, Vampire Weekend e festa. Foi isto tudo.

Por esta altura já percebemos que conseguimos pouco mais do que picar o ponto em cada concerto. Seguimos para a Sala Sleek, onde já se passeia o rock nervoso dos Youthless. “Conhecem Talking Heads”? Poucos são os que respondem. Voltam a perguntar, desta feita pedindo que colocassem os braços no ar, e, agora sim, meia casa conhece a banda de David Byrne. «This Must Be The Place» é a versão escolhida. Não temos muito mais tempo para os Youthless (a cover parecia seguir para bom porto). Nesta altura, Manuel Fúria e os seus Náufragos sobem a palco, ao mesmo tempo que dos Dusk at the Mansion na Sala Blue e os Jazzanova, que já giram pratos na Firebird.

Chegamos à Sala Campus, a tal do péssimo som e que prejudica claramente a música de Manuel Fúria e os Náufragos. Em palco temos dois violinos, uma guitarra acústica, um teclado, uma bateria e a idiossincrática guitarra eléctrica de Manuel Fúria. Lembram-nos os Arcade Fire – a disposição da banda em palco, a grandiosidade desta música, o nível épico desta canção que, em Portugal, é só dele, de Manuel Fúria. Este é para ver noutras condições.

Na Sala Blue, os Dusk at the Mansion, Ricardo Mestre e David Costa, manipulam vozes digitalmente mantendo a opção do contra-baixo – já não os víamos desde o concerto em que abriram para os Klaxons, em 2010. Na Sala Mary Jane, Jono McCleery, escritor de canções emotivas, dolorosas e carregadas de lamurias quase não se faz ouvir – lá fora há demasiada electricidade para a delicadeza de McCleery. Pausa na maratona para jantar e espreitar o clássico, no Dragão – uma das mais reputadas Francesinhas de Lisboa, mesmo ali à beira do LX Factory, vem mesmo a calhar.

Regressados, recomeçamos pela Sala Superstar, com a dupla de DJs Rashada & Spinn. Canções e samples instrumentais avulso é a ementa apresentada. Na Firebird, o set dos Junior Boys dá música ao jantar de muita gente. Mais à frente, reparamos que começaram as filas e não conseguimos espreitar Capitão Fausto. Pelo que ouvimos lá fora, não terá sido muito diferente do que vimos no evento de apresentação da Chifre e no Mexefest Porto. Energia, muita, rock, cena indie, nada de novo, mas, a espaços, entusiasmante. Esta tem que ser a hora favorita dos indies, os doismileoito oferecem pop-rock nacional cheio de melodias trauteáveis na Sala Campus.

Já perto das 22, a Sala Sleek recebe os The Electronic Conspiracy, duo electro-punk que cospe frases e palavras. O público entusiasma-se. Do outro lado da rua, Sala Mary Jane, Norberto Lobo enche a biblioteca – há público no chão, nas escadas, nas cadeiras e no primeiro andar. Depois do belo concerto que deu com Carlos Bica, no Festival Rescaldo, na semana passada, Norberto volta a fazer-nos viajar ao som de maravilhosos dedilhados. Os adultos mostram reverência, os miúdos falta de paciência. Infeliz do grupo de raparigas que sai numa altura em que ainda não tinha saído da guitarra de Norberto uma única nota. Diziam elas, no alto dos seus 16/17 anos: “Isto pode até ser muito interessante, mas…”. Perdem elas, ganhamos nós: Espaço.

Na Sala Blue, os Memória de Peixe já avançam confiantes na companhia de Da Chick que sobrepõe a soul e o funk a que não estamos habituados aos instrumentais rock duo. Perto, na Sala Gazelle, DJ Mpula, dos Batida, faz-nos dançar ao som de ritmos africanos, o kuduro, claro, à cabeça. É o último set antes da debandada para a Sala Originals, um mega espaço com uma mega pista de dança. O evento principal chegava ao fim, mas a noite ainda era uma criança. A festa continuou noite dentro, claro.

Numa altura em que este tipo de evento tem tendência a banalizar-se, tal a quantidade de propostas, a Adidas revela inteligência e um novo fôlego ao conceito. Há branding, sim, mas sem exageros. Mais: o casamento do evento com a Internet teve um final feliz. Para além de ter sido promovido online (a Adidas, o Myspace, as bandas), no recinto ainda encontramos vários QR Codes e um projector com os tweets relativos ao evento – esquecemo-nos de apontar a hashtag.

Fotografia por Marisa Cardoso. Galeria disponível aqui.



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This