“Portugal antigamente” de Gonçalo Farlens
Entre a memória e a idealização do passado.
Gonçalo Farlens tornou-se um fenómeno de popularização e divulgação da história portuguesa antes mesmo de concluir a licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Através da sua página Portugal Antigamente, é possível seguir imagens antigas, curiosidades e episódios que resgatavam o quotidiano de um país, ora a em preto e branco, ora a cores. Agora, esse projeto ganha forma no livro Portugal antigamente (Oficina do Livro, 2025), uma coletânea visual e narrativa que percorre mais de um século de história.
O sucesso de Farlens nas redes sociais explica-se pela sede de passado num presente que se tornou rápido, fragmentado e amnésico. As suas publicações oferecem a estética de um Portugal “de outros tempos”, onde tudo parecia mais simples e, de algum modo, tocante. Seguindo essa linha, o livro propõe uma viagem social, política e emocional pela memória nacional, entre imagens raras, episódios curiosos e pequenas histórias de gente comum, estando a obra dividida em cinco capítulos: Anos 1840-1920; Anos 1920-1940; Anos 1940-1960; Anos 1960-1980; Anos 1980-2000.

Enquanto folheamos o livro e deixamos que a saudade, a curiosidade e a memória se alinhem, cresce a sensação de nostalgia, mesmo para quem não viveu “aquelas” imagens, com Farlens a romantizar um país pacato, harmonioso, quase idílico, onde a dureza social, a desigualdade ou o autoritarismo parecem diluídos no sépia das fotografias. E ao dar o privilégio à beleza das imagens, Portugal Antigamente resgata a melancolia de um país (quase) esquecido ou perdido nos recantos de outrora, aproximando gerações.
De assinalar o extraordinário trabalho de curadoria fotográfica, assim como a construção dos textos simples que acompanham as imagens, cuja linguagem é cativante, tornando este livro num verdadeiro álbum de família que se quer degustado com calma, sem pressas, tirando proveito do sabor das imagens paradas em várias décadas, lembrando-nos de como vivemos num Portugal sem tempo, e com um passado e, esperemos, futuro, bem vincados.
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados