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Gary Lucas @ Plano B

Finger lickin’ good.

Então, Porto? Nada de amor por velhotes que se vestem à Blues Brothers e que tocam p’ra caralho? Ainda por algum tempo depois da hora marcada para o concerto só se ouvia na sala de concerto do Plano B um CD do Bob Dylan, significante imediato de que o que estava para acontecer seria Adulto e Autêntico. E mesmo assim, quando Gary Lucas subiu finalmente ao palco, no passado sábado, 27 de Janeiro, ainda não se podia dizer que a sala estivesse minimamente composta – basicamente, para além do contingente de que fazia parte o vosso humilde escriba, só se via meia dúzia de adolescentes entusiásticos (virtuosismo Blues-Folk, a próxima grande cena nas escolas secundárias deste país? Fique atento a este espaço). Com profissionalismo de veterano, o antigo companheiro de Jeff Buckley e Captain Beefheart começou a tocar.

As composições de Lucas tendem a seguir uma fórmula que, dentro da improvisação, até está bastante bem definida: há a parte noisey e atmosférica, durante a qual o guitarrista brinca com efeitos e utiliza a guitarra para evocar caos e ruído (isto acontece, normalmente, ou para começar ou para finalizar a música) e há a parte mais lírica, durante a qual Lucas demonstra os seus consideráveis dotes de finger picking na guitarra acústica, tomando como base o Blues e o Folk (tanto americano como britânico); isto acontece durante o resto da canção e é também conhecido como “a parte que dá mais gosto ver”.

Nunca consegui gostar de Jeff Buckley, do melodrama, dos maneirismos, da voz (cuja influência quase omnipresente nos vocalistas de Rock da última década mereceria o seu próprio artigo). Não quero fazer disto um grande brasão crítico, nem me vou queixar do Lucas ter tocado as músicas que, afinal de contas, co-escreveu e que devem ser a sua maior cause célebre. Menciono apenas para fazer a ressalva que, se tivesse mais afeição pelo artista original, talvez teria encontrado mais de que gostar na actuação surpresa de Diana Piedade (“a Diana dos ‘Ídolos’”, in the parlance of our time), que acompanhou Lucas em duas canções de Buckley. O grande problema dos concursos de talento televisivos, ao contrário do que se vem dizendo, não é tanto colocarem a imagem à frente do talento, mas sim a insistência numa certa definição, seca e formuláica, do que constitui talento. E o desempenho vocal de Piedade a isso atestou: algum melisma, voz séria e solene de quem tem muita Sinceridade e Emoção, posição parada em palco a fazer movimentos de holy ghost com as mãos. É uma definição de “alma” entediante e caducada, mas que infelizmente se conseguiu insinuar no subconsciente colectivo como o atalho de eleição para qualquer catarse emocional. O melhor que posso dizer: Lucas estava em boa forma, e poder focar-me na guitarra foi uma experiência interessante com estas canções.

À medida que o espectáculo foi avançando, as selecções foram ficando mais eclécticas – aqui uma música feita em parceria com a Najma Akhtar, acolá um medley de canções chinesas dos anos 30. Lucas mostrou-se afável, um bocadinho cansado e sedento de contacto com o público, o que resultava por vezes em interacções um pouco complicadas (uma anunciada versão de «Hellhound On My Trail» de Robert Johnson, bem como outra colaboração com a Diana, ficaram por tocar). “Pão de ló com presunto é badalhoco”, já dizia um amigo meu; por isso mesmo, o concerto de Gary Lucas não insistiu em fusões desnecessárias. Às vezes um homem e uma guitarra são o suficiente.



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