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Andycode

Andycode é o mais recente alter-ego do músico português André G. Mendes. Por alturas de estreia, procuramos saber o que esconde este novo “personagem” do outro lado do espelho.

Acrescentando à descrição de músico as palavras compositor e produtor, marca registada no seu perfil, não será demasiado questionar: como consegue um só artista desdobrar-se em tantos e tão exigentes papéis? André, que se tem revelado ainda auto-promotor dos seus projectos no mundo virtual, admite: “não é fácil manter todas as bolas no ar, principalmente quando se lança um álbum independente e se está em Portugal, mas é um facto que de há uns anos para esta parte tenho praticado algum malabarismo. “

E porquê o alter-ego? Sofrerá o André G. Mendes mutações criativas frequentes ou apenas as suficientes para trazer valor ao processo? André é inequívoco na resposta: as mutações criativas são uma constante, e por isso mesmo vê em ”The Other Side of the Mirror”, o álbum de estreia de Andy Code que chegou aos ouvidos em Outubro, um desafio. Como o serão todos os projectos e criações a que se propõe. Aliás, gosta “demasiado de música para [se] restringir a um determinado conjunto de estilos.” Andy foi mais exímio que outros egos: “acaba por abranger um maior espectro sonoro sem perder coerência.” Não se coíbe de assumir que o que valoriza e diferencia um músico, uma banda, um artista “é a sua capacidade de inovar e procurar surpreender […] este processo é algo inevitável para quem procura evoluir na sua arte”.

Sendo o alter-ego que mais arriscou, que mais deu e mais procurou, que emprestou de André G. Mendes a Andy Code? “Histórias de vida, encontros, desencontros, alegrias, tristezas, aquelas coisas que nos fazem sentir vivos.”

E é de facto algo de muito pessoal, quase arriscaria dizer auto-biográfico, o que nos traz este “outro lado do espelho”. Sem se atrever a largar as vestes electrónicas que o caracterizam, Andy Code conseguiu ir beber do rock alternativo e do new jazz influências seguras e certeiras. Se vê os rótulos musicais como ponto de ancoragem? “Não se trata de ancoragem, todos temos estilos / influências com que nos identificamos mais, as minhas, para já, são estas. No caso de Andy Code, talvez por ser tão ecléctico tenha surgido da minha parte um esforço quase utópico para o tentar catalogar (detesto esta palavra). A verdade é que quando me perguntam que estilo de música faço nunca consigo dar uma resposta concreta…”

Será a dificuldade na definição uma desculpa para procurar o outro lado do espelho? Será a ilusão da realidade, ou a realidade do avesso, o que o seduz? Andy Code nega a ilusão, o espelho não é mais que “um reflexo do eu” ainda que não necessariamente “do avesso”. O recurso ao espelho é quase como uma demanda pessoal, a “necessidade de procura de paz de espírito” ou, talvez mais arrojadamente, de se atrever a “[sonhar] acordado”. Sonhar acordado não rouba honestidade à arte, talvez consiga até atribuir-lhe outras formas que ignoramos antecipar… E haverá algo mais honesto do que propormo-nos ser além do que somos? Porque no fundo, tudo se resume a “fazer o que se gosta, como se gosta e no final ser-se compreendido e valorizado como tal”.

Ainda que por vezes usemos códigos só nossos… como o código Andy, o qual, apesar de “[assentar] num plano existencial”, não é uma linguagem só do artista… “mas sim, é uma linguagem muito própria. No final de contas, por mais into the wild que caminhemos é a partilha de sentido que nos move”.

É nesta partilha que nos deixamos levar, tentando agarrar palavras que escondem episódios de vida, e escolher imagens que decalquem a serenidade que sabemos poder encontrar. Não fosse “The other side of the mirror” “um álbum muito visual e cinematográfico”, que nos transporta quase no imediato para um cenário idílico de paz, como se o mundo real tivesse um botão off, que fosse nosso para controlar. Basta espreitar o videoclip do single «The Glare» para detectar o detalhe na escolha de imagens que falem mais do que as palavras, quando já estas transbordam sentido. Este impacto deve-se em muito à colaboração da equipa que realizou e inclusivamente fez a sua aparição no referido videoclip. “O filme e a fotografia [ajudaram] a transparecer melhor o conteúdo da mensagem, talvez por isso tenha tido lugar de destaque n’O Alfaiate Lisboeta (blogue que vive de histórias contadas por imagens)”.

Quanto à evidente influência de Nirvana na sua musicalidade (sendo frequentes as versões e inspirações que lhe chegam directamente de Kurt), considera que actualmente a sua música tem “constantes mais comparativas”. No entanto, confessa-se algo sortudo por ter nascido nos anos 80, uma era musical inspiradora por natureza que o influenciou “ao ponto de comprar uma guitarra e um micro”. Mas enganem-se os que pensam ser Kurt a sua musa inspiradora. Acrescentem-lhe Jeff Buckley e Mark Sandman e uns quantos outros ícones imortalizados, referências para muitos da sua geração.

A música de Andycode, ou os laivos dela que por ora, pré-lançamento, conseguimos espreitar, são de um movimento constante. É evidente a procura por mexer, fazer, sentir mais, sonhar mais, ir além. Como se fosse a sede do abismo o seu motor. No entanto, subtil ou declaradamente, há sempre alguém a respirar além da voz que canta, alguém que torna irreal a possibilidade de saltar. Há algo que sossegue André G. Mendes? “Sossega-me acabar uma música, baixar as luzes do estúdio, pousar a guitarra, desligar todos os instrumentos, inclinar a cadeira para trás e ouvir de olhos fechados pela primeira vez, como se não fosse minha. Sentir a madeira da secretária a vibrar à frequência baixa dos subgraves como que se ganhasse vida a cada pulsação.” E vida é o que vamos descobrindo quando cedemos à tentação de, qual Alice, atravessar a pequena porta para o mundo maravilhoso que ele guarda atrás do espelho.



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