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Great Yarmouth: Provisional Figures chega à RTP1 em formato de série

Marco Martins transforma o retrato da emigração portuguesa na vila inglesa numa série de três episódios, com estreia a 29 de setembro na RTP1.

Great Yarmouth: Provisional Figures, de Marco Martins, estreia-se em formato de série a 29 de setembro, às 22h45, na RTP1. A obra retrata a dura realidade dos emigrantes portugueses numa vila costeira inglesa transformada pelas fábricas de transformação de carne de peru e marcada pelo Brexit e pela pandemia. O projeto resulta de mais de cinco anos de investigação de Marco Martins junto da comunidade portuguesa de Great Yarmouth, no Norfolk, e já passou por uma peça de teatro e por uma longa-metragem que integrou a Seleção Oficial do Festival de San Sebastián. O elenco é liderado por Beatriz Batarda e Nuno Lopes.

Da peça de teatro à longa-metragem, e agora à série

Great Yarmouth: Provisional Figures nasceu de um longo processo de investigação de Marco Martins junto da comunidade portuguesa da vila costeira inglesa, que se cruzou com o Brexit e com a pandemia de Covid-19 e que acabou por se desdobrar em vários projetos artísticos: uma peça de teatro, estreada em 2018 no Norfolk & Norwich Theatre Festival e interpretada inteiramente por não atores — trabalhadores das fábricas e habitantes de Great Yarmouth —, e uma longa-metragem que integrou a Seleção Oficial do Festival de Cinema de San Sebastián.

Agora, o filme original, com 113 minutos, ganha uma nova vida em formato de série, repartida em três episódios e com um total de 150 minutos. O tempo adicional permite trazer à luz histórias que tinham ficado por contar e aprofundar as vivências das personagens. A série tem a sua estreia marcada para dia 29 de setembro de 2026, na RTP1, às 22h45, com os três episódios emitidos em maratona. Pode ler mais sobre o projeto no press kit oficial.

Uma vila fantasma que se tornou destino da emigração portuguesa

A ação situa-se em outubro de 2019, em Great Yarmouth, no Norfolk, três meses antes do Brexit. Centenas de portugueses continuam a chegar a esta vila costeira semiabandonada — outrora um destino balnear de eleição para a classe trabalhadora inglesa — em busca de uma vida melhor. Sem passaporte e a viverem em condições precárias, os trabalhadores portugueses, apelidados de “pork and cheese”, sujeitam-se a regras rígidas e a Zero Hour Contracts nas fábricas de transformação de peru da região.

A emigração portuguesa para Great Yarmouth começou por volta de 2009, com as grandes fábricas de transformação alimentar a aproveitarem os hotéis vazios da vila para instalar os seus trabalhadores. Hoje, apesar do Brexit, estima-se em mais de dez mil o número de portugueses que ali vive, ao ponto de o comércio de algumas ruas secundárias — cafés, cabeleireiros, mercearias — ser já exclusivamente português. Numa região com uma das taxas mais altas de desemprego do Reino Unido, onde o voto Leave teve mais de 70% no referendo do Brexit (71,5%, a quinta percentagem mais alta de toda a Inglaterra), Great Yarmouth tornou-se palco de uma bolsa de pobreza endémica numa região genericamente rica.

Tânia, a “Mãe dos Portugueses”, e uma rede de exploração

No centro da narrativa está Tânia, interpretada por Beatriz Batarda, antiga trabalhadora das fábricas apelidada de “Mãe dos Portugueses”. Casada com um inglês, Tânia lidera uma rede de contratação de mão de obra barata vinda de Portugal para trabalhar nas fábricas da região. Vive da exploração dos emigrantes que instala nos decadentes hotéis da marginal, pertencentes ao pai do marido, na esperança de um dia adquirir cidadania inglesa e transformar os hotéis em residências para cidadãos seniores.

O elenco conta ainda com Kris Hitchen, Robert Elliot, Romeu Runa, Nuno Lopes, Rita Cabaço, Hugo Bentes e a própria população de Great Yarmouth. A produção é assinada pela Uma Pedra no Sapato, em coprodução com Les Films de l’Après-Midi, Elation Pictures e Damned Films.

Cinco anos junto da comunidade portuguesa do Norfolk

Na nota de intenções que acompanha o projeto, Marco Martins descreve Great Yarmouth como “um lugar bizarro, enigmático, uma espécie de fim do mundo”, onde os hotéis e pensões que outrora serviam famílias inglesas acolhem agora milhares de emigrantes dispostos a aceitar horários desregulados e condições de trabalho deploráveis. O realizador começou por entrevistar os emigrantes nos cafés de King Street — a que os portugueses chamam Rua Augusta — a convite do Arts Council e da associação Sea Change, num trabalho de investigação que se estendeu por mais de cinco anos.

A rodagem, interrompida durante seis meses pela primeira vaga da pandemia, cruzou-se com as próprias condições das personagens: isolamento, medo constante e incerteza quanto ao futuro. “Camadas de realidade e ficção que se juntam num lugar de encontro entre a minha imaginação e os relatos em primeira mão daqueles que vivem diariamente a violência deste lugar”, escreve Martins sobre o processo criativo que deu origem ao projeto.

Com a estreia da série marcada para 29 de setembro na RTP1, Great Yarmouth: Provisional Figures ganha uma nova oportunidade de chegar a um público mais alargado, prolongando o percurso de um projeto que já passou pelo palco e pelos festivais de cinema internacionais. Ao desdobrar o filme original em três episódios, a série promete aprofundar o retrato de uma comunidade portuguesa pouco visível e de uma vila inglesa moldada pelas sucessivas crises das últimas duas décadas.



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