Guadalupe Plata

Guadalupe Plata

“Os sentimentos têm de ser entendidos”: o combustível desta máquina do tempo, em entrevista

Cada vez mais nos dias que correm somos assaltados por bandas a quererem redescobrir o passado da história da música pop (interpretar pop na sua verdadeira definição estilística e não como associação à sua vertente corriqueira e trivial que nos é injectada diariamente). Temos como exemplos mais recentes os Tame Impala, que repescaram o psicadelismo beatleliano para calibrarem a sua identidade, e as Savages, que importaram a alma do pós-punk do final da década de 70, reinventando aquilo que bandas como Siouxsie and the Banshees, Sonic Youth e Bauhaus fizeram nessa época. Estes são apenas dois dos exemplos actuais mais flagrantes. No entanto, no circuito menos mediático da música feita nos quatro cantos do planeta, existem vários exemplos de artistas a revisitarem o passado da pop e a comprovarem a tese que Simon Reynolds defendeu em “Retromania” (veja-se a quantidade de vezes que o prefixo “re” já foi utilizado neste primeiro parágrafo).

Perdidos neste oceano de redefinição, podemos encontrar, a escassos quilómetros do limite geográfico que define Portugal, na província de Jáen, mais precisamente no município de Úbeda, um trio que importa o passado do blues rock de uma forma exemplar. Eles são Pedro de Dios (guitarra e voz), Carlos Jimena (bateria, percussão) e Paco Luís Martos (baixo) e dão pelo nome de Guadalupe Plata. Recentemente o Rua de Baixo publicou uma crítica ao álbum mais recente do colectivo, porém, pensou-se ser interessante penetrar na névoa misteriosa que cobre estes músicos e a música que musicam. Assim sendo, contactámo-los para obter resposta a algumas das nossas dúvidas.

Comecemos por descortinar a sua sonoridade. De uma forma sucinta, mas com o intuito de transmitir uma imagem bem alargada daquilo que fazem, considere-se um projecto que respira a essência geral de bandas como CREAM, Doors e Led Zeppelin (tendo como base os primeiros anos de actividade destes últimos) e a alma em particular de artistas como Skip James, Hound Dog Taylor, John Fahey e Elmore James. Isto se falarmos de influências directas no universo musical, porém existe muito mais do que este apego aos artistas acima mencionados. Há toda uma ligação à sua cidade de origem, Úbeda. “O calor das suas pedras milenares caracterizam a nossa música, somos apaixonados pelo blues e pelas nossas raízes andaluzes, as raízes do nosso povo”, confessam.

Recentemente, antes de subirem ao palco do festival Optimus Primavera Sound, os Guadalupe Plata actuaram no espaço Lounge na zona do Cais Do Sodré, em Lisboa. A casa esteve cheia e os espanhóis brindaram os presentes com o melhor do estilo musical que nasceu nas margens do Mississippi e se electrizou na cidade de Chicago. Neste caso em específico, e visto o trio de Úbeda envolver a sua música num manto de poeira eléctrica e sujidade clássica dos anos 60 e 70, seria normal e completamente legítimo questionar se o colectivo consegue transportar tais características para as actuações ao vivo, ou se se trata de um processo trabalhado em estúdio. De facto, eles conseguem reproduzir fielmente a música que ouvimos em CD (nesta situação seria interessante falar-se em gira-discos, mas mantenhamo-nos fiéis à realidade), muito devido ao uso de equipamento musical vintage (pedaleiras, amplificadores..). Os instrumentos também eles são cuidados de uma forma rigorosa. Em alguns temas, Paco Luís Martos recorre, por exemplo, ao washtub bass, um instrumento característico da folk que utiliza uma selha de forma a provocar ressonâncias e explorar frequências muito baixas a nível de espectro auditivo.

Mas um dos grandes pormenores da música feita pelos Guadalupe Plata nem se foca tanto nos instrumentos que utilizam, mas sim na voz e na língua em que se expressam, o castelhano. Questionados sobre o porquê de se manterem fiéis às raízes e de não terem seguido a opção mais facilitadora neste campo, o trio justifica-se. “É muito difícil expressar certo tipo de coisas fora da tua língua-mãe, as letras ou gritos (como preferirem) vêm de dentro do corpo, das entranhas, depois sobem e saem pela boca. Os sentimentos têm de ser entendidos”.

Todavia, e como seria de esperar, o colectivo não se encontra só neste circuito espanhol de blues rock. “Existem em Málaga os Hollers e perto de Santa Maria os Little Cobras. Há também Nacho Castañon e D. Rogelio. Em Madrid temos os Sogorda y Surfea, Las Culebras e Las Rodilleras. Em Espanha há bom ferro-velho”.

A discografia dos Guadalupe Plata é constituída por três discos (um EP lançado em 2009 e dois álbuns de longa-duração editados em 2011 e 2013) todos eles homónimos. A razão para tal prende-se com o facto de não sentirem a necessidade de nomear os seus trabalhos. “Quando as canções contam uma história é normal intitular essa obra. Mas se pelo contrário as canções são simplesmente canções e não possuem nenhuma razão que justifique nomear a obra, como marca da casa, não o fazemos”.

Os Guadalupe Plata inauguraram a edição deste ano do festival Optimus Primavera Sound no Porto, porém esta não foi a primeira vez que estiveram em solo lusitano e subiram ao palco de um festival em Portugal. “A primeira vez foi no Barreiros Rock, um festival magnífico onde partilhámos palco com artistas portugueses como Nicotine’s Orchestra e Tiguana Bibles”. O trio já esteve, inclusive, de férias no Algarve, e guarda religiosamente as recordações da passagem por terras de D. Afonso Henriques. “As praias e as cataplanas… Ah! E uma igreja magnífica coberta de caveiras, a Capela dos Ossos…”.

Depois da actuação na edição portuguesa do festival catalão, a crítica musical dividiu a sua opinião relativamente à prestação ao vivo do colectivo de Úbeda. Todavia, quase todos os textos faziam menção à sonoridade suja da música que protagonizaram. De facto, estes tipos foram buscar as suas guitarras aos baús que se encontravam escondidos nos sótãos mais remotos da história da música e trouxeram-nos este som cheio de bolor e teias de aranha. Tais cordas poeirentas servem de combustível a uma máquina do tempo que viaja entre a Península Ibérica e o continente americano, mas sempre com um pé em Espanha e nas suas raízes linguísticas.



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