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Hélder Costa

"Se não existem autores a falar dos problemas do seu tempo o teatro tem de ir abaixo"

Hélder Costa, alentejano de Grândola, enquanto dramaturgo e encenador é um caso sério de internacionalização. Entre nós o seu percurso de trabalho teatral surge ligado quase exclusivamente à Barraca mas já dirigiu vários espectáculos em Espanha, Brasil, Dinamarca e Moçambique. Foi profusamente premiado, tanto nacional como internacionalmente. Entre outros textos seus que foram montados fora de Portugal, o “ O Príncipe de Spandau” é um dos casos mais destacados: estreou em Viena de Áustria e foi montado na Dinamarca, na Bolívia, em Madrid, Paris, Bruxelas, Roménia, Lisboa e Londres.

Um dos traços característicos do seu trabalho é a criação de textos que se debruçam sobre determinados aspectos ou factos históricos. Espectáculos como “Zé do Telhado”, “Príncipe de Spandau”, “D. João VI” e “Damião de Góis”, são alguns dos trabalhos em que ele, através da investigação própria, construiu uma visão muito pessoal desses mesmos acontecimentos. Diz-nos:

“Eu como vivi muito tempo durante o fascismo,  e as censuras e sabendo que isto era tudo uma adulteração dos factos, fui estudando, fui tentando descobrir  a história mal contada. Interesso-me por uma coisa e começo a investigar. Tenho uma coisa que comprei logo com a primeira massa que ganhei com “Liberdade, Liberdade”, (o primeiro espectáculo teatral a seguir ao 25 de Abril, que escreveu com Luís de Lima e Luís Francisco Rebelo), a enciclopédia Portuguesa Brasileira, uma coisa extraordinária, com entradas bibliográficas.“

Comecei por tentar perceber de onde lhe vinha este relação com a história ( ele que tem formação em Direito e em Letras):

“É muito curioso porque começou tudo por eu não gostar de história. Quando eu tinha 14 anos, eu odiava história, no colégio em Grândola. Odiava tanto que eu passava o tempo a ler O mundo de aventuras e coisas como essas. Há um dia em que o professor perde a cabeça e vem ter comigo, tira-me “O Mundo de Aventuras” e põe-me na rua. E quando volto à sala tenho de falar com ele. Ele zangado, pergunta-me porque é que eu não ligo nada à história e eu digo-lhe que a acho aborrecida, chata, e ele tem uma frase lapidar: “.-Então ó Hélder, tu que és um rapaz esperto, ainda não percebeste que a história é um mundo de aventuras?”.

Nesse dia voltou para casa e meteu-se  logo a estudar, para espanto do pai. Foi desde esse altura até hoje. Começou a estudar, teve a nota mais alta do país e depois veio para o liceu Camões. Entretanto desvia-se e vai para Direito, para ir para o Corpo Diplomático.  “Porque eu desde muito cedo viajei muito pela Europa, à boleia, com alguns amigos, e então essa vontade de viajar ficou-me”.

A política aparece muito cedo, desde logo indirectamente por questões culturais, associativas, ainda no Liceu Camões e depois, já em Coimbra, na sua República, muito agitada culturalmente: ”Eu vivia numa em que se discutia muito, em que vinham escritores ter connosco, o Redol, o Urbano, passou por lá o Marcel Marceau.” É nessa altura também que têm as suas experiências musicais mais marcantes, foi baterista e vocalista, um cantor de charme, cantando canções italianas e francesas. E é por causa deste seu lado que o levam para o CITAC (grupo de teatro universitário): “No CITAC era tudo muito politizado, eram os anos de 61, 62, … Há uma grande agitação. Aliás, eu já escrevi isto, antes do Maio de 68 nós tivemos uma grande revolução de costumes, sexual, aqui em 62.”

Fala dos costumes, da filosofia libertária, da guerra colonial, da divergência com o PCP que tinha uma posição ambígua contra a guerra, uma questão muito importante porque eles tinham amigos africanos que tinham ido combater na guerrilha. Depois vai para Paris e quando volta liga-se ao Cénico de Direito. Em 1966/67 o grupo ganha duas menções honrosas no Festival de Teatro Universitário de Nancy:

“É claro que nós agíamos no plano do teatro de urgência e a preocupação estética ficava para segundo plano, era fazer, fazer. Mas depois, a pouco e pouco como frequentávamos tantos festivais, víamos tanta coisa, a estética veio logo a seguir. Uma estética no plano da comunicação, muito desviada do formalismo, era pela via do humor, de uma ideia de sátira popular. “

A estética do teatro popular leva-nos a falar de hoje. Hélder Costa aponta o dedo àquilo a que chama paradigma neofascista:

“Não tem outro nome, este paradigma neofascista é… é pá dou-te um exemplo, agora temos que fazer outra vez a crise da alma russa antes da revolução, Tchecov, etc, e depois a peça é apresentada em todas as capitais da Europa ao mesmo tempo, o que quer dizer que se és um turista cultural estás lixado. Isso desvirilizou completamente o teatro.  O teatro tem de estar sistematicamente em crise se não tiver uma dramaturgia contemporânea. Se não há autores a falar dos problemas do seu tempo o teatro tem de ir abaixo. É isso que lhe dá força. As pessoas estão a falar das suas coisas. Temos de meter isto na cabeça.“

Começamos a falar da dramaturgia portuguesa, da crise. Para além de autor Hélder Costa é um agitador: criou há anos o Circulo Dramatúrgico com o qual desenvolveu um prémio de teatro, fez leituras teatrais mas depois o processo caiu, no meio das dificuldades com que A Barraca se foi debatendo.

“Isto da crise é assim: se uma pessoa está interessada em desenvolver o teatro tem de perceber como é que se criam públicos e quais são as responsabilidades do lado cultural. Se eu tiver um interesse social na cultura é evidente que a cultura fica mais social e o social fica mais cultural. Se eu não tiver isso está tudo lixado! Começam as crises, há um emparcelamento de públicos, eu vou ali, ali não vou, é uma estupidez, a cultura é múltipla, as coisas devem ver-se todas. Depois há que desenvolver a questão do teatro amador. Isso é a única forma de tirar a malta de casa, da contaminação mediática pela televisão, pelas novelas. Que têm uma função social mas depois tem de haver também esta coisa de puxar a malta para pensar.”

Fala do isolamento dos grupos, dos actores, dos criadores. A dimensão cultural e política da sua experiência de vida surgem ligadas. Isso deu em quê, pergunto-lhe:

“Sou um tipo que politicamente sou libertário. Para ficar bem esclarecido sou libertário e esquerdo-dependente. O que quero dizer que sou comunista, socialista, social-democrata, católico progressista. Odeio o Ratzinger. Gosto de palavra solta, adoro o humor, a sátira, ando preocupadíssimo em não perder isso…”

Mais à frente haveria de me dizer que não se vê como um intelectual, porque recusa a marca individualista, de recolhimento que lhe está associada, vê-se como um subversivo, um agitador de comportamentos e atitudes que acredita no colectivo. A nossa conversa anda aos saltos. De repente falo-lhe de que em O Mistério da Camioneta Fantasma o povo aparece caricaturado, de forma quase grotesca:

“Eu sempre critiquei o povo. Nunca tive essa ideia romântica. Nunca fui populista.  Eu sou do Alentejo, conheci aquela malta toda de ginjeira. O povo. Tive sempre contacto com essa malta que trabalha. Levava livros, lia com eles. O negócio da cortiça era da minha família. Achei muita graça àquela coisa do proletariado mas depois percebi logo que aquilo era uma parvoíce, era simbólico, metáfora. A minha bandeira foi sempre cultura e desenvolvimento. Aliás a revolução teve duas teses muito curiosas: ter sido possível uma revolução sem disparar um tiro é porque havia uma base cultural geral que impediu o tiro; depois, quando em dois anos, há um contra golpe ideológico, quer dizer que não havia cultura. Foi claríssimo o 25 de Abril. Isso representa o falhanço de uma política de esquerda que não ia dirigida à promoção do conhecimento da população em geral.“

E, no espectáculo, voltamos a “O Mistério da Camioneta Fantasma”, critica também violentamente os intelectuais e os artistas. De António Ferro, Fernanda de Castro, não estranho. Mas ele atira-se a Almada, a Pessoa! Falei-lhe disso:

“Eu estudei aquilo bem. O Almada Negreiros sempre colado ao regime. Na estreia veio o Lagoa Henriques e estava também uma senhora incomodada com o facto de eu ter falado no Pessoa, no poema que ele escreveu ao Sidónio, o presidente-rei. E eu respondi-lhe que falo das verdades que vou encontrando. E tu topas aí no debate cultural que há sempre um enchimento, um não falar. É preciso ter a noção de que enquanto tudo isto se passava havia gente a lutar de uma forma perfeitamente incrível. E se a gente gosta do nosso país é para olhar as coisas de frente.”

Surpreende-me a convicção com que declara o seu amor por este país, pelas pessoas. Haverá de dizer a certo momento – apelando à sua experiência de andar constantemente a percorrer o país – que na situação preocupante em que está o mundo se calhar Portugal é dos que está melhor porque “o pessoal ainda consegue chegar às pessoas.”. Estamos a chegar ao fim da nossa conversa. Vejo-lhe o constante envolvimento e não resisto a perguntar-lhe se alguma vez desanima. Lembra-se, numa vida de setenta anos, de há dois ter passado umas horas em torno disso, responde-me. Diante do meu espanto confessa que “ tenho um certo desencanto mas acredito perfeitamente no valor da acção. Acredito no poder de uma ideia que é justa.”

Já estamos mesmo a dar por concluída esta conversa.  Depois de me dizer que pensa festejar os trinta e cinco anos do grupo com um ano dedicado à dramaturgia lusófona, espectáculos, leituras de textos, lanço-lhe a última pergunta, no tempo das escritas intimistas, os blogues, tudo,  se pensa escrever sobre si? Goza comigo. “Vou lá escrever sobre a minha vida!”. E depois fala-me de um livro, “O saudoso tempo do fascismo”, que é o lugar mais próximo que esteve desse escrever sobre a sua vida:

“Escrevi o saudoso tempo do fascismo. O pessoal, os comunistas, a malta fora do PC, fala sempre do fascismo, através do horror e do sofrimento da luta antifascista. E ninguém fala do prazer da luta. Da alegria da luta contra o fascismo. Da alegria de enganar estes cabrões. Porque a questão fundamental para a gente falar com a juventude é isso. Vocês sabem lá o que a gente gozava com estes cabrões?! Depois apanhávamos porrada. Pois apanhávamos. Mas gozávamos. A adrenalina era essa. Falar do sofrimento, eu? Esses gajos estão errados. Eles deviam era falar da alegria da luta. “



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