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O Inspector Geral

"O Inspector Geral" estreou em Março, na Barraca, com encenação de Maria do Céu Guerra e música de António Victorino D’Almeida, interpretada ao vivo. Vai estar em cena até final de Maio. E ninguém lhe escapa...

Numa altura em que ASAE é palavra na ordem do dia nacional, corrupção uma manchete recorrente, e as novelas o entretém de muitos descrentes, fomos assistir à visita bicentenária de Gogol, no palco de Santos, para provar que quase todos os pecados capitais são remédio, com longa data.

Victorino D’Almeida aguarda o primeiro ensaio geral na plateia, expectante com aquela que é também a sua obra. Maria do Céu Guerra discute os preliminares com o Maestro; e os dois retocam os acertos técnicos finais com a equipa, antes sequer do início. Quem não os conheça julga serem “novatos na praça”, tal a agitação e empenho que dedicam à estreia assistida, com o zelo e o brio das primeiras vezes. É profissionalismo. E a experiência não tem de estar directamente relacionada  com o excesso de segurança. Ou não é?

A alhada começa, narizes enfáticos, com o anúncio da visita de um tal Inspector, numa pequena autarquia provinciana, tomada pela rotina autoritária e arrogante do seu presidente.

O engano é desde logo encetado com a chegada do próprio fiscal. Não era ele. Aí avançam a hipocrisia, vaidade, ganância, medo e tudo o que se possa pecar, durante a conveniente conquista ao inspector “Deus”. Se, por um lado, “Ele” poderia trazer a condenação de uma sociedade embrutecida, por outro traria a concretização dos sonhos de alguns queixosos, e a salvação para as aspirações românticas, nos casos mais frustrados e perdidos de amor.

O domínio do dirigente, tão austero quanto ridículo, é assolado pelo pânico cobarde com que reage à possibilidade da queda do seu frívolo império, pelas ilações (óbvias) do “Geral”. A curiosidade aguçada dos conselheiros, as falsas modéstias dos que temem ser modestos e a genuinidade dos campónios insatisfeitos, unem-se a puxar brasas do inspector oportunista ou, simplesmente, a maldizer a “sardinha” do vizinho. Tanto, até à deflagração dos podres comunitários, à desilusão de todos e ao “gostinho” aproveitador de um só: o Inspector Geral. Que nunca o foi.

Com imagem musical ao fundo, composições exclusivas do Maestro em tempo real, a peça vai distinguindo as camadas dissimuladas das personagens, na luta contra e a favor do “fiscal”.

Entre as manhas do “Cluedo”, aos que se lembram, e o desfile de um baile romanesco de máscaras, onde o disfarce comum começa e acaba no nariz, todos os intervenientes não são o que querem ser. Sociedade representada em (quase) todas as suas classes, os actores desmistificam culpas e segredos pela peça fora, ao serem postos à prova, na hora de o avaliador chegar.

Se pensarmos numa inspecção, das que agora se fala, estamos perto de adivinhar o comportamento consensual das “vítimas”, em prol do que é seu. E, requintes ou metáforas aparte, a actualidade com que Gogol (d)escrevia este processo, há 200 anos, assusta o bajulador, envergonha a futilidade, compromete o cinismo e faz tremer o suborno.

Cuidado: Ele anda aí



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