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Peça Para Dois

A Barraca apresenta "Peça Para Dois". Para quem a apanhar. Conversa com Rita Lello e Pedro Giestas.

Naquela que à partida poderia ser “só” uma peça de e para Rita Lello e Pedro Giestas, descobrimos um enredo de Tennessee Williams, criado para mais que dois. No teatro A Barraca, de 5ª a Domingo (até 29 de Março), a Peça Para Dois confunde o público com o avesso da verdade, do medo e da coragem.

Rita Lello e Pedro Giestas são Clare e Felice, dois irmãos desprezados pela companhia de teatro que os abandona em plena digressão, num desempenho contrafeito de uma tentativa de fuga da casa onde vivem, na cidade que os condena.

Realidade ou ficção? Só eles parecem saber, em terras de ninguém, quando confrontados com um escasso público provinciano (seremos nós?), de quem dependem, porém subestimam, que os subestima, porém abriga.

“Às vezes ainda ouvimos as mesmas coisas ao mesmo tempo.”
Os irmãos da peça são também irmãos fora dela, mas não o são cá fora. A verdade além da peça é a continuação da realidade perto dela (ou não?). Assim nos vão iludindo os actores, sem explicar onde reside a ilusão. A culpa deve ser de Tennessee Williams que escreveu “Peça Para Dois”, sem nunca parar de revê-la até à sua terceira versão, sobre a simbiose decadente de dois irmãos em desgraça, à frente e por trás das cortinas. A cumplicidade terna e abominável entre os dois suscita humor e discórdia, compaixão e desarmonia mas, sobretudo, levanta a poeira da desconfiança.

“Às vezes ainda vemos as mesmas coisas ao mesmo tempo.”
Arrancam palavras malditas às cenas que não querem declamar, com teclas fulcrais de piano; burlam o público com “brancas” recorrentes de deixas que teimam em não fixar; são apelidados de “loucos” por telegrama; choram-se devassados por tudo e por todos mas, ainda assim, Clare e Felice não desistem: “O impossível é o necessário esta noite!”.

A relação entre os dois actores traduz-se em cena numa afinidade corporal e psicótica, tão íntima e enérgica como a originalidade com que a peça transpõe os limites habituais do teatro.

“Às vezes ainda sentimos as mesmas coisas ao mesmo tempo…”
Não sabemos se Rita Lello e Pedro Giestas ouvem, vêem ou sentem as coisas ao mesmo tempo de Clare e Felice, mas a peça dos dois, para todos, faz ouvir, ver e sentir coisas diferentes, em tempos distintos.

RDB: Porquê a escolha deste texto do Tennessee Williams?

Rita Lello: É um texto muito interessante, uma reflexão muito profunda e emotiva sobre o teatro e sobre aqueles que vivem de e para essa arte, feita por um dos maiores autores do nosso tempo. É, simultaneamente, um texto de ideias e emoções em profundo equilíbrio, o que é muito raro encontrar. Além disso é um extraordinário desafio quer para os actores, quer para o encenador. Para os actores é uma espécie de prova de fôlego, de teste às suas capacidades nos vários registos que o teatro pode ter, porque a peça permite ir a todos; para o encenador um esforço enorme para que nem os actores, nem o público, se percam numa peça que tem uma estrutura fragmentada e elíptica e não obedece, de todo, a uma narrativa linear. Ao mesmo tempo veicula ideias muito concretas sobre um universo que forçosamente os apaixona.

Pedro Giestas: É preciso ter um conhecimento profundo de teatro e de outras obras para entender Tennessee. A identificação que faz nesta peça com, por exemplo, “Os Gigantes Da Montanha”, de Pirandello… É tenebrosa a semelhança que existe entre as suas personagens e estas duas. Leonor da Aquitânia, no seu trono… E os predilectos (ou aberrações) da Natureza… São imagens muito fortes dentro da peça. Mas quem são? Será que a Natureza gosta das coisas que são iguais, ou das que são diferentes? Só quem conhece, quem viu, é que percebe este universo e como tudo está tão relacionado.

RDB: Como é ter o trabalho todo (tradução, adaptação, encenação…), e ainda interpretar?

RL: É uma loucura. Sobretudo com prazos e limites impostos pelo ministério e com pouco dinheiro. Se eu fosse alpinista era como subir o Himalaia a correr com um saco de pedras às costas. Mas foi bom. Está a ser bom.

PG: A peça é um desafio muito exigente para os actores, física e psicologicamente. Mas é muito boa a exaustão do fim de espectáculo. É um grande prazer terminar cansado.

RDB: Como tem sido o acolhimento do público?

RL: O público tem reagido muito bem. As pessoas adoram o texto, o espectáculo, o cenário, os actores… Isto tanto para a maioria das pessoas de teatro que têm vindo ver e que são, naturalmente, um público difícil, como para o outro público, os que não são especialistas. Esse é também um público difícil neste caso, por se tratar de uma reflexão sobre o teatro, e por não conhecer o quotidiano e os métodos de trabalho dos actores por dentro. Não posso estar mais satisfeita nesse campo. Mas gostava que fosse mais gente ver… muita gente.

PG: Queríamos mais público. A peça é curta, o horário é óptimo, janta-se a seguir… É muito europeu este hábito de não ficar em casa à espera das 21h30, ou das 22h. É um horário tão prático. Mas não está dentro dos hábitos dos portugueses. Nós jantamos muito…

RDB: “Penso que é a minha mais bela peça desde Um Eléctrico Chamado Desejo”, disse Tennessee Williams, “e nunca parei de trabalhar nela… é um cri de coeur, mas, em certo sentido, todo o trabalho criativo, toda a vida, é um cri de coeur.” Querem comentar?

RL: É a opinião do Tennessee Williams sobre a peça. Considera-a a mais bela desde o “Eléctrico”, que muitos consideram a sua obra-prima. O facto de nunca ter parado de trabalhar nela não é surpreendente uma vez que ele próprio afirma que lhe custa separar-se das suas peças e que, nesse sentido, tende a voltar a elas, refazendo determinados momentos. Quando afirma que a peça é um Cri de Coeur, penso que o poderia afirmar de quase todos os seus trabalhos, sendo a sua obra tão profundamente autobiográfica. Neste caso talvez se sinta mais livre para o fazer porque a reflexão de um dramaturgo sobre o teatro não pode deixar de ser autobiográfica.

PG: Quando começamos a falar da “Peça Para Dois” entendemos a sua magia e o porquê de Tennessee Williams gostar tanto dela… É um retrato tão bonito, tão inacabado, mas tão imenso… É uma peça aberta, não decide nada nem tem pontos finais. Eles (Clare e Felice) não conseguem chegar ao fim. Já tentaram terminar a peça, mas nunca conseguiram lá chegar. Porque ela representa a vida: só acaba quando se morre.

“Esta noite nós temos de continuar!”.



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