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Política no LAVADOURO!

Sobe à Madragoa, ao Lavadouro das Francesinhas, senta-te frente aos tanques de pedra e, fora de redes, só entre água e sabão conhece o teu país do sec. XX, brinda à liberdade que tens hoje, aqui e agora ou faz uma revolução como as de ontem, urgentes que nem hoje. 

“O Lavadouro”, nova peça da companhia teatral A Barraca, convida-nos em cenário real, pleno Lavadouro das Francesinhas,naMadragoa,a revisitar o Portugal do sec XX, suas crises e revoluções políticas, económicas e sociais trazidas ao tanque da roupa suja que passa a lavada, torcida e batida por nove mulheres, salpicando água para os espectadores mostrando, como não podia mostrar melhor neste lavadouro com mais de um século de história e que ainda a hoje está activo, crises e revoluções transversais como a água. Ou como o medo?

O espectáculo para ver até 16 de Outubro, com dramaturgia e encenação de Hélder Costa traz ao Lavadouro: Maria do Céu Guerra, Susana Cacela, Carolina Parreira, Sónia Barradas, Nádia Yracema, Paula Coelho e Isa Magalhães.

É assim, no feminino, suas emoções e lutas que se reflecte um Portugal da primeira República, ao Estado Novo, às Guerras Mundiais, à Guerra Colonial e ao 25 de Abril. Pelo tempo, com trabalho árduo, poucos ganhos, muitas perdas. Acompanham um passado cheio de medo “ num país onde nem se podia sair à rua”, num presente com algum medo “não venha de lá o polícia sem farda”, num futuro sem esperança quase sempre nenhuma “porque eles é que mandam na gente”. Assim, sem envelhecerem, só a lavar a roupa como acto e condição, este povo, estas mulheres, lavadeiras, mães, filhas, criadas, viúvas revelam o estado de um país, nas suas mãos enrugadas que torcem a roupa como quem chora e como quem canta: “Vocês sabem lá como é triste viver sem esperança” interrompe um momento musical entre outros desta peça que integra a comunidade da Madragoa e chama o Coro Sénior da Junta de Freguesia de Santos-O-Velho.

E na música que sempre alegrou as almas, canta-se, além desta canção imortal, um fado da Amália, e aproveita-se para criticá-la, porque era do povo e depressa se esqueceu porque não é “cá das nossas “ como Hermínia Sílvia, comenta uma lavadeira.

Estes e outros conflitos sociais, económicos e geracionais, porque umas são salazaristas outras nem pensar, todos vão para o estendal de uma sociedade que vive sufocada e desabafa no Lavadouro e aqui celebra aos poucos a liberdade que vai chegando com as mudanças políticas de um Salazar para um Marcelo que “uma velha na praça apelidou de o Salazar que ri”.

Da sátira a factos da história que por detrás do estendal da roupa se vai projectando em folhas de jornais ou numa velha telefonia fazendo o contraste com o mundo lá fora, ou entre o que o povo sente e o que a comunicação social trata de informar ou alarmar.

A água deste Lavadouro, agora peça teatral e há mais de um século património, da Madragoa bem colada ao Parlamento, lava a roupa do dia-a-dia, entra nas casas das famílias, do racismo, dos escravos, da pobreza, do pão e água e, quando calha lá um bocadinho de queijo, da tuberculose. A água que escorre pelas ruas de medo, de motins, de Pide. A água que leva para longe e para a guerra os homens que deixa as mulheres que volta com a morte e com a honra de um país de heróis e com a saudade de e para sempre.

No fim o 25 de Abril e já não tem de se pagar o tanque nem a água. Mas o lavadouro continua cá, a cheirar a sabão azul e branco, estanque, de pedra onde se lavaram corrupções, tristezas, injustiças, pobrezas. A roupa continua suja? Ou só vens ao teatro até 16 de Outubro?

 

O LAVADOURO de Hélder Costa
de Terça a Sábado às 21.30
Lavadouro das Francesinhas

Rua das Francesinhas
Madragoa, Lisboa

 

Fotos: Ana Jerónimo



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