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High Places @ Galeria Zé dos Bois. 20 de Maio de 2010

Lá no alto o som é mais rarefeito.

Cá em baixo, mesmo que pelo Bairro Alto, as coisas são diferentes. Os imprevistos e os azares acontecem. A primeira desventura dos High Places foi, ao segundo álbum “High Places vs. Mankind”, terem descido de mais. Onde antes as canções eram aguarelas de cores esbatidas, que juntavam tudo e mais alguma coisa com uma simplicidade desarmante, agora empunham-se guitarras, e há batidas demasiado duras – o que era artesanal, virou industrial – que transformaram a jovialidade dos High Places em alguma sisudez. E, quanto a isso, não havia nada a fazer.

Quanto ao resto, sim. O som esteve péssimo grande parte do concerto. A segunda e maior desventura dos High Places na passada quinta-feira. A voz de menina de Mary Pearson – ela própria parece uma rapariguinha – só deu um ar da sua graça lá para o final, demasiado tempo foi praticamente inaudível. As batidas abafaram o resto do som do grupo, até um pouco as guitarras que tanto Mary como Rob Barber tocavam. De tal forma que Rob, referindo-se naquele momento a um microfone que se mexia sozinho, aventou a hipótese de existir um poltergeist no palco. Notou-se a frustração dos músicos, que passaram o tempo a falar para o técnico de som, cujas inúmeras tentativas de melhorar a situação se revelaram infrutíferas.

É difícil escrever sobre um concerto que mal se ouviu, ou se ouviu tão mal. Contudo, sempre que entrava uma canção mais antiga (digamos, menos recente), a qualidade do som parecia importar menos, as guitarras ficavam de lado, e a máquina de samples fazia a maior. “High Places”, álbum homónimo do duo, é um grande disco, digno das alturas que a que o nome se propõe. A mudança de Nova Iorque para Los Angeles, como a de Greenberg no filme de Noah Baumbach, deixou um sabor a laranja azeda na música dos High Places. Sol a mais, talvez.

Por falar em sol, estava um calor do caralh* no aquário da ZDB. Já até se ouviu falar de um grupo do Facebook que advoga a compra de um ar condicionado para aquela estufa, perdão, sala. Rob Barber, que sua profusamente durante o concerto, canta uns versos de «Hot in Herre» de Nelly e realmente fazia sentido tirar a roupa toda. É de louvar o bom humor com que levou as coisas. Rob também disse que Mary não suava, o que não era bem verdade, mas dos dois quem ficou pior foi ela, que nem conseguiu se fazer ouvir.

Mais sorte, muito mais sorte, teve Pedro Magina, um dos membros dos Aquaparque, que aqui se apresentou em nome próprio (em apelido, mas vai dar ao mesmo). O seu concerto acabou por ser bem melhor do que o dos High Places. Não teve os mesmos problemas de som, aliás, o som parecia feito para a sua música ambiental. Ambiental, pelas planícies, montes e vales que a sua música atravessa – foi mais capaz de visitar os lugares altos do que a dos High Places -, ambiental, por fazer parte da nossa natureza.

A música de Magina é acolhedora e reconfortante como só a infância o pode ser. Faz-nos sentir garotos a ver a Heidi no Agora Escolha durante as Férias Grandes. É New Age, porque lembra essa nova idade, essa primeira idade. Quando as canções, longas, repetitivas, acabavam era tal qual um desmame. As paredes onde o som reverberava, o nosso útero.

O feitiço só se quebra quando Pedro Magina resolve cantar – o microfone bem o tentou impedir – na sua versão de «Born Slippy» dos Underworld, uma curiosidade que não acrescenta – retira – ao concerto, e é só uma homenagem ao tecno dos Underworld. Merecida, mas desnecessária.

Para o fim, refiro o São Bernardo que andava pela ZDB, mais bem comportado do que boa parte do público que, como sempre, prefere conversar (aos altos berros) no pátio ou no bar do que estar calado a ver concerto.



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