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Aquaparque + Telepathe @ ZdB

Sonho (electrónico) de uma noite de Verão.

No aquário mais célebre do Bairro Alto, o do auditório da Galeria Zé dos Bois, as temperaturas já elevadas da noite de sábado, 18 de Julho de 2009, dispararam à mercê do calor desencadeado pelos sintetizadores alucinogéneos dos portugueses Aquaparque e das norte-americanas Telepathe.

As premissas mostravam-se claras já no cartaz: ambos os projectos têm como directrizes comuns a intensidade, as explorações electrónicas e alguma fragmentação, vivamente aconselhada aos ouvidos mais atentos e sequiosos de novos trilhos sonoros. Para se atingir tal finalidade, porém, os recursos seriam distintos.

Para a primeira parte, com os Aquaparque aos comandos, a experimentação foi a palavra de ordem. Pedro Magina e André Abel, cujo epicentro criativo se situa em Santo Tirso – mas actualmente residentes no Porto e em Lisboa, respectivamente – propuseram-nos uma viagem tendo como mote o seu álbum mais recente, “É isso aí”. Complexo patchwork de texturas e referências pop, que vão dos Animal Collective aos GNR de “Independança” e dos Gang Gang Dance aos primórdios dos Heróis do Mar, o registo de estreia da dupla tem causado furor na crítica e nas apresentações ao vivo, seja pela imprevisibilidade com que se desenvolvem os temas, sempre distantes da sua versão gravada, seja pelo apelo universal que existe numa combinação aparentemente tão alienígena.

E, com efeito, seja através da assombrosa flexibilidade do timbre de Magina – lembrando, por vezes, os falsetes de António Variações – seja através das camadas rítmicas controladas por Abel, aquilo a que se assistiu não cabe dentro dos contornos do conceito ortodoxo de “concerto”, com faixas perfeitamente delimitadas. Os teclados viciantes de «Conte-os», acompanhados de cadências dub e de vocalizações que nos prendem, entre a perplexidade e o entusiasmo, deram o mote.

Tão parcos em exortações à audiência quanto envolvidos nas suas canções, escolheram um alinhamento com raras passagens pelos temas do disco, o que, se por um lado torna a empatia do público menos imediata, por outro reforça a atenção nas suas capacidades performativas, num crescendo de intensidade ininterrupto através de «Sono do paraíso» e «Venha quem vier», até chegar a mais um momento marcante: o regresso aos temas de “É isso aí” com «Fantasma».

À medida que se accionam samples e batidas, a massa humana suada e imersa numa hipnose prazenteira acompanha os passos do duo e vibra com o momento alto da primeira metade da noite, a marcante «Siga para bingo», que colocou o grupo nas bocas do mundo com a sua excelência estilhaçada. «Emblema» encerrou a sequência com um saldo positivo – facilmente comprovável através das expressões de satisfação espalhadas pela sala – mas por essa mesma razão um desejo de prolongamento da experiência. Esperam-se, portanto, regressos para breve.

As Telepathe, duo nova-iorquino formado por Busy Gagnes e Melissa Livaudais, por sua vez, trouxeram na bagagem “Dance Mother”, álbum lançado no início deste ano e produzido por David Sitek dos TV On The Radio. Com uma sonoridade no território híbrido em que a canção pop se confunde com a electrónica e o hip hop mais desalinhado se sobrepõe ao pós-punk dumas Raincoats, demonstraram que não é pela sua genealogia intrincada que sacrifica o apelo à dança.

A setlist exclusivamente preenchida com temas do disco mais recente sublinhou o notório contraste entre as harmonias vocais femininas de timbre quase adolescente, a cadência de ritual tribal das batidas e o negrume do imaginário que emerge das letras, tornando a experiência ainda mais peculiar.

Já desde o início, com a contagiante «Chrome’s On It», que Gagnes e Livaudais funcionam como uma máquina de palco bem lubrificada: a primeira maioritariamente nas vozes e sintetizadores, a segunda nas percurssões, mas alternando as posições com uma coordenação bem estudada. «Michael», com os seus samples quase lunares e a sua ambiência sombria (“My greatest joy would be to destroy you”) parece, de facto, só ter sentido pleno com a visão da figura andrógina de Livauais e do visual de adolescente tardia de Gagnes.

Se o cruzamento entre o dançável e o ritualístico já tinham sido referidos como característica do álbum, a perspectiva do público galvanizado e colocado à mercê do duo em palco só reforça esse traço. Agradecendo profusamente a recepção calorosa que Lisboa lhes proporcionou, retribuem com a potência de «Lights Go Down», a acidez bem disfarçada de «Crimes and Killings» (segunda parte da faixa-trilogia formada por «Breath of Life» e «Threads and Knives») e a spoken-word sedutora de «Devil’s Trident». A contagiante «So Fine» encerrou um alinhamento, deixando o refrão a tocar em loop nos lábios e nas mentes dos que ali estiveram, compensando, de certo modo, a recusa de um encore.

No feminino ou no masculino, dentro ou fora de Portugal, ficou provado que sangue novo palpita no coração da pop que, através do corte e da costura executados pela electrónica, pode ganhar uma nova vida em temporadas futuras. E não faltará, depois do que se pôde assistir na ZdB, quem envergue orgulhosamente tais roupagens.



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