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Inês Teixeira Pinheiro | Entrevista

«Escrever é um gesto de alerta, de partilha e, acima de tudo, de tentativa de transformação»

O amor nem sempre é aquilo que parece, e, por vezes, é precisamente essa dissonância que se torna mais difícil de reconhecer e aceitar. Em A ilusão que amei (Singular, 2025), Inês Teixeira Pinheiro transforma uma experiência pessoal dolorosa num romance que mergulha nas dinâmicas silenciosas de uma relação abusiva.

Narrado através da voz de Leonor, uma jovem que sonha ser escritora, o livro expõe com delicadeza e coragem os mecanismos de manipulação emocional, a perda de identidade e a difícil reconstrução que se segue, mas também a importância de ter um ombro amigo, um porto seguro a quem recorrer, e que, muitas vezes, ignoramos (in)conscientemente.

Em entrevista, a autora fala-nos do processo de escrita como catarse, do papel da literatura como alerta e da importância da educação emocional para quebrar ciclos de abuso. Um testemunho íntimo e comprometido que desafia o silêncio em torno das violências invisíveis.

O primeiro contacto que temos com a história que escreve e com Leonor, a protagonista, é o título do livro. Em que momento teve a noção de que o tema, o foco, era, literalmente, uma ilusão que nasce de uma relação amorosa intensa?
Eu tinha essa ilusão presente, porque já tinha refletido sobre ela antes mesmo de decidir contar esta história. Decidi chamar o livro A ilusão que amei para que, logo no título, ficasse claro que não se trata de uma história de amor típica ou feliz. Gosto muito do duplo sentido do título: se, por um lado, o amor era uma ilusão, por outro, a Leonor amava de verdade aquela ilusão em que vivia e não queria sair dela. Acho que o título revela muito da essência da história que o livro pretende contar.

É público e assumido que o livro parte de uma experiência pessoal. Perante isso, que desafios encontrou ao transformar vivências íntimas, emocionalmente muito dolorosas, num objeto literário?
A maior dificuldade foi decidir que partes da história iria manter fiéis à realidade e quais queria ficcionar. Se tivesse sido um exercício puramente ficcional, provavelmente não teria contado a mesma história. Outra grande dificuldade foi reviver episódios dolorosos, especialmente quando já estava numa ótima fase da minha vida. Curiosamente, o ato de escrever essas partes e depois relê-las como se fosse uma leitora tornou-se uma forma de catarse que me ajudou muito a processar tudo de forma diferente.

A Leonor é vítima de uma relação abusiva, algo que, infelizmente, está muitas vezes presente no namoro ou casamento. No livro, por várias vezes, a protagonista confessa que não viu os sinais do que acontecia ou decidiu ignorá-los. O que pode levar uma mulher (ou um homem…) a fazê-lo?
Acho que não me cabe responder por todas as pessoas que passam por isso, até porque não existe uma lista de razões fixas que se aplique a todas as relações ou a todas as pessoas. Acredito que muitas pessoas, quando estão envoltas numa confusão emocional causada pela manipulação, acabam por duvidar da sua própria realidade. Depois, por serem constantemente desvalorizadas, podem passar a acreditar que merecem aquilo por que estão a passar. Essas duas tendências misturadas fazem com que a pessoa fique presa naquela situação, sem conseguir ver uma saída clara.

A leitura de A Ilusão que amei é em muitas passagens sinónimo de alerta. Essa intenção foi sempre assumida e declarada ou foi nascendo à medida que a narrativa crescia?
Quando decidi ser autora, tomei automaticamente a decisão de usar a literatura como uma forma de ativismo político. Para mim, escrever é um gesto de alerta, de partilha e, acima de tudo, de tentativa de transformação. Nesse sentido, essa intenção esteve sempre presente, mas fui descobrindo ao longo do exercício de escrita como a poderia concretizar. Uma dessas formas foi precisamente a de deixar conselhos aos leitores que, se pudesse, teria dado a mim própria.

Que papel atribui ao ato de escrever, muito presente também na vida de Leonor, cuja sonho é ser escritora, no processo de reconstrução emocional depois de um trauma, da dor de uma relação falhada?

Não almejava nem sequer equacionava ser autora, até escrever A ilusão que amei. Como a experiência de escrever foi tão marcante para mim, quis incluí-la na narrativa e, assim, a história acaba por contar como a Leonor edita o seu primeiro livro. Para ela, o ato de escrever ajudou-a a encontrar novamente um propósito na sua existência; para mim, ajudou-me a olhar para algo que me acontecera com olhos externos, mais compreensivos e certamente mais desculpáveis.

Em alguma fase do processo de escrita houve a tentação de parar, de achar que não fazia sentido publicar uma obra tão íntima e socialmente sensível?
A síndrome do impostor é muito comum nas mulheres, especialmente nas mais jovens, e eu não sou exceção. Por isso mesmo, questionei-me várias vezes se esta história poderia realmente ajudar alguém ou, pelo menos, servir como sinal de alerta. Se assim não fosse, não faria sentido publicar este livro. No entanto, talvez motivada por uma determinação irrevogável, nunca deixei que essas dúvidas abalassem a minha decisão de o editar. Hoje, fico extremamente agradecida por isso.

Que tipo de feedback tem recebido dos leitores?
Os meus leitores têm abordado a leitura do livro com muita responsabilidade, o que me deixa profundamente agradecida. Diria que, para muitos, a obra acaba por despertar uma autorreflexão sobre as suas próprias relações e sobre a sociedade em que vivemos. Surpreendentemente, alguns leitores masculinos têm partilhado reflexões sobre como traumas de infância podem condicionar a nossa capacidade de empatia numa relação – algo que eu nunca imaginei alcançar. Não obstante, de todas as reações, as que mais me tocam são as das pessoas que têm a coragem de partilhar comigo experiências pessoais semelhantes. Essas conversas ficam apenas entre nós, mas deixam-me profundamente sensibilizada pela confiança que depositam em mim.

Especialmente na parte final do livro, Leonor assume o desgaste emocional da relação abusiva que foi alvo ao ponto de não saber quando estará preparada para ter outro relacionamento, outro namorado. Nessa tentativa de reconstrução pessoal, que papel acha que tem a educação emocional no sentido de voltar a aceitar o amor e a prevenir relações tóxicas?
As consequências que uma relação abusiva tem em nós, não terminam com o fim da relação em si. A nossa autoestima fica tão fragilizada que um envolvimento rápido numa nova relação pode ser muito perigoso – algo que, no caso da protagonista, não aconteceu. O que quis mostrar com o relato dessa segunda relação foi, precisamente, como o trauma continuava a afetá-la profundamente. Nesta quase reprogramação do cérebro, para aprender a aceitar apenas o amor que realmente merecemos, tornam-se essenciais o tempo, a reflexão e a terapia.

Em algum momento receou que este livro pudesse ser lido como um ajuste de contas pessoal?
Houve esse receio, sim, mas não acredito que algum leitor, até agora, o tenha interpretado dessa forma. Por um lado, a personagem masculina não tem destaque, não tem nome, não tem uma narrativa própria – existe apenas para criar o contexto necessário à transformação psicológica da Leonor. Esta é a história dela, contada por ela e focada nela e nas suas relações. Por outro lado, o tema é tão importante que acredito que justifique o sentimento de necessidade e urgência que tive em contar esta história.

Terminada leitura de A ilusão que amei, o que gostaria que o leitor levasse consigo?
A leitura é uma atividade muito bonita, principalmente porque nos permite experienciar vidas que nunca tivemos, pessoas que nunca conhecemos e lugares onde nunca estivemos. Acredito que, ao ler A ilusão que amei e, consequentemente, ao viver esta relação através das páginas, os leitores não sintam a necessidade de passar por algo semelhante para perceber que é precisamente isso que não querem para si.



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