Iron & Wine | “Ghost on Ghost”

Iron & Wine | “Ghost on Ghost”

Profecias em torno das roseiras-bravas

Já passaram mais de dez anos desde que Sam Beam decidiu reunir as gravações caseiras de músicas à guitarra, atraindo sobre si um conjunto de admiradores que veio por arrasto de bandas associadas a uma contra-corrente ao mainstream, que mais não fez do que situar-se numa via de rodagem paralela. Terá sido por arrasto mais de coincidência temporal do que formal: em boa verdade, Iron & Wine é ainda um dos raros casos em que o lo-fi que lhe trouxe uma insólita catapulta para incorporar o catálogo da Sub Pop Records (que, entretanto, substituiu pela 4AD) e também permitiu permeabilizar uma honestidade lírica e instrumental que não turvou desde então.

Naturalmente, os moldes foram-se mutando: se ao segundo disco (“Our Endless Numbered Days”) a guitarra acústica saltou para o estúdio mas manteve a timidez, seria com “The Shepherd’s Dog” que viria uma parafernália orquestrada que apontava Beam agora enquanto um músico completo, em plena consciência e controlo das paisagens que percorria. Ao quarto disco (“Kiss Each Other Clean”), pareceram-nos voltar algumas tímidas melodias compostas à guitarra e vestidas num fato de arranjos que enevoava a sua objectividade.

Eis que nos chega “Ghost on Ghost”, a prova dos nove. E talvez já não seja um disco para ouvir a tentar sacar os dedilhados na guitarra; mas isso só seria surpreendente para quem não tivesse ouvido com atenção os últimos dois discos: o trovador-profeta de barbas compridas continua a tocar serenatas ao vivo quando se apresenta só com a guitarra, mas em estúdio parece querer formar uma comunidade. Em boa verdade, esta talvez seja a experiência sonora mais prazenteira posta em marcha por Beam, agora livre da tensão ansiosa que o próprio diz assombrar os últimos dois registos.

E talvez por isso se inicie apanhado nas roseiras-bravas (no original, «Caught in the Briars»), num caminho de purificação que abre as nuvens e traz ar fresco capaz de suster as faixas que se seguem. É neste contexto que o disco encontra uma maturação evidente: Beam está agora em plena consciência de que não precisa de camuflar todas as faixas com arranjos atmosféricos (veja-se o momento quase a capella «Joy»), assim como desafia a comunidade por ele montada a participar no diálogo, gerando momentos que rapidamente se aglomeram na constelação da banda – apetece dizer que o músico andou a escrever música durante a última década com o intuito de criar «Lovers’ Revolution» (já trauteando terrenos do jazz).

Pois que talvez não reflicta sobre assuntos de origem existencial ou vasculhe particularmente fundo no remexer das emoções que por aqui brotam; nem tão pouco haja o nervo de “The Shepherd’s Dog”. Evidentemente. Não é a isso que se aspira. “I woke up by your bed, you were wondering around the yard”, diz Beam, e quase se sente o calor dos raios de sol matinal por entre os galhos da tal roseira, a iluminar os lençóis.

Pelo caminho, Beam é um dos mais convincentes cantautores desta geração: até na inocência de «Grace for Saints and Ramblers» e o regresso às roseiras-bravas («Sundown (Back in the Briars)»); e no rítmico clamar que derrama em «Singers and the Endless Song». Mas, claro, não deixa de guardar para o fim um triângulo dourado: «New Mexico’s No Breeze», «Lovers’ Revolution» e «Baby Center Stage», numa procura por estruturas mais desafiantes. E se no primeiro caso o resultado é obtido de forma ambígua, o díptico que encerra o disco não poderia ser mais revelador relativamente à forma do músico.

“There’s new fruit coming in the old fruit tree”, ouve-se a meio disco; e cumpre-se a profecia.



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