Já não existem heróis #2 – Ilustração de Tiago Moura

Já não existem heróis #2

A extraordinária sensação de ganhar o euromilhões.

Quando o dinheiro falta, uma pessoa tem de ser inventiva. Comigo foi limpinho: peguei em mim e fui meter o euromilhões. Há quem não acredite no euromilhões, ora por causa das microscópicas probabilidades de acertar nos números, ora porque não acredita que o dinheiro ganho de uma forma fácil não dá satisfação. Eu, que trabalhei muito tempo a ganhar muito pouco e que agora faço trabalhos com os quais não ganho nada, sempre tendi a achar que os que se preocupam com “probabilidades” não levam em linha de conta a probabilidade igualmente ínfima de ganhar uma batelada de euros pela via do trabalho; na sexta-feira passada, fiquei a discordar também dos que acham que ganhar dinheiro sem saber como não satisfaz ninguém: se há coisa que dá satisfação é uma pessoa sentir-se instantâneamente milionária.

Estava em casa dos meus pais, à conversa com o meu irmão, a tomar o café após o jantar, quando me lembrei que devia conferir o boletim. Quando preencho o boletim e verifico se está tudo em ordem, se as cruzes assinaladas são mesmo cinco e se as estrelas eleitas foram realmente duas, costumo achar que a minha escolha é extraordinária e que será muito difícil falhar novamente o primeiro prémio. Porém, quando me preparo para conferir a chave sorteada, reduzo substancialmente as expectativas: acho sempre que aquele 32 é pouco provável ou que a estrela 5 talvez não seja a eleita, sabe-se lá. Mas desta vez foi diferente.

Pego no boletim e pego no papelinho do registo. A conversa com o meu irmão continuava e estava boa, pelo que, distraído, fui confirmando os números do boletim pelo próprio talão do registo. Naturalmente, o primeiro número batia certo. E o segundo também. Senti o coração palpitar, com um baque de “olá, tu queres ver, Diego?…” e vem o terceiro e é igual e a seguir o quarto estava certo, logo depois o quinto e eu «ó Marco, ó Marco!…» – o Marco é o meu irmão – e meto-me a verificar as estrelas «3 e 5!…»: suspenderam-se-me a respiração e os próprios sinais de vida.

Não disse nada por uns momentos – já ouvi muitos relatos de pessoas que enlouquecem por causa do euromilhões e quis preparar o meu irmão para a notícia, para que não houvesse choque. Uma pessoa em choque por causa de umas dezenas de milhões de euros pode cometer loucuras, o melhor é não arriscar. Sorridente e de olhos brilhantes de confiança, disse-lhe, devagarinho e pausadamente, «epá… eu acho que ganhei isto». Ele, muito tranquilo, disse «ya, ‘tá bem…» e foi nesse momento que me apercebi que, afinal, eu estava a confirmar os meus números do boletim pelo próprio registo do boletim com os meus números. Fingi que estava a brincar e disfarcei a desilusão. O meu ritmo cardíaco, esse, demorou uns bons vinte minutos a voltar ao normal. Pela oportunidade de experienciar sensação tão improvável, até nem achei mal gastos aqueles dois euros.

Texto de Diego Armés
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Ilustração de Tiago Moura
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