And god created the black dress – Alexa Rodrigues

And god created the black dress #2

Ó.Vários

Imagem de Pedro Soenen

No dia 28 de maio de 1911, a senhora viúva Carolina Beatriz Ângelo fez-me a pessoa que eu sou hoje.

Carolina, ao ser a primeira mulher a colocar numa urna portuguesa um voto, escancarou a porta da nossa emancipação.

Se em apenas 102 anos atingimos este patamar, está na altura de delinearmos estratégias para quando a total emancipação for atingida.

Eu sugiro a democratização dos ovários.

Há uma altura do mês em que quase todas as mulheres – temos que concordar neste ponto -, gostavam de ter um pénis.

Estamos no ano de dois mil e treze e eu, licenciada, pós-graduada e independente, sangro mensalmente até à fraqueza porque o meu corpo decidiu preparar-se para receber uma criança sem consultar o meu cérebro.

Pura e simples auto-gestão inconsciente. O meu corpo não consultou a minha estratégia de vida e decidiu, sem medir as implicações da sua decisão.

Pior. Não só cometeu esse erro irresponsável que levou ao meu mal-estar, como o faz mensalmente com uma precisão irritante.

Este corpo andou na universidade!

Este corpo já passou por experiências que lhe deviam ter ensinado mais!

Este corpo devia ter mais sensibilidade a lidar comigo!

Se o meu corpo existe para me servir, eu posso considerá-lo como um ‘prestador de serviços’.

Nesse caso, por que é que não posso suspender alguns dos serviços oferecidos, parametrizar pacotes à minha medida como na televisão por cabo ou até oferecer a subscrição a alguém?

É incompetente, irresponsável e denota falta de profissionalismo, no que toca à gestão dos ovários.

O ritual da menstruação é francamente primitivo.

O homem já andou na lua, no entanto o corpo decide considerar que 13 anos (em média) é a altura certa para uma rapariga ser mãe.

Hello? A sociedade portuguesa iria com certeza ostracizar a rapariga de 13 anos que desse à luz.

Por que é que o nosso corpo não evoluiu tanto como a nossa vivência?

Tudo bem, o nosso prestador de serviços/‘corpo’ não pode ser despedido , mas vamos ser modernos, ninguém disse que não o podíamos ‘emprateleirar’!

Nesse caso, o corpo mantém o título de gestor de ovários, mas apenas aparentemente. Tiramos-lhe o computador, o telefone e metemo-lo a fazer uma tarefa que lhe drene o espírito, como por exemplo: calcular a probabilidade de eu conseguir conceber depois da festa de há 2 semanas atrás.

Afastando o corpo da frente dos ovários, o cérebro tem maneira de ganhar pulso e assumir o controlo da decisão e gestão das tarefas do sistema reprodutivo

… e era aqui que eu queria chegar!

Se o cérebro tomar o poder, as decisões reprodutivas passam forçosamente a ser racionais.

Nesse caso, o processo de nascimento de uma criança é uma tarefa de duas partes (ou mais, em caso de modernice mais extrema). Portanto, o esforço tem que ser repartido de forma justa pelos intervenientes.

Acho que é por aí que devia ser o passo seguinte à emancipação.

Cada um dos membros do casal devia ficar com o seu ovário.

Um mês menstruas tu, noutro mês menstruo eu.

Devíamos descer do nosso patamar e olhar para os nossos parceiros com mais respeito.

Eles são capazes de sentir, estão sempre ao nosso lado e também merecem ter acesso à utilização de um ovário.

Cada dono de ovário deveria ter a opção: investir na próxima ovulação e experimentar as delícias da maternidade, ou levar com as consequências ‘divinas’ inerentes – a menstruação.

Ser-nos-ia permitido tomar decisões importantes para a coesão da relação , como ‘acho que vou ser promovido/a, dava-me jeito se fosses tu a engravidar’, ‘comprei um bikini brasileiro para as nossas férias, podes ser tu a ter o período este mês?’ entre outras importantes decisões de casal.

Vamos parar de ser egoístas e deixar de funcionar em cartel com este assunto.

Nós já nos apoderámos dos testículos deles, o mínimo que lhes podemos fazer é oferecer um ovário.

 

Crónicas Anteriores: Sou uma “pasta” de mim própria

Texto escrito em total desacordo ortográfico



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