Avulsa Cénica 2 – Texto de Miguel Loureiro, ilustração de Sara Pazos

Avulsa Cénica #2

Beberetes

Tenho ido a estreias.
Tenho-me guardado de jantar antes do espectáculo.
Tenho uma fome que vai aumentando a partir dos terceiros actos.
Tenho que aguentar muitas vezes peças hediondas, como todos os outros.
Tenho o pensamento a voar para dois pontos assim que as coisas se perdem ao abrirem os panos: o que faria eu para salvar aquilo e no pior dos casos em que consistirá o beberete, buffet, recepção, o que lhe queiram chamar, Servidos em Salões Nobres de Teatros Nacionais ou em foyers amplos de Auditórios Municipais.
Tenho reparado que estão a escassear os protocolares beberetes.
Tenho pena.
Tenho a opinião que não é um caso de somenos.
Tenho-me lembrado do Teatro Grego.
Tenho para mim que era feito muitas vezes no estio, para celebrar a fartura agrícola do ano, nos chamados Festivais de Verão.
Tenho a impressão que a festa era importante para esta manifestação do espírito.
Tenho medo que o espírito das estreias se esteja a alterar.
Tenho pavor das conversas sérias no final sem a desculpa do canapé para delas escapar.
Tenho saudades do croquete.
Tenha pena da empada.
Tenho nostalgia do espumante desperdiçado.
Tenho como memória o Wagner seguido de triângulos de salmão alimonado.
Tenho como proeza pantagruélica, a miríade de queijos do Cesariny no Nacional.
Tenho água na boca ao pensar nas mesas cheias da menina Júlia no S.João.
Tenho visões miríficas das cascatas de chocolate de 1994 em Lisboa.
Tenho de o dizer.
Tenho muita fome depois do Edward Bond.
Tenho gula avassaladora depois do Tchekov.
Tenho de matar-o-bicho depois do Moliére.
Tenho a boneca a dar horas a seguir a um Plauto.
Tenho menos a dizer (se a peça é má) com a boca cheia.
Tenho receio destes gestores de teatros sem apetite.
Tenho o exemplo do saudoso Ribeiro da Fonte para salivar.
Tenho a certeza de que os dias de paté de perdiz terminaram.
Tenho o maior prazer em ser acintoso com o canastrão que me estragou a noite se tiver a azeitona de Elvas a saltar-me da boca.
Tenho medo pelo estado das coisas.
Tenho por mais útil as cozinhas nos teatros do que as livrarias.
Tenho na cabeça o arenque fumado das estreias de Inverno em Berlim.
Tenho três ou quatro teatros na minha cidade que deixaram de servir banquetes após as estreias.
Tenho fome.
Tenho pena.

Texto de Miguel Loureiro
Ilustração de Sara Pazos

Crónicas anteriores: #1 Après-midi de uma prótese 



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