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José Cabral

O Alfaiate Lisboeta na primeira pessoa, com um livro debaixo do braço

Foi uma Buchholz completamente lotada (e emocionada) a que recebeu José Cabral no passado dia 17 de Abril, no âmbito do lançamento do livro “O Alfaiate Lisboeta”. Volvidos três anos sobre o nascimento do blog, reúnem-se aqui não apenas fotos cheias de estilo e gente com pinta, mas também pequenas histórias de vida que se cruzam entre si em diversos pontos do tempo e do espaço. Histórias de pessoas, para pessoas. Histórias que o autor consegue imortalizar num universo tão rápido e fugaz como o da web e que agora estarão também em mostruário, lado a lado com outras tantas histórias imortalizadas em papel. E é assim que se guarda a memória da Humanidade.

A Rua de Baixo esteve à conversa com o autor. Não o autor Alfaiate Lisboeta mas o autor homem, de carne e osso e alma. A pessoa. Este é José Cabral.

Meio mundo já ouviu falar d’ O Alfaiate Lisboeta, mas diz-nos: quem é o José Cabral?

O Zé Cabral é um tipo que nasceu há pouco mais de trinta anos. Um miúdo perfeitamente normal, com as suas particularidades mas que não fez nada que os outros miúdos não tenham feito. Se calhar fui para a rua mais vezes do que a média porque andava à tareia nas aulas e coisas do género mas sem grandes consequências (risos). Quando fui estudar não me identifiquei particularmente com o curso de Sociologia e depois andei a saltar de profissão para profissão (profissões essas com pouca ou nenhuma relação entre elas ou com aquilo que é O Alfaiate Lisboeta).

Essencialmente sou um tipo normal que estava um bocadinho farto da sua rotina diária e quis fazer qualquer coisa, introduzir uma variável nova que sentia falta e que acabou por aparecer sob a forma do blog O Alfaiate Lisboeta.

Sentiste algum momento de click que te dissesse “Tens que mudar de vida. É agora.”?

Houve um momento que é curioso. Na sua génese, O Alfaiate Lisboeta tem textos que não têm nada que ver com moda ou estilo. São textos que têm que ver com relações, nomeadamente com o binómio homem/mulher. Queria escrever sobre isso. Depois não sei se me cansei e andei ali um pouco às voltas mas estava a fazer aquilo com algum gozo. De qualquer das maneiras houve um dia, e isso foi um outro click, em que conheci o conceito do street style que um amigo me mostrou. Fiquei com a sensação que me poderia divertir imenso a concretizar um projecto daquela natureza.

Desde esse momento em que me dou conta daquele conceito genérico até começar O Alfaiate Lisboeta, passaram uns dois meses. Foi uma coisa rápida, tipo resolução de ano novo (risos).

Mas sendo tu uma pessoa que passa um pouco ao lado da cena fashion, porque não manter o conceito centrado na escrita?

O curioso é mesmo isso! Acho que esse teria sido o caminho mais provável a seguir. Mas também é verdade que a componente mais estética da minha vida poderia aparecer a qualquer momento e área da moda acabou por estar presente até como alternativa nas minhas buscas profissionais. Não era nada que destoasse, por assim dizer. Acho que no fundo foi essa coincidência, ter dado conta que esse conceito genérico existia, sentir uma grande empatia por ele, acima de tudo pela perspectiva mais democratizante, de nos fazer sentir a possibilidade de sermos ícones de estilo. É uma ideia engraçada. Foi tudo junto: isto, a minha vontade de escrever, de ter um projecto meu, profissionalmente achar “porque não?” e tender um bocadinho para aquele lado. E naquele momento fez tudo sentido. Houve coisas das quais só tomei consciência mais tarde. Eu capto momentos mas já reparava neles antes. Passei foi a captá-los, a abordar as pessoas na rua e a guardá-los.

É engraçado porque é o facto de antes já reparar nesses momentos que dá sentido a tudo isto, mas só me apercebi disso a posteriori. Tudo bem que estava subentendido que, ao arrancar com um projecto destes, eu teria um lado mais esteta mas há coisas que só nos fazem mesmo sentido à medida que as vamos concretizando, talvez porque vamos ficando mais confiantes em relação ao nosso trabalho.

 

Retomando a tua adolescência, falavas-me de teres sido um miúdo traquina…

Andei num liceu onde os meus pais eram Professores, pelo que sofria com aquela expectativa sobre o comportamento que deve ser o do filho de um Professor, atinadinho, que não era propriamente o ideal que eu melhor representava. De facto era um miúdo irrequieto e sempre fui um bocadinho agressivo, ou vá, nervosinho. Lembro-me perfeitamente de, já tinha dezassete anos, ter batido num colega meu a sério, lá no meio das aulas. E como era um tipo matulão, havia aquela regra das turmas de desporto: quem bate primeiro leva vantagem (risos). Lembro-me no dia seguinte de manhã estar a sair de casa e sabia que tinha que dizer aquilo ao meu pai, não podia adiar mais. Se ele soubesse pela minha Directora de Turma é que estava tudo lixado. Lembro-me perfeitamente de ter ido ter com o meu pai, a explicar e ele só dizer “Mas tu ainda tens idade para isso?”. Mas não era um tipo problemático no sentido verdadeiro da palavra. Era um miúdo irrequieto.

E como é que esse rapaz se torna num homem de blazer aos quadrados e t-shirt rasgada?

Não sei. Mas continuo a ter um bocadinho de bad temper, a fervilhar um bocadinho. Não sou assim tão diferente, mas fui-me acostumando a suavizar. Fui-me refinando, pronto! Mas acho que o essencial está lá. Se quiseres, no limite, O Alfaiate Lisboeta também tem alguma irreverência, vá. Até tenho um bocado de vergonha de dizer isto, que irreverência parece coisa de adolescente (risos)! Mas não é uma publicação padronizada, tens ali margem para alguma surpresa. Agora, qual é a ligação entre o puto do liceu meio irrequieto e o tipo de hoje, não sei. Agora que ela existe, seguramente que existe.

Houve alguma pessoa cuja história te tenha marcado particularmente?

Ao longo destes três anos foram centenas e centenas de pessoas. Mesmo. Qualquer uma destas pessoas é uma história. As histórias cruzadas não são só prerrogativa das novelas ou do filme “Magnólia”, ou do “Crash”, ou do “Babel”. Não. Daí que seja muito fácil encontrar diversas histórias e difícil escolher uma. Para mim aquelas pessoas têm uma história, um nome, um lugar e é aí que estão as tais coisas giras. Isso pode não ter grande interesse para a opinião pública, mas para mim tem um significado importante.

Numa das fotos que constam do livro, está uma rapariga vestida de preto e vermelho que dizes ter ar de quem te vai perguntar qual é o teu filme favorito, pois já ninguém o faz. Sentes de alguma forma clivagem no interesse das pessoas entre quem és e quem é a persona que criaste?

Ontem alguém me perguntava algo como se agora os meus amigos me pediam opiniões ou algo do género. Eu não mudei com O Alfaite Lisboeta. O Alfaiate é um produto daquilo que eu sou. Esse texto de que falas nem tem tanto que ver comigo em particular mas sim com o facto de muitas vezes as pessoas se preocuparem com as coisas que não interessam tanto e que se pode aplicar no fundo àquilo que tem sido o crescimento do meu projecto. A verdade é esta: a sociedade vive obcecada com o conceito de sucesso. Eu implico particularmente com quem me diz “o teu blog tem muito sucesso”. Pode ser feito num tom de elogio mas eu próprio tenho um certo preconceito em relação a essa expressão. E, no fundo, esse texto é um desabafo sobre o facto de as pessoas de irem esquecendo ao longo do tempo daquilo que é essencial, daquilo que interessa. Muitas das vezes perdem tempo a pensar em coisas que não interessam assim tanto. Se se gera confusão em torno de mim e da minha persona… não sei. Tento passar ao lado dessas coisas ou fazer-me de parvo e não dar por elas.

Alguns dos teus textos mais emotivos são relacionados com a família, seja com a tua irmã, o teu avô ou o teu pai. De que modo defines a importância da tua família no meio disto tudo?

O meu pai terá uma certa importância porque é um homem que assisti a cuidar a imagem, vi a forma como se vestia e penteava. Crescer a ver o meu pai a ter determinado tipo de cuidados, seguramente que me condicionou. Depois, não sei… É giro quando estamos num projecto que à partida até pode ser eventualmente frívolo, a dada altura haver um momento em que a tendência é voltar à nossa origem; à nossa tábula rasa. A tábula rasa, no limite (e esquecemo-nos bastante disso, sobretudo quando somos jovens), é darmo-nos conta de que coisas como a família se calhar são mais importantes do que sempre defendemos, pensávamos ou imaginávamos. O caso da minha irmã é diferente mas, no que diz respeito ao meu pai e ao meu avô, se calhar este retorno às origens tem que ver com entrar numa fase adulta em que deixo finalmente de ser um miúdo (apesar de cultivar isso em mim, porque também me agrada pensar que ainda sou um miúdo). Com uma certa ternura começamos a ver pessoas e conceitos que, se calhar, durante algum tempo nos desligamos um bocado ou que tínhamos uma tendência a desvalorizar.

Ainda no teu passado encontramos a referência à Professora Júlia Martins, outro dos textos mais emotivos que podemos ler no livro. Estes episódios estão ainda muito presentes em ti, sobretudo tendo em conta esta fase de retorno às origens?

Tenho o passado presente, por defeito. Sou uma pessoa com boa memória, uma pessoa que cultiva lembranças, que cultiva até uma certa nostalgia. A Professora Júlia Martins era uma pessoa em quem já tinha pensado e que sabia que alguma vez faria parte do blog. Foi uma pessoa que me marcou muito, a todos os níveis. Nesse texto, aquilo que me deixou mais contente foi que, no momento em que soube aquilo (eu estava quase a dormir), levantei-me, fui escrever aquele texto e, ao fazê-lo, senti quanto aquela pessoa significava para mim. Tinha-a, e cultivava-a, no meu imaginário e sabia que era importante para mim, mas aquele momento não era só quase uma recordação terna, apenas um daqueles conceitos que gostamos de acarinhar. Não. Aquilo bateu-me realmente, fez-me confusão. Fez-me confusão se calhar não ter feito questão de lhe ter dito aquilo que lhe digo ali, naquele texto, apesar de já ter tido com ela algum contacto. Foi uma pessoa de quem gostei muito e a quem fiz algo realmente muito bonito (o bilhete que lhe tinha deixado). E há uma coisa de que tenho um certo orgulho: quando fazemos coisas bonitas gostamos de ser reconhecidos; quando fiz aquilo, realmente houve ali um altruísmo puro. Mesmo nos gestos altruístas há sempre um egoísmo latente (nós fazemos aquilo porque queremos fazer, não pela outra pessoa, como acontece muitas vezes nas relações). Mas, de facto, quando não assinei aquele bilhete, fui mesmo altruísta porque queria que ela soubesse que era eu, mas achei que era mais importante para ela se não soubesse. Quando a encontrei uns anos depois achei que sim, que lhe poderia dizer aquilo. E é tão bonito ver ali uma Professora emocionada com o antigo aluno…!

Não sei. Foi um momento triste. Não há nada 100% bom ou 100% mau. E houve algo que me deixou contente: para além de ficar ligada a um texto que acho que ficou muito bonito, percebi que quando se vai ao Google pesquisar pela Professora Júlia Martins é aquele o texto que aparece.

 

Para quem vê de fora, a evolução d’O Alfaiate Lisboeta foi bastante perceptível. Mas, no que respeita à tua evolução enquanto pessoa, o que é que tudo isto te trouxe?

Apesar de serem apenas três anos, como vivi isto muito intensamente, as conquistas são suadas. Pessoalmente há um certo conforto por se achar que se está a fazer alguma coisa bem, o lado do reconhecimento que, diga-se o que se disser, é sempre uma coisa importante. Se não fosse o reconhecimento eu até podia fazer uma coisa gira ou não e ninguém dava conta disso. E há um certo orgulho próprio que, enfim, sai melhorado, inflacionado, insuflado. Mas, acima de tudo, as coisas foram acontecendo. Quando comecei a fazer isto, achei, não sei porque carga de água, que ia sair daqui qualquer coisa gira. Acreditei. Tinha esta percepção. E à medida que o tempo passou, senti-me mais confortável a fazer aquilo que fazia.

Quando comecei, pensei que ia tirar fotografias. Só depois percebi que a tal componente que estava do outro lado, os textos, iam começar a interferir com esta componente mais visual. Podia lá eu imaginar que as duas coisas faziam sentido, não é? Há textos que escrevi que na altura pensei que me estava a esticar ou que estava a sair fora daquilo que me era permitido. Depois as coisas acabaram por correr bem, acho. E não foi por isso que O Alfaiate Lisboeta perdeu o que quer que fosse. Pelo contrário: se calhar até lhe acrescentou valor. Essencialmente estava optimista. E as coisas que foram acontecendo, achava que eram possíveis e deram-me um certo gozo quando as consegui. Houve um momento que é recente e que é muito especial: o livro. É uma coisa que eu previa e que me deixa mesmo muito contente. Trabalhei muito e saiu como eu achava que era importante que saísse. Mas há um outro momento que é muito singular e que tem que ver com a campanha que fiz para a Câmara Municipal de Lisboa. Tudo o resto eu tinha pensado, eram sonhos. Já esta campanha foi algo que, antes de me ter lembrado dela, de a ter concebido, não poderia ter imaginado que um dia ia ter os meus conteúdos a promover a cidade de Lisboa. Digamos que é um outro patamar. É outra preocupação. Normalmente vemos a associação de dependência dos blogs às marcas para que possam ter alguma independência financeira. Conseguir ter os meus conteúdos ao serviço de uma causa geral, de uma causa comum a todos nós (pelo menos os que vivem nesta cidade), é mesmo outro patamar. Ter os conteúdos do meu singelo blog a promover uma cidade como Lisboa é algo que seria areia de mais para a minha camioneta. E, no entanto, isso aconteceu. O que é mais especial, independentemente de ter sido eu à frente do projecto, de tudo ter saído da minha cabeça, é o facto de me ter surpreendido a mim próprio. Fiz algo que achei que não estava ao meu alcance. E quando nos surpreendemos a nós próprios, é especial. É especial. É mesmo. Aliás, há um momento em que saio da Câmara Municipal de Lisboa (na primeira reunião com a Vereadora), do edifício dos Paços do Concelho (que também é outro patamar) e liguei à minha mãe. Foi a primeira vez que liguei à minha mãe depois de uma reunião. Estava comovido. Senti que havia ali algo que ia mudar. E foi muito bom ter uma entidade como a Câmara a acreditar em mim, a confiar em mim. É um chuto no ego, se quisermos falar numa linguagem mais simples. É um sentimento de reconhecimento enorme e, durante todo este tempo, será certamente o momento mais especial para mim.

E depois veio o livro, que era uma coisa que, no limite, eu achava previsível. Se, há um ano atrás, em entrevista, me perguntassem sobre a possibilidade de publicar um livro, certamente diria que achava estranho se não me contactassem para o fazer. É difícil dizer uma frase dessas sem que as pessoas nos considerem convencidos ou presunçosos, presumidos, whatever. Mas tenho direito a ter uma opinião sobre aquilo que pode acontecer ou não e eu achava que ia acontecer. Neste caso acertei e tive sorte porque fui abordado pelas pessoas certas.

 

E contactaste cerca de 200 pessoas para este livro!

Foram mais de duzentas pessoas, até porque por vezes não fico com o contacto da pessoa que fotografei. E depois há toda a componente jurídica, das questões legais. Mas, em todo o caso, havia um ponto que era mais importante: eu queria que estas pessoas soubessem que eram parte deste livro, que fizessem parte dele, que quisessem fazer parte dele. Foi um esforço enorme mas que deu bastante gozo.
Gosto de pensar que cada pessoa que está no livro está contente por fazer parte dele.

Depois de te vermos tão emocionado no lançamento com as palavras que te foram dirigidas, pergunto-te: quais são as pequenas coisas que ainda te arrancam um sorriso?

O dia do lançamento foi um dia pródigo. Mas há momentos giros que têm muito que ver com as pessoas com que nos cruzamos. Ainda uma senhora que fotografei com a filha em Munique me veio convidar a ir fotografar lá umas pessoas e ficar em casa dela. São momentos destes, que têm mais que ver com o lado humano, com a relação que eu próprio acabo por cultivar com as pessoas. É como estávamos a falar. As histórias? Tenho tantas histórias! Imensas! E são todas elas giríssimas.

E, depois do livro, de todos estes projectos, para onde é que vais?

Não sei… Agora, depois desta campanha de Lisboa e depois do livro, que se calhar são dois momentos mais importantes que tudo o resto que tinha acontecido, é quase motivo para ficar com a sensação de que depois destes dois achievements não há mais nada para fazer. Mas há certamente muito mais para fazer! Já tenho umas ideias. Mas há aqui um momento que possivelmente serve para pensar um bocado sobre o que vai ser de mim daqui para a frente e para O Alfaiate Lisboeta também. Mas O Alfaiate Lisboeta também não é mais do que uma representação criada por mim, por isso estará sempre dependente de mim, do meu bem-estar. O Alfaiate Lisboeta existe porque eu tenho gosto que ele exista. Vive da minha energia, daquilo que o mundo me dá e tira.

Só uma última questão: qual é o teu filme favorito?

(risos) É o “Cinema Paraíso”, muito provavelmente.



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