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JOSÉ CID | ENTREVISTA

Está um fim de tarde bem solarengo, tal como nos tem habituado Lisboa. Fomos encontrar-nos com José Cid a um hotel e falar um pouco com ele. Assim que ele chega, pede 10 minutos para fazer o check-in e pousar as suas coisas. Chega-nos então, já com indumentária adequada à ocasião, vestindo uma t-shirt que estampada a capa desse álbum tão mítico da música portuguesa, o “10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte”. Com uma postura que não podia ser mais descontraída e bem disposta, convida a sentar numa esplanada lá fora – o tempo está mesmo a pedir para se darem duas de treta debaixo dos últimos raios de sol do dia. Os aviões que ocasionalmente ali pairavam por cima obrigavam a esporádicos aumentos do tom de voz. Cid pousa em cima da mesa um CD e um disco de vinil. Naturalmente que o vinil ali pousado é a última edição, gravada ao vivo no Coliseu dos Recreios, do álbum sobre o qual vamos falar (que a sua própria t-shirt o demonstra). Já o CD, intitulado “Regresso” e com a autoria de Mário Mata, é uma das últimas suas produções pela Acid Records. É deste que nos começa a falar. Descreve com o talento e a autenticidade de Mário Mata com tal fulgor que nos deixa uma vontade imediata de irmos escutar aquela rodela de plástico. Mas calma, não nos apressemos. Ainda há muita coisa que lhe queremos perguntar.

Não posso deixar de começar por te introduzir como Tio Zé…

Sabes que Tio Zé é mais o tio que canta o«Addio Adieu», «Na Cabana», «A Minha Música». Isto aqui que vês (enquanto me aponta para o disco de vinil pousado em cima da mesa) é mesmo José Cid. Porque em Portugal nesta área do rock progressivo, José Cid é o iniciador e um dos mais importantes do mundo. Porque repara, o “10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte” é o meu único álbum internacionalmente conhecido e para lá de fronteiras ninguém me conhece por Tio Zé. Mas claro, eu acho piada porque é uma forma simpática das novas gerações me tratarem e me conhecerem a mim, o tio que eles gostavam de ter e que podem acompanhar nos concertos ao vivo. Por isso não vejo porque não me possas chamar como tal!

O que podemos esperar destes espetáculos que vais dar agora em relação aos que deste há 2/3 anos também baseados neste disco

Vamos então estar no dia 1 de Maio na Aula Magna em Lisboa e no dia 6 de Maio na Casa da Música no Porto. Tem havido um grande entusiasmo e as salas já estão bastante vendidas, mas há bilhetes ainda e estamos muito contentes porque vamos reencontrar um público que é específico para esta área. Não são bem as mesmas pessoas que vão a outros concertos de José Cid. Se vires o DVD vês um público muito jovem, um público que inclui bandas do jovem rock português como os Capitão Fausto, os Ganso ou os Savanna, que adoram e querem sempre estar lá e querem sempre ouvir.

No concerto vai haver uma primeira parte com três temas do meu próximo álbum de rock sinfónico, “Vozes do Além”. Depois vamos tocar o «Vida (Sons do Quotidiano)» e o «Cantamos Pessoas Vivas». Há um intervalo, para as pessoas irem tomar café e fumar um cigarro. Depois voltamos e tocamos o 10000 Anos na íntegra, com os merecidos encores a seguir. Não vamos apresentar nada de muito novo a não ser que em Lisboa o meu sobrinho Gonçalo Tavares nas teclas vai trazer o vintage todo dos instrumentos dos anos 70. O Mellotron é um instrumento extremamente delicado, feito com fitas de gravação que se vai partindo, que se vão enferrujando e hoje há Mellotrons acoplados em sintetizadores , particularmente da Roland, que têm vozes humanas iguais aos originais sem falhas. Tenho um g1000 para tocar essas vozes humanas. Flautas, cordas iguais às do Mellotron. Temo-lo em arquivo, mas não em palco porque não é um instrumento conservável. É sensível ao enferrujamento e à humidificação, as fitas partem e quando partem vais ter de a colar. De resto todo o vintage de instrumento nós temos, inclusivamente o som de guitarra original.

«Na Minha Guitarra» e «Só (Como António Nobre)» são dois temas que pertencem ao teu último disco, Menino Prodígio, mas que foram tocados nos concertos como pertencendo ao teu próximo álbum. Vão ser tocados na mesma? Como vai ser esse próximo álbum?

Inicialmente gravei esses dois temas para o Vozes do Além, mas acabei por incluir no “Menino Prodígio”, mudando apenas a parte poética. Vamos tocar«Na Minha Guitarra». É um álbum que vamos começar a gravar em 2018 e que poeticamente é seguramente o melhor álbum de rock sinfónico, porque tem poesia de Natália Correia, Sophia de Mello Breyner, Frederico Garcia Lorca e algumas inclusões poéticas da minha autoria, pelo que em termos poéticos será o mais interessante, abordando a ideia da reencarnação.

(Enquanto aponto para o vinil pousado em cima da mesa) Podes-me falar dessa edição que tens aí?

Foi gravada no último concerto que demos deste disco, no Coliseu dos Recreios. Tem um DVD e CD áudio. Tem um grafismo antigo com toda a parte fotográfica do álbum. Inclui também o vinil original. É uma edição de luxo, fizemos tudo pelo melhor. E este vinil é o antigo vinil remasterizado em Londres, Abbey Road.5.1 surround e é um “sonzaço”. Então o DVD tem um som absolutamente brutal

Escreveste o álbum numa altura em que o mundo não andava nos seus melhores dias, e por isso as pessoas reviam-se muito na história numa maneira de fugir ao que as rodeia. Hoje acontece o mesmo.

“10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte” é uma história conceptual. É por isso que a nível mundial o álbum é tomado com respeito e vontade de o acompanhar, mesmo em português. Porque este álbum conta uma história, com um princípio meio e fim. E é esse fim, de um planeta sonhado, que as pessoas gostariam de protagonizar. Vivemos num planeta onde muitas vezes não estamos de acordo com ele, mas temos de viver nele e lutar por melhorar. E por isso que é uma história que hoje em dia faz todo o sentido. O planeta está em ebulição . E é por isso que metade das pessoas não se revêem no mundo de hoje e a outra metade são os donos da guerra. O álbum conta a história do após de uma 3ª guerra mundial, e é a partir daí que o álbum começa. E termina com o cosmonauta e uma companheira que fogem para o espaço e que regressam ao planeta Terra como novos Adão e Eva. É por isso que as pessoas se identificam com essa história. Metem-se na nave espacial, viajam pelo álbum acompanhando a história e quando este termina, não querem sair de lá. Querem continuar naquela narrativa.

Fala-me um bocado da tua evolução desde o primeiro álbum a solo, de 1972 até vires parar ao rock sinfónico do 10000 Anos

Em 1970 o álbum do Quarteto 1111 em Janeiro tinha sido engavetado politicamente, pela censura, uma semana depois de estar nas bancas. E logo a seguir atirei-me para gravar outro que tivesse mais metáforas e que pudesse passar a censura. E passou, estando minado de metáforas. Foi o meu primeiro a solo. Tem aqui um tema que me é oferecido em 1968 pelo Gilberto Gil, o «Volkswagen Blue». Tem também músicas que foram censuradas pelo regime, como o «Olá Vampiro Bom», o «Não Convém», que conta a história de um menino que vem do Restelo que é filho de um grande chefe do antigo regime e que pergunta uma série de coisas ao pai dele, e embora não tenha tido respostas, começa a ver o mundo de outra maneira. Instrumentalmente os sopros acabaram por ser um pouco impostos, sinceramente não acompanham bem a estética que eu quis dar a álbum, que era muito mais acústico, bem ou mal era eu. Aproveito a primeira vez que há um gravador de oito pistas em Portugal para gravar eu sozinho os instrumentos todos. Gravei a bateria, gravei as violas, gravei o baixo, gravei as teclas, gravo o cravo… Mas depois aquilo tudo junto funcionava e achei um piadão gravar sozinho porque assim não sentia que estava a desprezar os outros músicos do Quarteto 1111.

Entretanto, foi o 25 de Abril..

Precisamente! 3 ou 4 anos depois deste eu gravo um álbum de rock sinfónico que tem tudo a ver com o 25 de Abril, o “Onde Quando Como Porquê Cantamos Pessoas Vivas”. Toda a poesia é o renascer de um homem novo – que agora já está velho – e há uma distância grande entre as duas edições. Entretanto eu também evoluí, musicalmente.

Foi aí que te viraste para o Mellotron e para os Moogs? Como é que estes surgem?

Apareceram. São instrumentos que aparecem no mercado. E depois estava constantemente a pensar em coisas mais à frente, mais rockeiras. E foi aí que veio o “Vida (Sons do Quotidiano)” e a seguir o “10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte”. E acabei por fazer outras coisas, fiz o «Cai Neve em Nova Iorque», fiz o «Addio Adieu», a «Cabana», virei-me para outras coisas mais divertidas, «Como o Macaco Gosta de Bananas».

Como é que te consegues dividir entre o José Cid do rock sinfónico e o José Cid de outros registos diferentes?

Eu sempre fui um homem de vanguarda que teve 28 canções censuradas pelo antigo regime na altura, mesmo com o Quarteto 1111 e sempre sonhei em coisas importantes. Ao mesmo tempo ia gravando coisas divertidas e comerciais, porque não? Uma pessoa nem sempre é um intelectual, eu posso adormecer como tal e depois acordar de outra maneira, não preciso de ser igual a mim próprio, tu não tens nenhum artista que seja coerentezinho e igual a si próprio, nenhum! Nem querem ser. Todos os grandes artistas são bipolares. Tenho dias que até sou tripolar. Nem era divertido se fosse de outra maneira.

Sentes que o mundo digital foi bom para as pessoas irem re-descobrirem estes teus álbuns mais antigos?

Claro, com o advento da Net, do Youtube e tudo mais, as novas gerações voltaram-me a descobrir, e agora chamam-me Tio Zé. São jovens informados e que querem saber, embora haja uma parte que esteja completamente “kizombizada”, mas muitos estão informados sobre o que se fez em Portugal, sobre a história da música portuguesa. E este meu regresso deve-se muito às novas gerações terem descoberto as minhas participações na eurovisão e tudo o resto que fui fazendo e gravando no passado. Eu, tal como a minha obra, sou muito camaleónico. Quem ouviu o meu álbum “Menino Prodígio” – um granda álbum – que é rock interventivo e não rock cor-de-rosa, acaba por perceber que eu não sou sempre igual. Nem quero ser sempre igual

O que é que o futuro nos vai trazer de José Cid?

O meu próximo álbum, que está aí a chegar, chama-se “Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid” e é um disco onde tu podes encontrar mais canções, embora comece logo de uma maneira muito provocadora. Tem um grafismo muito Beatle-iano e por acaso até tem mesmo uma música dedicada aos Beatles. (diz enquanto me mostra uma imagem, inspirada na famosa capa do “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles e me começa a apontar as diferentes personalidades que estão presentes ali na imagem). Já teve um primeiro single de avanço «João Gilberto & Astor Piazzola» que é cantado por mim e pelo Tó Zé Brito e vai incluir o meu mais actual single «Se o Chico Buarque me cantasse o fado». Tenho também uma homenagem aos Capitão Fausto, que eles no primeiro álbum têm um tema chamado «Zécid» e eu aqui decidi incluir um tema chamado «A banda dos Capitão Fausto». Vai atrás da ideia da música deles e é muito psicadélico. Tem umas flautas, umas cítaras, tocadas no meio de florestas com pássaros a cantar e os Capitão Fausto estão nas clareiras das florestas a tocar para lobisomens, faunos, vampiros, fadas, tridentes, ninfas e dizem “Juntem-se todos todos naquela floresta, não há bem-estar enquanto não há festa”, tendo eu aqui repetido a frase poética deles. E depois no fim, eles vão mesmo dormir a sesta, e enquanto eles o vão fazer  as ninfas aproveitam e vão nuas tomar banho para a lagoa e quando eles acordam ficam completamente à toa porque não sabem o que hão de fazer. (risos) É um tema muito engraçado. Já tenho também outro álbum meio pronto intitulado “Fados, Fandangos, Viras e Malhões”. E claro, paralelamente, vou gravando de fundo o meu próximo álbum de rock sinfónico, “Vozes do Além”, com o meu sobrinho Gonçalo. Eu escrevo muitas canções e produzo também muita coisa, no meu estúdio analógico em Mogofores, onde só entra quem toca bem.

Sendo um artista com uma agenda tão preenchida, a nossa conversa ficou por aqui, mas com a sensação que poderíamos estar ali dias inteiros a ouvir histórias de aventuras e viagens, seja pela estrada ou pelo espaço. Por esta altura, tocava  «Let’s Get Loud» nas colunas da esplanada e não conseguimos deixar de pensar que isso é algo que José Cid ainda não parou de fazer. Tocar cada vez mais alto e fazer cada vez mais história. Tiramos uma “selfie”, tal como pediu, e fomos jantar, pelo que a entrevista ficou por aqui. Mas conversas e partilhas ainda se seguiram por ali. E vão continuar, em qualquer palco que este artista possa pisar. A começar pelos próximos concertos no dia 1 de Maio na Aula Magna em Lisboa e no dia 6 na Casa da Música no Porto.

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