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Julia Holter | “Ekstasis”

Um álbum repleto de melodias, arranjos e segredos que são desvendados lentamente, audição após audição

É um álbum pessoal mas nada imediato. Não é de todo um livro aberto. É um álbum longo para os tempos que correm em que é quase tudo curto, imediato. É tudo para ontem. Holter decidiu, e bem, levar o seu tempo. Fazer as coisas ao seu ritmo, e o resultado é óptimo. Um álbum repleto de melodias, arranjos e segredos que são desvendados lentamente, audição após audição.

A sua música reflecte uma personalidade que atenta no pormenor. «Marienbad», o tema que abre “Ekstasis”, é um reflexo disso mesmo, pela forma como combina minuciosamente diferentes texturas e camadas sonoras, em conjunto com as vozes, por vezes num registo suave, quase que sussurrado ao nosso ouvido, seguido de outro quase idílico. É uma abertura que roça a perfeição. E quando pensamos que o mote sonoro para o álbum está dado, eis que nos enganamos redondamente. É que o segundo tema, «Our Sorrows», começa a colocar a descoberto a faceta “camaleónica” de Julia Holter. Aqui é uma vertente mais electrónica que fica a descoberto. A forma quase casual como consegue juntar o que para muitos iriam parecer peças soltas de um puzzle, e fazê-las depois funcionar como uma obra completa é um dos grandes méritos que Julia Holter tem em “Ekstasis”.

A pop extra-sensorial de «Für Felix». A melancolia inebriante de «Moni Mon Ami». E o que dizer da reinterpretação, em duas partes, de «Goddess Eyes», originalmente editada no primeiro álbum, “Tragedy”? Primeiro numa versão mais orgânica e atmosférica e depois sob o efeito de uma voz robótica, à semelhança daquilo que se pode escutar no tema original), como que para fazer a ponte entre os álbuns. “I can see you / but my eyes are not allowed to cry”. É mel para os ouvidos.

Ao escutar as canções que dão corpo a “Ekstasis” é fácil perceber algumas das influências de Holter, com Laurie Anderson a encabeçá-las («O Superman» de Anderson é um bom exemplo disso). Isto não quer dizer que estejamos perante um decalque. Estamos sim perante alguém que não tem qualquer receio de assumir a admiração pelo trabalho de terceiros e, simultaneamente, imiscuir um pouco de si própria no resultado final. Pode soar a cliché, e até pode ser mesmo, mas não é por isso que deixa de ser verdade: “Ekstasis” é daqueles álbuns que se torna melhor após cada audição. Porque cresce e amadurece. Se daqui a um ano ainda vamos estar a ouvir este álbum com o mesmo prazer e vontade com que o fazemos agora, é algo de difícil resposta. É que, como disse no início, hoje em dia é tudo tão curto e imediato…



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