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Kalorama 2025 | Dia 2 (20.06.2025)

O Segundo Dia do MEO Kalorama: Um Sonho Gótico de Som e Suor

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Texto por Vítor Borborema e fotografia por Graziela Costa.

O segundo dia do MEO Kalorama foi uma odisseia sensorial que incendiou o Parque da Bela Vista, entre sombras góticas e explosões de euforia. A noite, mais fresca que o dia, pulsava com uma energia quase mística, como se o festival tivesse aberto um portal entre o crepúsculo e a madrugada. O público, um mosaico vibrante de idades e estilos — de góticos de coração, a fãs de pop desinibido — movia-se entre os palcos com uma energia contagiante, enchendo o espaço de risos, conversas e expectativa. O Parque da Bela Vista, com os seus caminhos arborizados e vistas amplas, transformou-se num cenário vivo, onde food trucks, instalações de luz e áreas de descanso criavam uma atmosfera de comunidade efervescente. De rituais sombrios a celebrações desabridas, cada atuação teceu uma narrativa única, unindo a multidão num transe coletivo onde o suor e o som se fundiram em pura catarse.

A Máquina abriu o dia transformando o Palco Panorama num ritual sombrio, como se a tarde tivesse sido engolida por uma catedral de névoa e reverb. Três músicos entregues a uma liturgia elétrica, com percussão frenética a escavar o chão e vocais guturais a ecoar. As luzes vermelhas pulsavam como sirenes, e a multidão — muitos com cabelos coloridos e roupas escuras — respondeu com headbanging e olhares vidrados, alguns até fechando os olhos como se estivessem em transe. Era mais que música: era uma invocação que fez o chão tremer. 

Com o pôr do sol a dourar o horizonte, o duo português Best Youth trouxe um bálsamo etéreo ao Palco Vale. O dreampop e os vocais doces de Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas pareciam feitos para aquele crepúsculo. Famílias e grupos de amigos, espalhados em mantas pelo relvado, balançavam suavemente ao som de «Part of the Noise», enquanto outros, mais próximos do palco, cantavam as letras de cor. Apesar de um início tranquilo, quase diluído, a química genuína da dupla conquistou o público. «Can I Feel It» e «Never More» ganharam corpo, e «The Night Falls» fechou o set com um eco suave, perfeito para a transição entre luz e escuridão. Sentia-se o público a guardar energia para o furacão norte-americano que se anunciava. Ainda assim, não foi um momento perdido.

O palco principal ganhou vida com Azealia Banks, onde o público, agora mais denso e vibrante, se aglomerava com leques e bandeiras coloridas, pronto para ser arrebatado pelo seu magnetismo. Apesar de problemas técnicos iniciais, com os baixos a abafarem a voz, Banks dominou o caos com uma versão acapela de «Luxurious». O concerto explodiu em big beat, com faixas como «Fierce» e «Fuck Him All Night» a incendiar a plateia. Jovens dançavam com passos alucinados, enquanto outros gritavam as letras de “212”, transformando o recinto num mar de movimento. Com um megafone em punho, Banks encerrou com um encore-manifesto, deixando o público em êxtase, entre aplausos e a plateia iluminada pelos telemóveis que registavam cada movimento da artista.

Na ressaca desse furacão, Boy Harsher ofereceu um refúgio sonoro mais sombrio e minimalista. O duo mergulhou num universo de sintetizadores melancólicos e vocais envoltos em névoa digital. A estética fria, quase industrial, evocava uma nostalgia emo filtrada por máquinas. A fórmula, no entanto, exigia mais do que o público parecia disposto a dar naquele momento. O ambiente tornou-se rarefeito, e a atenção dispersa.

Helena Hauff, entre árvores decoradas com bolas de espelho no Palco Panorama Lisboa, criou um transe techno denso. O público, mais jovem e vestido com roupas fluorescentes, entregou-se às batidas, dançando como sombras sob luzes filtradas. Era uma comunhão pagã, com o som a ecoar como numa floresta sintética, e o ambiente ganhou um toque de magia com a organização impecável do espaço, que permitia uma imersão total.

Scissor Sisters transformaram o Palco Bela Vista num altar queer, com trajes prateados reluzindo sob as luzes estroboscópicas e uma energia libertadora que eletrizou o festival. O público, de todas as idades — de adolescentes com brilhos no rosto a famílias com crianças dançando nos ombros —, cantava «Let’s Have a Kiki» como um hino de celebração e liberdade. O vocalista, Jake Shears, com sua presença carismática, arrancava gargalhadas com interações em português, como “Boa noite, Lisboa!” e brincadeiras improvisadas que conectavam instantaneamente com a plateia. O ator britânico Ian McKellen surgia no ecrã a dizer “Venham para a luz!”, e foi impossível resistir. A multidão dançava sem inibições, como se o Parque da Bela Vista tivesse se transformado numa discoteca sem fim, com corpos girando em sincronia e sorrisos iluminando a noite. A logística do festival brilhou aqui de forma exemplar: o espaço amplo do Palco MEO permitia que todos se movessem livremente, sem empurrões, enquanto a qualidade do som cristalino e as telas gigantes garantiam que até quem estava mais atrás se sentisse no centro da festa. O cenário, com suas luzes coloridas refletidas no parque e a brisa fresca da noite, amplificava a sensação de um evento cuidadosamente orquestrado, onde cada detalhe contribuía para a euforia coletiva. Scissor Sisters, com seu pop sem vergonha e humor provocador, transformaram o momento numa celebração maximalista da identidade e da alegria, deixando uma marca indelével no coração do festival.

E então, como um fecho de cortina que se recusa a descer, veio FKA Twigs, a cabeça de cartaz, no principal. O seu espectáculo, dividido em três atos — “Prática”, “Estado de Ser” e “Pináculo” —, foi uma viagem interior encenada com rigor e magnetismo. Antes mesmo de subir ao palco, a expectativa era palpável: a multidão, composta por fãs dedicados com merch da artista e curiosos atraídos pela sua reputação, aguardava em silêncio reverente, muitos com telemóveis prontos para captar o momento. Twigs emergiu num cenário minimalista, com um cubo industrial centralizado no palco, enquanto dançarinos moviam-se como se habitassem um plano etéreo. A sua entrada a cappella, com uma voz soprano delicada, cortou o ar como um fio de luz, contrastando com a aspereza do palco. Cada movimento era coreografado com precisão quase sobrenatural, evocando uma dança ritualística que parecia fundir o humano e o divino.

O primeiro ato, “Prática”, abriu com faixa a deliciosa «Perfect Stanger», onde Twigs canalizou uma energia primal, com batidas pulsantes e movimentos que transformavam aquele cenário em uma rave futurística. O público, hipnotizado, acompanhava com movimentos sutis, como se «Oh My Love», onde a sua voz oscilava entre vulnerabilidade e força, enquanto os dançarinos criavam tableaux vivos que remetiam a narrativas mitológicas. A iluminação, com tons de roxo e azul, transformava o palco num universo paralelo, e o público — de casais abraçados a fãs solitários com lágrimas nos olhos — parecia suspenso no tempo.

O “Pináculo” trouxe o ápice com «Cellophane». A canção rasgou o silêncio, e Twigs, sozinha no centro do palco, entregou uma performance de partir o coração. A sua voz, esticada até os limites da emoção, ecoava como um lamento universal, enquanto o seu corpo se movia com uma fluidez que misturava ballet e dança contemporânea. O público, agora em silêncio absoluto, parecia não respirar; alguns erguiam os braços, outros fechavam os olhos, absorvendo cada nota. A palavra «eusexua», cunhada por Twigs como o instante antes do êxtase, materializou-se ali — um momento de pura transcendência, onde desejo, dor e vulnerabilidade se entrelaçaram. Mesmo com algumas faixas em playback, a força da performance era inegável, sustentada pela presença magnética de Twigs e pela coreografia impecável.

Outros destaques incluíram «Drums of Death», com sua energia visceral e uma coreografia que evocava rituais antigos, e «Girl Feels Good», que trouxe um toque pop com referências a Madonna, misturado com uma estética de line dance que fez o público balançar. A produção visual, com um show de luzes que alternava entre tons etéreos e pulsos vibrantes, amplificava a narrativa, enquanto o som, cristalino apesar do espaço ao ar livre, envolvia a multidão. Twigs não apenas cantou: ela construiu um mundo, e o público, agora uma entidade una, mergulhou de cabeça no seu mundo de ‘eusexua’.

Num dia em que o Kalorama dançou entre o gótico e o eufórico, o Parque da Bela Vista foi mais que um palco: foi um espaço de conexão, onde a música uniu extremos. De A Máquina a FKA Twigs, cada atuação refletiu a diversidade do público e a energia do festival, num equilíbrio perfeito entre caos e harmonia. Twigs, como cabeça de cartaz, não apenas encerrou a noite — ela elevou o MEO Kalorama a um plano de arte viva, deixando uma marca indelével em todos os que ali estiveram.

Leiam aqui as reportagens do primeiro e terceiro dia do festival.



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