Anna B Savage + Daphné Chenel @ ZDB (24.04.2025)
O momento certo
Anna B Savage andava pela ZDB, ora espreitando a livraria (aquele catálogo da Antígona e da Orfeu Negro desperta um valente sentimento de cobiça), ora a montar uma mui apetecível banca de merchandise, ora a destribuir dois dedos de conversa e um par de sorrisos.
A primeira parte está a cargo da Daphné Chenel, nativa da margem sul do Canal da Mancha, e residente em Lisboa. Uma voz limpa e suave que desliza sobre as notas que as teclas nos oferecem. Segunda canção, «Je m’éteins», debruça-se sobre o “feliz” tema que é a depressão. Segue-se «Le temps d’une averse», desta vez sobre momentos que nunca poderemos voltar a vivenciar. Antes de pegar na guitarra apercebe-se que não está afinada. As canções são todas despidas de arranjos e floreados; os acordes são sempre poucos. São simlples. «Prè de fleurs» é a excepção que confirma a regra: uma canção sobre sentirmo-nos melhor depois de nos sentirmos tristes.
Para rematar há mais três canções, duas delas sem nome, e compostas em inglês, após uma separação. «Breakup song #1» e «Breakup song #2», terminada no própria dia, sobre o passado e as marcas que uma relação deixa, seja em nós, seja nos quadros pendurados na nossa parede. Pelo meio uma canção sobre a avó portuguesa, Alice, que mesmo sendo pouco faladora, abriu as portas deste sítio estranho a que damos o nome de Portugal, tão cheio de defeitos e outras tantas qualidades. Foi simples e despretensioso, e talvez por isso tenha tido o privilégio do silêncio, algo tão raro (e precioso) nos dias que correm.
Rumamos à margem norte, e à voz doce, profunda e grave de Savage. Preparamo-nos para uma viagem por três álbuns que são três estados de espírito distintos, mas preciosos e representativos daquilo que é (ou deveria ser maus vezes) a natureza humana. Crescimento. Solidão. Amor. A ordem pode ser esta. No palco há programações e uma viola. No chão há um pedal. Tudo é rapidamente colocado na posição e com a afinação certa pela própria, para pouco depois entrar em palco descalça e se agarrar à guitarra que afina rapidamente antes de se atirar a «Hungry», orgânica e sincera. A melhor coisa que estas canções têm é a maneira como nos conseguimos identificar com elas.
«Mo cheol Thú». A Irlanda tomou o seu coração num duplo sentido e o resultado foi mesmo escrever uma canção e depois um álbum a tentar expressá-lo. E há coisas que transparecem até pelos gesto, e a forma como Anna B Savage elevava e inclinava levemente os pés é uma demonstração de amor puro. Por isso, não admira que «Big & Wild» seja uma canção que transborda amor. Já «Lighthouse», com um humming a meias, é amor palpável que nos guia.
É sempre possível mudar de ideias, e «Talk to Me», a ponte entre os dois primeiros discos e o mais recente “You & i are Earth” mostra-nos isso mesmo, com Anna a cantar-nos, “ I’m learnjng how to love again”. Sobre ser paciente e aprender a amar. Magnífica. «Donegal», respira Irlanda por todos os lados, mas também versa sobre ter saudades de casa e colonialismo. Aqui os pés tendem a sobrepor-se, mas virados para dentro. É conforto.
«Incertus» e «I Reach for you in my confort» antecedem «BedStuy». Entre canções surge sempre a necessidade de afinar a viola e, consequentemente, há diálogos e – por vezes – monólogos. Tal e qual uma boa cantautora. «BedStuy» leva-nos ao primeiro álbum, e introduz a componente electrónica que aqui já dava um ar de sua graça, antes de se impregnar de forma perfeita no álbum seguinte, como as duas canções que se seguem mostram. De forma perfeita, diga-se. «The Ghost» combina a componente electrónica com a acústica e cria um verdadeiro momento de catarse, com uma entrega portentosa de Savage. Arrepia. Muito. «InFlux» pulsa. Sinto-mo-la através do nosso corpo e em palco, Anna B Savage oferece-nos um verdadeira performance.
«Cornflakes» não constava do alinhamento porque nunca sai bem quando a tenta tocar ao vivo, mas porque foi pedida com jeitinho, ei-la! Maravilhosa. Pura. O reflexo de um sentimento que sentido, quer em cima do palco, quer na plateia do Aquário, que é como uma segunda casa.
«The Orange» a fechar, e sem encores porque Anna B Savage os acha estranhos e com o pedido de ter um gesto de carinho para um amigo platónico se estivesse presente, porque vivemos em tempos estranhos e amor precisa-se. Mais do que nunca. Tendo a concordar com ambos os pontos. Cada vez mais.
Inesquecível.
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