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Kalorama 2025 | Dia 3 (21.06.2025)

Um Final Eclético no Parque da Bela Vista

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Texto por Vítor Borborema e fotografia por Graziela Costa.

No terceiro e último dia do MEO Kalorama 2025, realizado a 21 de junho no Parque da Bela Vista, em Lisboa, o festival consolidou sua essência eclética com uma programação que transitou harmoniosamente entre momentos introspectivos e explosões de energia, culminando num encerramento vibrante, embora com reações mistas ao cabeça de cartaz. O cenário verdejante do parque, aliado a uma organização impecável – com acessos fluidos, áreas de alimentação bem distribuídas e iniciativas sustentáveis como a obra «Lisbon – A Green City» de Mafalda Gonçalves – criou uma atmosfera acolhedora e pulsante. Reunindo um público diverso, de adolescentes a famílias e entusiastas da música, o dia celebrou a inclusão, a diversidade musical e a conexão emocional, reforçando o compromisso do festival com música, arte e sustentabilidade.

No Palco Meo, o dia começou às 18h45 com JASMINE.4.T, revelação indie britânica da Saddest Factory Records, de Phoebe Bridgers. Apresentando faixas do álbum «You Are the Morning», como «Breaking in November» e «Best Friend House», a artista trouxe uma mensagem de solidariedade queer, com a bandeira trans brilhando sob o sol. Suas guitarradas sentimentais e letras sobre relacionamentos e apoio a pessoas queer em vulnerabilidade ressoaram profundamente. Pareceu uma confissão íntima que comoveu quem assistia. A performance suave, mas carregada de emoção, alinhou-se aos valores de inclusão do festival, preparando o terreno para a energia crescente do dia.

Já no Palco San Miguel, o trio canadense Badbadnotgood elevou a atmosfera com um set instrumental que fundiu jazz, funk e hip-hop. Conhecidos por colaborações com nomes como Ghostface Killah e Kendrick Lamar, abriram com uma cover descontraída de «War Pigs» do Black Sabbath, liderada pelo baterista Alexander Sowinski, que também assumiu o papel de MC. Faixas como «Alien Life» (com Blood Orange) e «Family» criaram uma viagem sonora surrealista, amplificada pelo pôr do sol. O público, inicialmente contemplativo, rendeu-se à energia, dançando e aplaudindo os solos de saxofone e teclado, com o ambiente natural do parque realçando a experiência.

Com o cair da noite, Noga Erez trouxe uma energia rebelde ao Palco MEO com seu pop-eletrónico, remetendo a Billie Eilish, mas com uma atitude jovial. Iniciando com «Vandalist» e a frase “I sleep with an eye open”, a artista israelense lamentou a ausência de instrumentos ao vivo e visuais, prometendo um espetáculo mais robusto no futuro. Ainda assim, faixas como «Firetrucks» e «Cry Baby» animaram a multidão, que respondeu com saltos e danças. A atuação teve momentos algo trapalhões, mas transmitia uma autenticidade difícil de ignorar. A performance intensificou a atmosfera festiva, pavimentando o caminho para os sets dançantes que viriam.

No Palco PANORAMA LISBOA, a DJ francesa Jennifer Cardini transformou o espaço numa pista de dança vibrante com um set de techno pulsante. Conhecida pela residência no Panorama Bar, em Berlim, sua performance, descrita extasiante envolveu o público com luzes de neon e batidas imersivas. Era como estar numa discoteca ao ar livre, com a energia do festival a amplificar tudo. O momento marcou o ápice da energia dançante, unindo jovens e entusiastas da música eletrónica numa celebração coletiva.

A dupla australiana Royel Otis trouxe um indie rock descontraído ao Palco San Miguel com faixas como «Moody» e «I Wanna Dance with You». Com mensagens irónicas ao estilo Wes Anderson exibidas no ecrã, a banda criou um momento de conexão com «Dance to the Person Next to You». A cover de «Murder on the Dance Floor» foi um ponto alto, com o público dançando fervorosamente. A atuação reforçou o senso de comunidade, com a multidão cantando e consolidando a atmosfera festiva.

Às 23h25, Jorja Smith subiu ao Palco MEO, trazendo a sofisticação e a profundidade emocional de seu R&B para o coração do MEO Kalorama 2025. Com uma setlist que mesclou faixas de seus aclamados álbuns «Lost & Found» e «Falling or Flying», como «Try Me», «Blue Lights», «Addicted», «Feelings», «Where Did I Go?», «Come Over», «The Way I Love You», «Teenage Fantasy», «Be Honest» e «On My Mind», a artista britânica envolveu o público com sua voz poderosa e presença magnética. Cada canção foi entregue com uma intensidade que transitava entre a vulnerabilidade crua e uma força cativante, consolidando Jorja como uma das vozes mais marcantes de sua geração. O cenário visual, com luzes suaves em tons quentes, criava um clima intimista que abraçava a audiência, embora os fogos de artifício virtuais exibidos no ecrã em algumas faixas introduzissem um contraste inesperado, mas intrigante, com o tom melancólico de sua performance, adicionando uma camada de dinamismo visual.

Apesar da entrega emocional avassaladora, a atuação enfrentou desafios técnicos, com o vento no Parque da Bela Vista e um excesso de graves na mixagem sonora ocasionalmente abafando os vocais em passagens mais sutis, o que comprometeu a clareza em momentos delicados. Ainda assim, Jorja brilhou em instantes introspectivos, como em «Addicted», quando pediu ao público que contivesse as emoções para mergulhar na essência da canção, resultando em um silêncio reverente que explodiu em aplausos calorosos, refletindo a conexão profunda com a audiência. Vestida com um figurino elegante e minimalista, que combinava sofisticação e autenticidade, ela interagiu com carisma genuíno, expressando gratidão com um afetuoso “Muito obrigada por terem vindo, espero voltar em breve”. A resposta do público português, que cantava suas letras com entusiasmo e devoção, foi avassaladora, deixando uma marca indelével no terceiro dia do festival e reafirmando Jorja Smith como uma força singular no R&B contemporâneo.

Quando já era quase 2 da madrugada, Damiano David, ex-vocalista dos Måneskin, subiu ao Palco MEO como cabeça de cartaz, marcando sua estreia solo em Portugal e encerrando o MEO Kalorama 2025 com uma performance eletrizante, porém polarizadora. Com um set compacto de 40 minutos, o italiano apresentou faixas de seu álbum de estreia, «Funny Little Fears», incluindo «The First Time», «Voices», «Tango», «Mars», «Zombie Lady», «Angel», «Tangerine», «Born With a Broken Heart» e «Solitude (No One Understands Me)». Complementando o repertório original, ele surpreendeu com covers vibrantes de «Nothing Breaks Like a Heart» (Mark Ronson) e «Too Sweet» (Hozier), que incendiaram o público. A qualidade sonora, impecável e considerada a melhor do festival, aliada à sua voz robusta e carisma magnético, criou momentos de pura catarse, destacando sua transição ousada do rock explosivo dos Måneskin para um pop introspectivo e versátil.

Damiano, vestindo uma camisola da seleção portuguesa, conectou-se instantaneamente com a multidão, demonstrando um charme genuíno. Em um momento de interação, ele fez referência à banda portuguesa NAPA, exclamando com entusiasmo: “A canção de Portugal devia ter vencido a Eurovisão!”, o que gerou uma onda de aplausos e cânticos da audiência. A cover de «Too Sweet» foi o ápice da noite, com o público pulando e cantando em uníssono, envolto por visuais vibrantes e uma energia contagiante. No entanto, a duração reduzida do set e a ausência de faixas dos Måneskin frustraram alguns fãs, que esperavam um toque de nostalgia. Apesar disso, a performance de Damiano evidenciou sua habilidade de se reinventar, consolidando-o como um artista solo promissor e deixando uma marca indelével no encerramento do festival.

Outros destaques do terceiro dia do MEO Kalorama 2025 enriqueceram o festival com diversidade sonora. Carla Prata animou com ritmos afrobeat contagiantes, Yakuza trouxe energia urbana e BRANKO misturou eletrónica com influências globais, mantendo o público em movimento. Bernardo Vaz, Anish Kumar e Ryan Elliott complementaram o lineup com sets vibrantes, enquanto Daniel Avery encerrou o Palco PANORAMA LISBOA com um techno hipnótico, evocando Orbital e Chemical Brothers, mantendo a multidão dançando até tarde da noite.

O MEO Kalorama 2025 transformou a Bela Vista num autêntico caleidoscópio cultural, onde música, arte e inclusão se fundiram com intensidade no terceiro e último dia do festival. Entre momentos de introspeção e explosões de euforia, a diversidade sonora e emocional foi celebrada por um público heterogéneo, que respondeu com entusiasmo a cada viragem do alinhamento. A organização exemplar, com pulseiras que facilitaram os acessos e medidas sustentáveis como a utilização de copos recicláveis, reforçou o compromisso ambiental do evento. De adolescentes a famílias, todos encontraram espaço para se reconhecer e partilhar experiências num ambiente seguro e vibrante. Com memórias inesquecíveis e um espírito de comunhão rara, o MEO Kalorama 2025 consagrou-se como um farol cultural em Lisboa, deixando o público ansioso pela próxima edição.

Leiam aqui as reportagens do primeiro e segundo dia do festival.



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