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Aloe Blacc @ Aula Magna

A prova viva de um pequeno fenómeno.

A noite de 4 de Maio na Aula Magna foi a prova viva de que o pequeno fenómeno Aloe Blacc, aparentemente difícil de percepcionar para alguns, especialmente para quem não conhece bem “Good Things” (o segundo álbum do jovem afro-americano), em terras lusas está verdadeiramente cimentado.

Se não o melhor, certamente dos melhores públicos da digressão do autor de «I Need a Dollar» o que o recebeu, entusiasta em alguns dos momentos, entre ritmadas palmas e fora das cadeiras acedendo, ora ao seu soul e movimento funky ora às suas evocações a James Brown, Al Green, Stevie Wonder e Marvin Gaye ou a sentimentos de alma grande como paz e amor.

Tal como na soul, insígnia de  décadas idas – albergue de  outros vultos e fenómenos – que no seu carácter de alma gigante criaram uma índole sónica que focava, ora o contexto racial e dicotómico da urbe, ora a grandeza ambivalente das emoções, também Aloe Blacc parece ter conseguido com o single de avanço de “Good Things” o momento certeiro para, com o fulgor/calor da sua impecável voz, passar e fazer ouvir a sua mensagem. Se o estado actual de grande parte do mundo é aquele que todos nós já sabemos, quem melhor do que alguém com uma grande voz, com uma mensagem em que quase todos se revêem, para nos tocar os corações?

Apesar de todos estarem ali para ver a inesperada revelação do ano antecedente, o rapaz que, saindo duma editora sem grande porte/expressão na indústria discográfica, foi verdadeiramente letal com um dos singles que o viria a popularizar entre um considerável nicho de formas, cores e até credos distintos – assim pareceu pela diversificada amostra de gentes naquela sala calorosa – a primeira parte contou com a prestação de Maya Jupiter, acompanhada pelos músicos do anfitrião da noite.

Maya Jupiter mostrou-se-nos, não só porque o disse como imageticamente o revelou, uma verdadeira cidadã do mundo. Vinda de Sidney, Austrália, onde foi criada, com ascendência turca e mexicana, viaja agora um pouco por toda a Europa com um norte-americano, que por conseguinte é filho de pais panamianos.

A mistura trazida e apresentada por Maya nem sempre foi homogénea. Reflectiu de facto essa sua abrangência urbana – inclusive na indumentária e trejeitos que, ora visitavam o flamenco, ora ancoravam no rap – ainda que fragilizado talvez por essa falta de contundência na amplitude das suas intenções sónicas – ora no reggae e num quase neo-soul, desvios, aliás, também percorridos por Aloe Blacc no seu primeiro disco. Maya chegou mesmo a presentear a extensa plateia com um samba opulente e festivo “no pé”!

Era, contudo, o black power Aloe Blacc que todos aguardavam expectantes e assim foi.

Aprumado e elegante na veste, sensual, mas tenuemente, e com eficaz destreza performativa, de sorriso fácil e cativante, olhos nos olhos com um público efusivo, o músico fez-se acompanhar por uma formação com baixo, uma guitarra que nos ofereceu alguns solos interessantes, teclados e uns parcos metais dobrados em percussões: os Grand Scheme, como fez questão de nos elucidar.

Se algum do rapper Aloe Blacc ainda se quisesse sentir num ou outro tema de “Good Things”, ele mesmo não deixaria. Foi peremptória, e ainda bem, a forma como se apresentou do início ao fim do espectáculo. Era uma noite de soul, que ainda assim também não descurasse a mensagem, mas a partilhasse com a melodia que queria? Então teve-a aqui.

Os Grand Scheme iludiram e até incitaram o público com uns primeiros acordes/ notas de «I Need a Dollar», com uma ovação de toda a sala que se sentiu bem lá na frente, enquanto Aloe Blacc aludia aos ilustres, referidos no início deste texto, que fenderam o chão de soul pelos States – de Al Green a Marvin Gaye, de James Brown a Stevie Wonder – e inspiram, notória e inevitavelmente, o jovem cantor.

O brilho que o individualizam num aglomerado de outras estrelas/vultos soul Aloe já o tem. É como se antes de andar já soubesse mexer a anca com groove, respirasse a soul desde sempre e mesmo que, ainda sem saber o que fazer da vida, quisesse disfarçar e não conseguisse.

Alcançou notas que encheram aquela sala de regozijo, brindou-nos com duas versões deliciosas de «Femme Fatale» (original de Velvet Underground) e, no encore já, um «Billie Jean» envolvente e mais arrastado que o original.

Alguns foram os momentos em que a toada rítmica se distanciava, por breves instantes, da soul e caminhava até outra não menos complementar – a blues, mas mesmo nesses instantes Aloe Blacc manteve aceso e participativo um público já claramente rendido à sua imensidão.

“Good Things”, o motivo principal desta digressão, foi tocado na íntegra. «You Make Me Smile» abriu as hostes, mas foi «Politician» que fez aquecer a memória presente por aquela plateia e as «Miss Fortune», «Young Brother», «I Need a Dollar» (com todos de pé a ajudar na letra) e quase a terminar «Loving You is Killing Me» – mais tocada que cantada – que se conseguem reservar até períodos após o concerto ainda na mente de alguns que a trauteiam à saída do espaço.

Continuando assim é, presumo, mais que certo que Aloe Blacc vá nas suas imensas asas da devoção e gratidão com que nos alimentou Coisas Boas brevemente para fora do ninho que o acolheu.

Por cá, a 28, espero/esperamos reencontrá-lo neste país que tão bem o recebeu, numa vila que promete em Julho também aquecer: Cool Jazz Fest, “sure”.



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