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“Lilith”, de João Garcia Miguel, no São Luiz

O que foi feito de Lilith, a mulher que fugiu do Paraíso?

A primeira mulher de Adão, Lilith, enfastiada com o paraíso, e depois de discutir com Adão a respeito de quem é que devia ficar por cima, dirigiu-se aos altos portões e saiu dali para fora. Começou a dormir com os demónios que andavam por ali à volta, a espreitar por cima dos muros. Isto é tudo o que dela diz a mitologia judaica: que foi a primeira prostituta. O que a mitologia não diz é que, deste modo, ela abandonou um paraíso e foi ter a outro: o paraíso da linguagem. Sobre o palco, duas actrizes e um actor; o fundo narrativo projecta a situação mítica para a actual prosa do mundo, articulando memórias, instantâneos, hábitos de passagem em que por vezes se deixa ouvir, sobretudo quando estamos nus uns com os outros. O resto de um terrível silêncio da mitologia.

Com um texto original de Francisco Luís Parreira, João Garcia Miguel conversou com a RDB e deu-nos algumas das suas opiniões sobre quem foi Lilith, e o porquê desta ser uma peça diferente de todas as outras. “A peça surgiu porque tinha na sua base um apelo para a liberdade.“ É assim que começa o discurso do encenador.

A primeira mulher de Adão fugiu do Paraíso. Lilith, que aqui se apresenta como “uma mulher que apreciava acima de tudo o seu corpo, as suas paixões, os seus desejos, as suas pulsões interiores” e que necessitava de ser livre o suficiente para que todas essas suas características se pudessem manifestar. “No fundo”, refere o encenador, “ela demonstra ter um espírito rebelde; uma rebeldia que vai contra um sistema, e essa rebeldia é sinónimo de uma grande coragem, porque abandona o Paraíso – um local confortável, perfeito, onde tudo estaria a funcionar a seu favor, e a preservá-la da dor e do medo, e de uma série de coisas que podem, e que são, mais tentadoras”. Mas, e apesar disso, por uma questão de desavença sexual com o Adão, decide abandonar o dito Paraíso em busca de outro, de uma nova realização, transformando-se numa mulher mais livre.

“Isso pareceu-me um ponto de partida simbolicamente muito forte, muito interessante, para falar de uma série de coisas: dos limites dos artistas, dos limites dos homens e das mulheres, hoje em dia em relação ao seu próprio destino, à sua própria condição de serem ou não capazes de ser felizes, de terem essa dimensão de êxtase e de felicidade que é necessário para viver”, refere ainda João Garcia Miguel.

E neste texto e encenação existe alguma crítica política e social? Claro que sim, “esta questão política e social onde está neste momento a Europa, este Paraíso que nos prometeram está em perfeita ruína, a desfazer-se, e, provavelmente, terão de existir outras acções que já deveriam ter acontecido mas que, e por não termos o espírito da Lilith, nos fomos deixando conformar.”

Este é um texto que nos mostra que abandonámos as nossas necessidades, os nossos anseios de liberdade, “que quando são postas neste limiar de abandono são extremamente perigosas”. É isto que está a acontecer com a Europa de hoje, e é este momento que o texto vive: o texto, o mito, estavam cheios de possibilidades de leituras e de trabalho, e foi este ponto de partida que o encenador agarrou e deu vida. “Partimos de uma boa possibilidade de encontrar soluções no caminho e é o que estamos a tentar agora fazer. Vamos ver o que vai acontecer agora com o chegar do público, que são os nossos outros colegas de Paraíso – ou de inferno.”

O texto foi escrito em duas línguas: Português e Inglês, por uma razão simples: era desejo do encenador trabalhar com actores gregos há já alguns anos e, por coincidência, e sendo este um trabalho que aborda também a linguagem, “o próprio mito remetia para algumas coisas que poderiam ter a ver com a Grécia”, um Paraíso desfeito em revoltas e confrontos. Daí conheceu o actor Konstantinos Koutsolelos, depois Stamatina Pergioudaki, “e acabou por ser possível convidá-los e trazê-los” para trabalhar neste texto. Uma peça claramente compreendida pelo público e onde o Inglês “funciona como um território onde todos desaguamos, onde todos conseguimos tocar”, mas existem ainda partes em Espanhol e em Grego, numa multiplicidade de linguagens.

O que esta peça traz de novo é também a sua musicalidade: não, “Lilith” não é um musical; mas existem momentos onde a música é importante e faz toda a diferença. “Estas músicas não são músicas, são bocadinhos de letras, muitas vezes alteradas, outras vez não”. Para João Garcia Miguel fazia todo o sentido “utilizar uma linguagem que tivesse um toque quase imediato, uma expressão de linguagem que fosse vazia pela sua própria dimensão de repetição, mas, que, e ao mesmo tempo, é muito possível de ser posta e colocada em muitos outros sentidos”. Por isso, o encenador trabalhou certas frases feitas: frases quase cliché, universais, e próprias da música popular – a famosa pop music que pertence ao domínio do actual. Pela palavras do encenador, “são frases que acabam por tornar-se icónicas, e nesse sentido foi o que fomos à procura”. “O que nos interessava era o exercício do poder e a destruição da linguagem”, numa peça onde existem mais algumas músicas que não são tão evidentes como estas pop, mas que tem às vezes o mesmo tipo de sentido. Aqui, a pop music foi usada na procura de uma iconografia, existindo músicas espanholas, portuguesas, músicas de várias origens, gregas e inglesas, “e todas elas têm uma dimensão: são um objecto de contacto de comunicação muito poderoso”. Uma musicalidade que tem um poder emocional, vivencial, “extraordinariamente reconhecível, forte, transformado, como nós o transformámos, pensamos que tem uma nova mensagem”.

“Lilith”, a mulher que fugiu do Paraíso, é uma peça que fala da cultura do mundo que nos rodeia, da actualidade, “esta constante transformação de umas coisas noutras coisas, canções, frases, formas, plásticas, real, tudo se transforma em tudo – e isso é algo que nos interessa bastante, não pelas coisas em si mas pelo contexto onde elas estão”.

De 3 a 7 de Outubro na Sala Principal do São Luiz em Lisboa.

Sessão com interpretação em Língua Gestual Portuguesa | 7 de Outubro | 17h30

Texto original Francisco Luís Parreira
Encenação
João Garcia Miguel
Música
Rui Gato
Figurinos
Miguel Moreira
Desenho de luz
Daniel Worm d’Assumpção
Apoio à realização do espaço cénico
Miguel Lopes
Fotografia e grafismo
Jorge Reis
Máscaras e Adereços
João Prazeres
Assistente de cenografia
Ana Rodrigues
Direcção de produção
Filipa Hora
Produção executiva
Cláudia Figueiredo, Daniela Ambrósio
Apoio aos conteúdos
Teresa Fradique, Mantos
Assistente estagiários de encenação
Marta Coelho, Pedro Caetano
Interpretação David Pereira Bastos, Konstantinos Koutsolelos, Stamatina Pergioudaki, Sara Ribeiro

Co-produção JGM, SLTM

Fotografia de Rui Pedro Freitas



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