“Linguagem e silêncio” | George Steiner
O mistério que define o homem
Se quiséssemos resumir “Linguagem e silêncio” (Gradiva, 2014), livro de George Steiner que reúne “ensaios sobre a literatura, a linguagem e o inumano” – como avança o sub-título do livro -, nada melhor de que transcrever o primeiro parágrafo do prefácio, escrito por Steiner no ano de 1966: «Este livro é, antes do mais, um livro sobre a linguagem: sobre a linguagem e a política, sobre a linguagem e o futuro da literatura, sobre as pressões exercidas sobre a linguagem pelos regimes totalitários e a decadência cultural, sobre a linguagem e outros códigos de sentido (música, tradução, matemática), sobre a linguagem e o silêncio.»
O livro, um sério convite à reflexão, coloca questões pertinentes numa época em que o silêncio parece estar em dominância sobre a linguagem: Como considerar a utilidade da linguagem quando esta serviu para alimentar regimes totalitários? Estará a História a declarar a derrota da palavra em nome de uma linguagem decadente? Como irá a linguagem resistir a uma era onde a linguagem poética perde para o discurso com pendor matemático e carregado de simbolismo?
Os textos, todos eles à volta da ideia de uma Filosofia da Linguagem, incitam igualmente o crítico – que «vive em segunda mão» – a atentar na poesia da gramática – ou na gramática da poesia, o seu resultado literário -, reconhecendo na linguagem «o mistério que define o homem».
Entre o brilhantismo e a erudição, Steiner disserta sobre as armadilhas que a escrita moderna colocou a si própria, permitindo que o silêncio se impusesse como a nova linguagem. E deixa um alerta com laivos de poesia: «Se o silêncio acabasse por chegar de novo a uma civilização em ruínas, seria um silêncio duplo, clamoroso e desesperado pela recordação da Palavra.» Steiner tem (o dom d)a palavra.
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