“O Nomear e a Necessidade” | Saul Kripke

“O Nomear e a Necessidade” | Saul Kripke

Filosofia críptica mas destemida

Com edição da Gradiva, “O Nomear e a Necessidade”, da autoria de Saul Kripke e obra de referência da filosofia contemporânea, chegou, finalmente, aos escaparates, numa tradução fidedigna, do Prof. Ricardo Santos (Universidade de Évora) e Teresa Filipe.

20 anos tinha Saul Kripke (nascido em 1940,em Long Island, Nova Iorque) quando publicou as suas primeiras obras sobre semântica na lógica modal e outras lógicas relacionadas. Quando, em 1972 e 1980, publicou “O Nomear e a Necessidade” a partir das conferências que proferiu, sem qualquer suporte escrito, na Universidade de Princeton, já tinha (e assim se manteve até hoje) o seu nome indelevelmente cunhado no campo da filosofia analítica, que se dedica, primeiramente, ao uso da linguagem no emprego de conceitos e na referência aos sujeitos.

O impacto dessas palestras repercutiu-se, sobretudo, na metafísica (fortemente impulsionada pelas teorias de Kripke), na filosofia da linguagem, na filosofia da mente e, por consequência, na epistemologia. Nada é sagrado para este filósofo que desafiou, destemido, ideias de Kant tão arreigadas como a de que todas as verdades a priori são necessárias e de que todas as verdades a posteriori são contingentes, indo, no entanto, reabilitar e re-argumentar teorias aristotélicas.

Nas duas primeiras conferências, Kripke ataca as teorias descritivistas dos nomes próprios (ou naturais) defendidas, por exemplo, por algumas leituras possíveis de Gottlob Frege e Bertrand Russell (a “concepção de Frege-Russell”, nas palavras do próprio Kripke), “segundo as quais cada nome próprio está estreitamente associado a uma descrição do objecto nomeado”. Um dos argumentos que, segundo Kripke, demonstram a sua impossibilidade é o argumento modal, que defende que a referência de um nome próprio se conserva, ainda que descrições como “o autor da Metafísica”, normalmente associada ao nome “Aristóteles”, se revelassem falsas a respeito de Aristóteles (caso descobríssemos que o autor da “Metafísica” foi um aluno brilhante de Aristóteles), ainda assim o nome “Aristóteles” referir-se-ia a Aristóteles e não a quem quer que fosse que tivesse escrito a “Metafísica”. Na terminologia de Kripke, “Aristóteles” é um designador rígido, isto é, um que designa o mesmo objecto em todos os mundos possíveis, o que prova, para o autor, que ainda que nomes próprios sejam associados a descrições pelos falantes, as mesmas não têm nenhum papel a desempenhar na contribuição do nome à proposição expressa pela frase em que o nome figura.

Em substituição às teorias descritivas da referência, Kripke propõe o que por vezes se denomina teoria da cadeia histórica da referência. De acordo com essa teoria – ou, como Kripke prefere chamar em “O Nomear e a Necessidade”, “imagem” (picture) -, um nome refere-se a um objecto segundo as conexões que os actuais usuários do nome herdam daqueles que baptizaram o objecto.

Confuso? Não se admire nem se sinta diminuído ou à beira de uma doença degenerativa. O facto é que “O Nomear e a Necessidade” consiste numa obra críptica para quem não foi iniciado nos nos “mistérios e ensinamentos” profundamente académicos da lógica e da filosofia analítica.



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