Literatura com Música no Porto

Lançamento de “Pequenas Estórias Sem Importância” de Pedro Serrazina & Concerto de apresentação de “Masquerade” de The Legendary Tiger Man.

Teatro Campo Alegre, 6 de Julho 2006 – 22 horas

Em 1995 Pedro Serrazina apresentava pela primeira vez ao público português a curta-metragem de animação “Estória do Gato e da Lua”, no Festival Cinenima, tendo tido uma reacção de tal modo entusiástica que o cineasta acabou por se refugiar no conforto do seu quarto de hotel com mais dois ou três amigos, com quais esteve à conversa durante toda a noite. Um desses amigos foi Fernando Galrito que, cerca de dez anos mais tarde, se viu encarregue de apresentar a uma plateia completa o novíssimo livro de Serrazina, “Pequenas Estórias Sem Importância”, contando esse pequeno episódio. Arquitectado em jeito de conversa, o lançamento deste livro acabou por constituir um pretexto para a revisão da obra cinematográfica de Serrazina e também para uma interessante interpretação de Galrito e do próprio autor em torno dos traços da sua vida e da sua personalidade nos seus desenhos (quer em filme, quer agora em livro).

Esta foi uma conversa sobre a vida – a do cineasta e as “coisas da vida” –, as viagens, as amizades, a arquitectura, a noite, os gatos e a lua. Os tópicos que iam surgindo e entrecruzando-se ao sabor do visionamento, num grande ecrã, de alguns dos desenhos presentes no livro, bem como das curtas-metragens de Serrazina. Houve assim oportunidade para rever “Estória do Gato e da Lua”, “Gatophone” (amos de 95), “One Minute About My Life” e “Moscow” (ambos de 1997), “Within” (98) e ainda um brevíssimo trailer daquele que será o seu próximo filme – cujo título provisório é “Olhos do Farol”.

Ao longo de cerca de uma hora, Pedro Serrazina partilhou com aqueles que se dirigiram ao Teatro Campo Alegre alguns dos seus processos de trabalho – nomeadamente a sua incessante busca pela experimentação de novos formatos em cinema de animação –, realçando o contraste entre este “Pequenas Estórias Sem Importância”, que reúne uma série de desenhos que o autor foi reunindo ao longo do tempo, de um modo descontinuado, resultando de criações intuitivas, despoletadas por uma série de acontecimentos (alguns desses episódios foram, de resto, aqui recordados), e a morosidade e planificação que a realização de um filme de animação exige.

Recusando uma postura artisticamente dogmática, Serrazina assumiu como fundamental na sua obra a liberdade do desenho e da experimentação de novos materiais, num sentido de descoberta que, nem sempre sendo confortável, acaba por valorizar o processo de criação artística mais do que o produto final em si. Neste sentido, também não é enquanto objecto artisticamente perfeito e acabado que “Pequenas Histórias Sem Importância” ganha relevo para Serrazina, mas enquanto espaço de liberdade para a exploração de outro tipo de desenho e argumento, que não o que habitualmente desenvolve na área do cinema de animação.

Na segunda parte do espectáculo pôde-se assistir apresentação do terceiro e mais recente álbum de The Legendary Tiger Man, “Masquerade”. Utilizando uma vez mais as potencialidades do ecrã colocado no palco, o “one-man show” de Paulo Furtado decidiu projectar as curtas-metragens que acompanharam alguns dos seus temas mais recentes. Se esta opção estética era razoavelmente previsível, uma vez que este novo trabalho inclui um DVD com estes clips musicais, a verdade é que tal permitiu estabelecer uma ligação de continuidade entre a apresentação de Pedro Serrazina e este concerto – para além de ambos serem já velhos conhecidos e terem uma série de amigos em comum, como ambos realçaram. Logo a abrir o concerto, Furtado deixou mesmo no ar o seu desejo de vir a colaborar com Serrazina no futuro.

Numa performance intensa de cerca de uma hora, The Legendary Tiger Man centrou-se sobretudo nas canções do seu mais recente álbum – aquelas que possuíam vídeo a acompanhar a canção –, recuperando ainda alguns temas mais antigos, como «Naked Blues» ou «Love Train». A aposta neste novo formato de concerto, aliando a música e o vídeo, vem “refrescar” o concerto de Tiger Man, introduzindo uma nova dinâmica num “one man show” estilisticamente muito marcado por uma sonoridade blues – o que por vezes acaba por se tornar algo cansativo.

Por outro lado, estas curtas-metragens, realizadas por diversos cineastas portugueses (Pedro Maia, Dário Oliveira, Paulo Abreu, etc.), acabam por evidenciar uma interessante diversidade estética e temática entre si, ora complementando a canção “strito sensu” – assemelhando-se à ideia mais convencional de um video-clip musical, contando com a participação do próprio Furtado –, ora partindo da base musical para a exploração de outros caminhos, muitas vezes com resultados interessantes. Tal foi o que aconteceu com «Let Me Give It To You», um dos momentos altos da noite, com o público a revelar algum entusiasmo suplementar. Para tal parece-nos que terá contribuído a curta-metragem da autoria de Edgar Pêra, em que se conjugam, em jeito algo provocatório, imagens em película Super 8 das cerimónias fúnebres do Papa João Paulo II e de Álvaro Cunhal.

O concerto de The Legendary Tiger Man acabou, contudo, por ser algo prejudicado por uma má definição do som de sala, bem como um certo desconhecimento do público do repertório de Furtado – a grande maioria pareceu estar ali sobretudo motivado pelo lançamento do livro de Serrazina, integrado nas já famosas “Quintas de Leitura” do Teatro Campo Alegre –, levando a que nem sempre a sua reacção fosse tão entusiástica como o artista desejaria, muito embora tenha sido sempre razoavelmente positiva.



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