“Ladivine” de Marie NDiaye
Flores obscuras
O primeiro contacto com o universo literário de Marie Ndiaye, no caso através de A Vingança é Minha, deixava antever um caminho de pedras no feminino, com a exposição emocional e física da mulher no centro de um turbilhão social marcado pela discriminação e várias camadas de culpa que teimam em enraizar-se e colar-se à pele.
Também por isso, a vontade de conhecer mais da obra da francesa, cujo nome já está inscrito entre os finalistas do Booker Prize e do International Dublin Literary Award, ou como vencedora do Prémio Goncourt, foi plenamente satisfeita com a publicação de Ladivine (Alfaguara, 2025), livro que figura com grande mérito entre os mais interessantes e inquietantes de 2025.
Narrativa que consolida a reputação da autora como expoente na arte de refletir sobre a ambiguidade psicológica, mediante uma escrita densa que, simultaneamente, revela e oculta, Ladivine é uma viagem pela vida de três mulheres, três flores obscuras, que partilham o sangue e a amarga herança da inquietação.
Uma dessas mulheres é Clarisse Rivière, ser de vida aparentemente banal, casada, com uma filha adolescente, mas cuja identidade se pauta por uma fratura profunda. Na verdade, chama-se Malinka e mantém uma relação secreta com a mãe, Ladivine Sylla, uma mulher pobre, solitária, imigrante, que vive numa periferia francesa.
A relação entre ambas tem um ritual mensal de uma vista à terça-feira, que resulta de Clarrisse estar refém da vergonha social, do desejo de ascensão e da recusa de um passado que especialmente sente quando visita a mãe às escondidas, como se essa relação fosse um erro a corrigir e não um laço escolhido.
Por sua vez, Ladivine Sylla, a mãe, é uma personagem comovente. Mulher silenciosa, resignada, quase apagada, representa tudo aquilo que Clarisse tenta negar: a origem, a marginalidade, a exclusão social e racial. A sua presença, embora discreta, paira sobre toda a narrativa como uma ausência constante, uma figura cuja existência molda silenciosamente as escolhas da filha, que aceita entre dor e lágrimas, mais ou menos escondidas ou reveladas, edificada por uma humanidade contida, feita de pequenos gestos e de uma dignidade silenciosa.

Na terceira ponta deste triângulo familiar está Ladivine Rivière, filha de Clarisse, que herda não apenas o nome da avó, mas um fado marcado por lacunas, silêncios e uma estranha sensação de desenraizamento, apesar de manter uma família nuclear com marido e filhos. Isso talvez resulte do facto de ter crescido sem saber a verdade sobre a família materna, com esse vazio a tornar-se uma força estruturante da sua identidade.
Essa passagem entre gerações é o motor de uma dimensão (quase) trágica, onde os segredos não desaparecem, transformam-se, atravessam o tempo e reaparecem sob a forma de dor.
E enquanto a narrativa evolui de forma fragmentada e elíptica – onde o discurso direto é muitas vezes preterido face a reflexões e perguntas interiores que não implicam respostas claras, e em que os personagens deambulam entre viagens interiores marcadas por relações desgastadas, separações mal resolvidas, amores esfarrapados pelo tempo e até um homicídio – o tudo ou o nada podem ser formas de redenção.
Assim, ao longo das páginas, o quotidiano mistura-se com episódios de estranheza, ameaça e desconforto, dando lugar a relações violentas, encontros perturbadores e uma morte inesperada, obedecendo a uma “lógica” interna que o leitor apenas pode intuir, sendo as memórias e os traumas elementos que conferem essa coerência.
Ainda que nada seja explicitamente “sobrenatural”, a vida destas três mulheres, destas três gerações, parece sempre deslocada, como se habitassem um mundo onde as regras emocionais são instáveis e os afetos nunca se revelam por inteiro, seja por opção ou medo de sentir.
O castigo que daí resulta leva à negação das origens, a um “autoapagamento”, que sublinha fragilidades cortantes e uma realudade onde não há verdades unas ou absolutas. Há, sim, o peso do silêncio, da incerteza, da frustração, da humanidade.
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