“O último a sair” de Mário Zambujal
Contos de um bom teimoso
São várias as gerações que cresceram a ver/ler/ouvir Mário Zambujal, o jornalista, na televisão, nos jornais, na rádio. Mas, além da pessoa que recebeu o Prémio Gazeta de Mérito, está também o escritor, autor de livros icónicos como Crónica dos bons malandros, livro de estreia no já longínquo ano de 1980, entre muitos outros.
Assumidamente um “desalinhado”, Zambujal criou um estilo onde o humor negro se mistura com crónica de costumes, e onde o universo do policial, principalmente esse, era dialeto de livros que nasciam daquilo que melhor sabe fazer: observar as pessoas comuns, reter as pequenas manias, estudar as frases ditas a meio, aplicar silêncios carregados de sentido, transformando-os em peças literárias sem grandes pretensões, mas com a sábia capacidade de entreter enquanto faz com que olhemos para dentro.
Esses traços continuam, e muito, vivos em O último a sair (Clube do Autor, 2025), título escrito aos 90 anos e que, por si, já parece aviso e metáfora, para uma ideia de abandono ou de se estar só no mundo, seja isso uma novela policial em 11 capítulos em que o mistério se funde com um reencontro amoroso sinónimo de combate, em que no ringue estão, encostados às cordas, Lídia, psicóloga, e Rodrigo, chefe de polícia na reforma.
A trama, pomposa e gaiteira, começa após a morte estranha de um amigo do casal Lídia-Rodrigo que os faz querer encontrar o culpado, nem que para isso tenham de ir até ao fim de uma viagem que nos transporta para um Portugal que vai ficando para trás devagar, sem grandes ruturas ou remorsos, ainda que deixe transparecer cansaço. E entre desconfianças, certezas e conversas que ficam por dizer, há personagens que parecem sempre atrasadas relativamente ao tempo em que vivem, não por distração, mas porque nunca tiveram grande pressa.
O caminho até conhecer o veredicto é feito de pequenos acidentes e revelações sublinhados por frases curtas, humor nos limites, observações certeiras. Com isso, Zambujal rejeita tentativas de moralizar ou dramatizar em excesso, limitando-se a mostrar, a abrir o livro.

É nessa aparente simplicidade que o livro ganha força, tal como nos habituou nas suas outras obras, valendo-se de uma doce teimosia e discreta melancolia, quase envergonhada, como se o autor soubesse que rir, e fazer sorrir, continua a ser a melhor forma de falar sobre assuntos sérios sem levantar a voz.
No fundo, O último a sair é mais um episódio do quotidiano e uma forma de olhar para o nosso reflexo. E sem promessas de (re)ver uma cara bonita, ao ler este livro olhamos para um Portugal que reconhecemos, um país das conversas interrompidas, das promessas que ficam por cumprir, das relações cheias de subentendidos. Nada de épico ou grandioso. Só vida, como ela é.
Com O último a sair não há tentativas de reinvenção, nem isso é necessário. É um livro de maturidade, escrito por alguém que conhece bem o seu território e não sente necessidade de o explicar, aconselhado a quem procura uma leitura rápida, inteligente e com humor sem muitos artifícios, mas que fica a ecoar.
Como bónus, no final do livro temos Conto final parágrafo, nas versões datilografada e “original”, que acrescenta uma página ao conhecimento da obra de Mário Zambujal.
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