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Uma aventura no caminho perdido…

Em japonês, "michi" quer dizer caminho. "É nesse caminho que me encontro", atira a dada altura. Num caminho perdido que dá nome ao projecto. Levamos Natália Rodrigues, um dos dois elementos dos Lost Michi, numa viagem pela sua música. E ela conta-nos como a música vai muito para além da voz.

Os amigos acham que em Portugal nunca chove e o céu nunca está encoberto (cá está um daqueles mitos que temos que desmentir, e já!). Os amigos músicos querem, talvez por isso, tocar em Portugal; dizem, além disso, que, aqui, o público bate palmas, que salta, que canta, que mostra o agrado ou desagrado (e muitas vezes mostra outras coisas que mereciam apenas estar bem escondidas). Mas os amigos dos amigos dos amigos não suspeitam, contudo, que ela é portuguesa – e quando descobrem, “ai, jesus!”, fazem um esgar de estranheza. Os olhos marcadamante rasgados e a voz cavernosa num inglês perfeito fazem com que todos arrisquem uma ou outra nacionalidade mas esgotem rapidamente as possibilidades.

Natália Rodrigues, quase 30 anos de idade, chega embrulhada num casaco que, lá fora, sem sol, faz frio. E quase chove. Ela é um dos dois elementos do projecto musical Lost Michi. Marcamos encontro numa quinta-feira, manhã ainda, ressaca de uma noite de ensaio aberto no espaço da Circolando, no Porto (o mesmo é dizer, CACE Cultural, antiga central eléctrica do Freixo). Um cachecol a envolver o pescoço, o EP na minha mão com quatro temas-amostra que quer alargar em breve a “um álbum, em 2010 ou 2011”. Chegou de boleia, que a família está em Viana do Castelo, que ainda vai passar por lá antes de voltar ao sul de França, onde reside – “Toulousse é uma base calma, um ponto de partida para outros lugares, onde o tempo passa mais devagar, ode existe espaço e tempo para trabalhar”, resume. Mas França será, alvitramos, um mero ponto de passagem, e ela parece confirmar o que pensamos: “Artisticamente, França não me estimula muito, lá sinto-me menos inspirada a nível musical”. Convido-a a sentar, já que esta será uma viagem por Porto, Bruxelas, Dublin, Grã Bretanha, França, Viana do Castelo… Com um início definido mas nunca com um fim anunciado. O cd-amostra está no leitor, proponho que falemos enquanto ouvimos os temas. Um a um. São quatro, no total. Arrisco um primeiro.

“Man and the World”, batidas misteriosas, voz arrastada, paisagens sombrias no horizonte…

Lost Michi. “Este tema, escrito por mim, surgiu de uma realidade muito presente em Bruxelas, onde vivi”, uma espécie de tributo a todos aqueles que lutam por um mundo melhor. “Há lá um termo, engaggé, muito bom para explicar o que quero dizer. Toda a gente está muito activa nas lutas sociais, para o que se passa no mundo. Esta música aparece assim, de me aperceber dessa realidade”. Seguimos. Lost Michi: “Este é um projecto que vai muito para além da música”, atira Natália, “tem uma imagética e ambiência específicas”. Assim começamos. “(Lost Michi) tem a ver com a imagem visual, com vídeo e posteriomente com performance” daquilo que ela entende ser a sua realidade. O projecto surgiu da necessidade de um certo isolamento, corria o ano de 2007. “Já antes tinha experimentado grupos musicais, mas precisava de trabalhar, a nível vocal, coisas que não podia trabalhar num projecto com muitas pessoas”, refere Natália, destacando que trabalha com “loops de voz em tempo real”, o que tornaria a coisa insuportavel se feita em grupo. E se falamos de voz fazemos uma pausa. No leitor segue…

….

“Esta voz já nasceu comigo”, ri Natália, uma voz profunda, na linha dos grandes nomes do jazz e blues. Admite nunca ter frequentado aulas de formação musical – prova provada de que a formação nem sempre é o mais importante. “Fiz o curso de Belas-Artes (na Universidade do Porto) e a base dos meus trabalhos sempre foi a voz”. Trabalhou múltiplas vozes, uma interacção entre a voz e a imagem. A voz, sempre a voz. “A voz sempre foi para mim um instrumento artístico. É o que está mais presente, era o que tinha – e tenho – interesse em explorar”. Mudamos para…

“Hiker”, ritmos hipnóticos, loops de voz, sobreposição de sons…

“Cá está”. A exploração da voz em pouco mais de três minutos.

(segue a música…)

Começamos a viagem, deixamos o Porto, e Bruxelas, como é? “Bélgica é uma boa surpresa. Fui pelo programa Erasmus, queria primeiramente fotografia, mas a verdade é que a música está em todo o lado”. E se não acreditam, esperem até lerem isto: “Podes ver concertos todas as noites, de borla, é uma cidade multicultural”, uma cidade “muito mais aberta e europeia” que Porto ou Lisboa.

(silêncio)

“Grandmother Sorrow”, piano ameaçador, voz catalisadora de sensações e emoções várias…

Recuamos ao início dos Lost Michi. “O primeiro concerto foi numa das eliminatórias do (festival) Termómetro”, uma abertura feliz para um roteiro “curto” pelas FNAC’s, acrescentarm ainda um ou noutro espaço na cidade do Porto. “Mas gostávamos de tocar mais vezes em Portugal, até porque a ligação com o país é grande”, admite. O concerto deles, visual, funciona em qualquer sala, com predilecção “por espaços mais intímos”, que permita uma interacção entre os dois músicos, Natália e Eddie Stacchini, “um músico muito talentoso que trabalha na mesma direcção”, descreve Natália.

Seguimos viagem. Dublin foi outra das cidades por onde passou, um ambiente dominado “pelos singersongwriters, mas onde a banda tem que pagar o espaço para actuar”. Ao lado. “Já tocamos em Inglaterra, em Bristol, e aí a reacção do público é muito diferente. É excelente”. Talvez essa seja a justificação para voltarem lá este ano, onde voltarão a tocar.

“Altro”, voz grave misturada com sons a cappela, uma montanha de neve ao fundo…

Natália gostava de gravar com Ben Harper. Com o projecto My Brightest Diamond. Mas o futuro é ainda incerto. No entanto, de uma coisa ela tem a certeza. “Não, para já voltar para Portugal não é uma meta”. E sabe ainda que gostava de fazer deste projecto o seu trabalho a tempo inteiro. “No fundo, queremos o que todas as bandas querem, queremos levar o projecto ainda mais longe.Acho que nunca devemos estar satisfeitos com aquilo que temos”. Ela não está satisfeita. E por isso gosta de se refugiar na bucólica Toulousse, com a sua guitarra, a compor mais e mais e mais.



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