Mark Stewart | “The Politics Of Envy”

Mark Stewart | “The Politics Of Envy”

O terror do inexplicável

Entre as múltiplas teses sobre o que se deve e não se deve fazer em narrativas de terror, existe uma que afirma que um conto/filme/seja o que for é mais eficaz quanto mais vago for; a partir do momento em que o terror é explicado, seja por via sobrenatural ou científica, é também desarmado, estripado do seu poder mais primordial.

É uma tese que funciona bastante bem para explicar “The Politics Of Envy”, o novo álbum de Mark Stewart, ex-membro dos lendários The Pop Group e pioneiro nestas coisas do soturno e do industrial. Quanto mais abstracta é a sensação de desconforto presente no álbum, mais eficaz fica – e nas ocasiões em que Stewart explica de forma directa o que o está a apoquentar, a atmosfera desvanece.

Por isso mesmo, «Baby Burgeois» é o pior momento do álbum. Músicas sobre vendidos e label whores são sempre embaraçosas (excepção feita para «So You Want To Be A Rock & Roll Star» dos Byrds, talvez porque pelo meio das críticas nota-se o medo de estar a participar no mesmo sistema), mas mesmo dentro desse sub-género pouco interessante, «Baby Burgeois» destaca-se pela negativa. Convenhamos: a indústria musical está a morrer, e quem ainda reúne raiva contra os seus colaboradores está numa missão verdadeiramente quixótica. Ao mesmo tempo, a forma como a roupagem musical faz a ponte entre o EBM e o Eurodance convida a acusações de narcicismo das pequenas diferenças. Poderá ser intencional (importa?).

Na mesma linha, «Gang War» é um misto de industrial e toasting jamaicano sobre os problemas do mundo de hoje; o capitalismo, o imperialismo e assim. Claro que concordo com a mensagem geral que Stewart transmite, mas o tom didático da faixa (“if you’re not busy buying/you’re busy being sold”) torna o sermão insuportável.

Muito melhor são músicas como «Apocalypse Hotel», que poderá bem ser uma metáfora para algo mais concreto mas que funciona na perfeição se tomarmos a sua poesia impressionista à letra. Louvável também que, apesar deste álbum ser claramente Gótico com “g” grande, mais gótico do que um flyer do Heaven’s (referência local, referência local), consegue ser bastante ecléctico dentro dessas medidas: reina uma electrónica soturna, mas há espaço para rockalhadas enérgicas como «Autonomia» (com Bobby Gillespie dos Primal Scream) e, em «Want», uma influência Dubstep, surpreendente, mas que acaba por fazer todo o sentido.



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