Marlon Williams, “Make Way for Love”

Marlon Williams | “Make Way for Love”

Marlon Williams é um músico neozelandês que lançou em Janeiro o seu segundo longa duração (após trabalho homónimo) e poder-se-á dizer que muito abençoado terá sido o desgosto amoroso que lhe deu origem.

Não é nenhum segredo que foi dolorosa a separação da também cantora e neozelandesa Aldous Harding, Marlon fala sobre isso em praticamente todas as entrevistas que tem dado em tempos recentes. De repente, havia uma necessidade premente de fazer um álbum, que aconteceu em 2016 mas só viu agora a luz do dia, tendo sido precisamente o dueto com Aldous o primeiro single a ser divulgado (ainda em Novembro de 2017).

“Make Way for Love” é uma brilhante surpresa de música e sentimentos, quase é possível cair dentro da voz de Marlon. Afasta-se um pouco do country do primeiro álbum e das participações anteriores com a banda The Yarra Benders, que ainda tocam consigo, é o resultado do coração partido, do crooner que chora em ressaca amorosa por aí pelas festas da terra à procura de consolo, muito honesto e ingénuo, quase como um rapazinho e o seu primeiro amor.

Marlon é muito mais que um músico, é um homem sem idade preso num corpo jovem, a música que faz não é de agora mas também não se relaciona totalmente com o passado, é possível que o tempo tenha criado uma bolha só para ele e para a sua música. No entanto, as suas referências musicais na adolescência remetem para os Beattles e Elvis e uma parte dessas influências parecem encontrar-se naturalmente incorporadas agora, sem que com isso se queira comparar ou retirar a originalidade ao músico. No tema que dá título ao álbum, a última faixa, “Make Way for Love” essas influências parecem mais marcadas e vê-se Marlon a cantar no salão de baile nos anos 50 mas, ao mesmo tempo, os coros transportam-nos para o ambiente retro futurista de Twin Peaks, numa mistura divinal.

Oscilando entre um quase histerismo infantil e uma maturidade irreal, assustadora de tão intensa, em “Make Way For Love” Marlon traz de volta o espírito de Brenda Lee ou Patsy Cline, talvez noutra vida tenha sido uma delas. Escondido atrás das histórias alheias no seu primeiro álbum, aqui Marlon despe-se por completo e as histórias têm-no como protagonista, numa sonoridade criativa mas simples e que vive muito da personalidade vocal de Marlon e da genuinidade das suas composições. O bluegrass e o country cuja simplicidade tanto o atraem ainda pululam aqui mas diluídos numa sonoridade mais personalizada e responsável (no sentido de clamar para si o próprio espaço e voz). Abraça Elvis sem pudor, às vezes soa a Anohni, outras um pouco de Lloyd Cole ou Morrissey, só para se ter uma ideia dos caminhos sonoros percorridos por Marlon, qualquer comparação será apenas para referência e idenficação aproximada.

Juntou-se novamente ao produtor Noah Georgeson para gravar o disco no Estados Unidos, nome associado aos trabalhos de Cate Lebon, Devendra Banhart, Joanna Newsom ou Rodrigo Amarante, entre outros, e vencedor de um Grammy, e juntou-se também a nomes seus conhecidos, tal como a sua banda Yarra Benders. Apesar de Marlon referir variadas vezes que não tem um padrão ou lógica no seu modo de produzir música, esse processo caótico está bem contido em “Make Way for Love” ou mesmo ausente, é um álbum sólido e coeso mas, ao mesmo tempo, despido, quente, sem flitros (filtros esses que se notam no primeiro trabalho, bem mais distante e frio, apesar de repleto de grandes faixas). O mesmo homem que não escrevia nada há mais de um ano, em perto de um mês já tinha 16 músicas prontas para gravar, dando parcialmente origem ao novo trabalho de originais.

“Make Way for Love” é um album todo feito de amor-ódio e das contradições que esses sentimentos geram. Clamar que se abram alas para o amor parece bastante irónico, tendo em conta o conteúdo que o contradiz em vários momentos – ou talvez a intenção seja a de o chamar para a nova vida pós-apocalíptica. Quando perto do final, em «Nobody Gets Waht They Want», Marlon retira das entranhas o lamento de quem não sabe o que vai fazer a seguir, precisamente no dueto com a sua ex-amada, é difícil conter as emoções. Um dueto a que Aldous acedeu mesmo sabendo que se tratava de uma declaração de intenções que não podia ser transmitida através de meras palavras – percebe-se a perfeição do casamento entre ambas as vozes, com Aldous Harding retirada do seu fogo alucinado mais recente, quase próxima de Nico. Em «Beautiful Dress», Marlon já tinha avisado que The hard thing about love/Is that it has to burn all the time, quando chegamos a «Love is a Terrible Thing» Marlon só quer ser atingido em cheio pela bala que lhe passou de raspão. Ouvir “Make Way for  Love” é ser atingido em cheio por uma belíssima bala de prata, cheia de romantismo e dor, não é possível sair-se ileso disto.



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