“Mary Shelley” | Cathy Bernheim

“Mary Shelley” | Cathy Bernheim

Uma vida entre o fulgor e a fragilidade, atravessada pela morte

Com apenas 18 primaveras, Mary Shelley escreveu aquele que, a par de «Drácula», se viria a tornar num dos mais celebrados livros da literatura fantástica apresentando, como pano de fundo, o lado tortuoso do amor.

Em “Mary Shelley” (Antígona, 2014), a escritora e jornalista Cathy Bernheim traça o perfil de uma mulher de armas que, ao contrário do que se disse ao longo dos tempos, não encaixou no papel de esposa tímida, além de ter recebido – e criado – fontes alternativas de inspiração para lá das de Percy B. Shelley, o poeta com quem fugiu de casa, ou da amizade vivida com Byron.

Toda a vida de Shelley foi atravessada pela experiência da morte: a sua mãe morreu onze dias após o seu parto; Mary deu à luz um filho que morreu onze dias após o parto; a sua irmã suicidou-se. Ainda assim, Mary rejeitou o suicídio – preferiu antes a fuga – e soube metamorfosear a tragédia criando “Frankenstein”, um ser vivo reconstruído a partir de cadáveres.

Será ao pai, figura taciturna e inacessível, que Shelley dedicará o livro. O pai terá sido, aliás, a grande inspiração para a personagem de Frankenstein, com doses iguais de sapiência e monstruosidade. É a ele que Mary ficará a dever o seu amor pelos livros, que desde muito cedo fizeram parte dos seus hábitos diários.

O livro parte da fuga do lar paterno, que escandalizou a sociedade do seu tempo, ao périplo pela Itália e à génese e recepção de “Frankenstein”, que terá sido concebido à beira do Lago de Genebra, na noite de 16 de Junho de 1816, na sequência de uma conversa entre Byron e Shelley, sido baptizado a partir do nome de dois heróis encontrados nas histórias góticas de Monk Lewis: o Frankheim de “Mistrust” e o Valkenstein do conto “Tales of Wonder”.

Publicado inicialmente em três volumes com o título “Frankenstein ou o Prometeu Moderno”, a obra veio a lume sem o nome da autora – algo corrente na época -, tendo o prefácio sido assinado por Mary Shelley. O êxito, esse, foi imediato.

Cathy Bernheim cruza de forma cativante a vida e a obra de Mary Shelley, recorrendo a fragmentos do seu diário, excertos de obras da autora e uma análise muito pessoal, revelando uma mulher cuja vida e a obra caminharam entre o fulgor e a fragilidade e que, com “Frankenstein”, criou uma figura atroz que serviu – e continua a servir – para nos mostrar que o mundo se encontra povoado de máscaras sorridentes que não escondem outra coisa que não o mal mais profundo.

O livro oferece ainda uma extensa e minuciosa cronologia, bem como um posfácio de Cathy Bernheim à edição portuguesa.



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