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Massive Attack @ Campo Pequeno

Lisboa, 21 de Novembro de 2009.

O dia tinha sido de chuva que, ao final tarde, parou. Um momento de tréguas que ameaçavam ser quebradas a qualquer momento. Pelo menos durante a abertura de portas e quando o concerto terminou a chuva não caiu. Se choveu durante esse tempo, desconheço. Pouco ou nada importa sabê-lo de qualquer forma. O que interessava encontrava-se no interior do Campo Pequeno, a salvo de qualquer dilúvio.

À entrada começavam a formar-se filas, aguardando a abertura das portas. Nas bilheteiras vendiam-se os poucos bilhetes que restavam e trocavam-se os vouchers. Activistas dos direitos dos animais levavam a cabo mais uma iniciativa contra as touradas que ali têm lugar.

A casa rapidamente se compôs. As clareiras que podiam ver na plateia rapidamente desapareceram. As bancadas seguiram o mesmo caminho, ao ponto de muitos verem o concerto sentados nos degraus.

Muitas vezes tenho o hábito de apenas referir quem faz a primeira parte de um concerto no final da prosa, quase em jeito de nota de rodapé. Umas vezes porque penso que o texto já vai longo, outras vezes porque pura e simplesmente não teve grande interesse. Neste caso vai ser diferente. Os próximos parágrafos vão falar sobre Martina Topley-Bird, porque esta o fez por merecer.

Martina Topley-Bird não é propriamente uma desconhecida. Tricky deu-nos a conhecer a sua voz em “Maxinquaye”. Entrou de mansinho em palco, pé ante pé. Não que parecesse estar nervosa. Parecia mais estar a apalpar terreno. Absorvendo as primeiras recções da plateia. Depois partiu para um bom concerto, que não se limitou a preparar a noite para os senhores que se seguiram.

Durante o tempo que esteve em palco, Martina Topley-Bird tornou-o seu. A ajudá-la estava apenas um elemento. Baterista, guitarrista, percussionista ou o que fosse necessário. Ao pé desta figura, completamente de preto, cara incluída (a palavra ninja passou-me pela cabeça logo que pisou o palco), o que estava à mão arriscava-se a tornar um instrumento musical. O principal instrumento de Martina era mesmo a sua voz, por vezes auxiliada por um sampler, que usava para sobrepor a sua voz, camada por camada. O seu concerto teve o condão de conseguir ser eclético sem que Martina visse a sua música perder identidade. A saída de palco decorreu sobre uma chuva de aplausos de um público, na sua maioria, à simpatia da inglesa.

Desde o primeiro momento que se tornou claro que os Massive Attack iriam apresentar um concerto com forte cariz político e social. Ao fundo do palco encontrava-se, a toda a largura deste, um painel repleto de leds, que, umas vezes pelo simples jogo de luzes, outra vezes pelas mensagens e imagens que apareciam, parecia ganhar vida e tornar-se mais um elemento em palco.

Foi impossível não reparar como as músicas iam sendo recebidas. Friamente (e com alguma indiferença) para temas novos. De forma quente, a roçar a ebulição nalguns casos, quando era interpretado um clássico (daqueles que provocam arrepios ao ouvir). Neste ponto foi por demais evidente a inteligência de Del Nadja e companhia na construção do alinhamento. Capaz de agradar a fãs de longa data e, simultaneamente, mostrar o que vem aí de novo (devo confessar que não ficou no ouvido, mas o melhor mesmo é não fazer juízos precipitados).

«Teardrop» surgiu com uma roupagem completamente distinta e interpretada de uma forma irrepreensível. No painel iam surgindo olhares. Olhares frios, vazios, cheios, sinceros, tristes ou espantados que nos fitavam.

Pelo ecrã passavam constantemente mensagens. No início foi uma lista infindável de drogas e medicamentos. Depois, e quase sempre em português, iam surgindo números que reflectiam injustiças sociais, tendo sempre por base de comparação o escândalo que abanou recentemente o parlamento inglês. Depois surgiram valores de artigos de luxo e, como cereja, valores do buraco financeiro deixado por alguns bancos norte-americanos.

Horace Andy continua um senhor «Angel» que arrepiou! Uma rápida pesquisa no You Tube e podem assistir ao momento. É daqueles difíceis de descrever por palavras. O final (antes do encore), ao som de «Inertia Creeps», foi épico. Com a batida forte e densa, acompanhadas por imagens de marcas e multinacionais. A mensagem tinha sido entregue.

Para o encore ficou reservada a «Unfinished Simpathy», cantada pela Debra Miller, com um registo vocal simplesmente fabuloso. O concerto chegou ao fim, com todos os intervenientes sobre o palco, agradecendo ao som de uma monumental chuva de aplausos.

O futuro dos Massive Attack pode permanecer ainda uma incógnita, que o tempo encarregar-se-á de definir. O seu legado, no entanto, continua claro e pleno de vida. Pelo menos aqui neste cantinho à beira-mar plantado. Os Massive Attack convivem muito bem com isso. Nós também.



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