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MaZela | Entrevista

A Rua de Baixo falou com MaZela, a propósito do seu EP, "Desgostos em Canções de Colo".

Mazela é o nome que a albiscastrense Maria Roque, escolheu para, em palco nos mostrar as suas canções. Composições que passaram por um longo período de maturação, num processo intrínseco à identidade da própria MaZela. Em 2024 tudo se materializou num EP com um nome que encaixa na perfeição. “Desgostos em Canções de Colo” é composto por cinco canções onde a guitarra clássica e a eléctrica divididem o protagonismo, e dão corpo a canções belas, rematadas pelas palavras que procuram lidar com o desgosto e a dor, ora aceitando-a, ora procurando formas de a diminuir.

Uma mazela pode ser uma ferida, uma fraqueza ou uma mancha moral. Quem é Mazela? Onde é que a artista se intercepta com a Maria Roque.

MaZela tem a particularidade de abarcar o significado de ‘ferida’ e, em simultâneo, a palavra ‘zela’, do verbo zelar, cuidar. Surge da minha necessidade de reconhecer feridas abertas e de cuidar delas, através de canções de colo, neste primeiro contacto com o público. De certa forma, este projeto tem-me permitido integrar estes opostos, que de uma perspetiva mais afastada, fazem parte do caminho de todos. Sendo assim, torna-se muito claro que MaZela é, de certa forma, um laboratório para as minhas vivências, enquanto Maria Roque, e trazem luz às vulnerabilidades que me acompanham.

Algumas das canções que dão corpo ao EP começaram a ser trabalhadas ainda em 2020. Fala-nos um pouco sobre este (longo) processo. O que te influenciou em termos musicais?

Algumas ainda datam anos anteriores, sendo que se começarmos a contar mesmo a partir do início, estas composições começaram há 6 anos. Fizeram parte de um caminho longo de formação da identidade de MaZela e das pessoas que a compõem. Os desgostos têm sido o primeiro passo de todas, e aquele que inspira uma letra ou uma melodia, que acabam por se tornar canção. Vejo neste processo um percurso de cura muito eficaz e é dessa forma que me tenho servido da música e que espero que ela possa servir outras pessoas, no sentido de lhes trazer paz e norte, como a mim me trouxeram naqueles momentos. Nesse sentido, a minha inspiração está no sentir e não consigo identificar influencias musicais, embora não as negue, uma vez que sou amante de música e que é algo que me acompanha diariamente.

2024 tem sido um ano de afirmação para ti. A vitória no Festival Termómetro, a passagem por palcos de dois dos maiores festivais de Verão, como é o caso do Alive! e do Paredes de Coura, a edição do “Desgostos em Canções de Colo” e, para rematar, uma tour para apresentar as bonitas canções que dão corpo ao EP. Olhando para estes já quase 365 dias, o que te passa pela cabeça?

A primeira coisa que me vem à cabeça e ao coração é gratidão. Tem sido um ano intenso, de muitas dúvidas, e muitas certezas também, de medos e descobertas, riscos e confortos. Temos recebido muito carinho e, acima de tudo, este projeto tem-nos proporcionado conhecer novos lugares e novas pessoas, que é o que de mais precioso levamos destes 365 dias.

«Entre Amor e Ódio» é uma canção magnífica. Um diálogo entre as cordas da guitarra clássica e da guitarra eléctrica, ligadas por palavras simples, mas que quando juntas conferem à canção profundidade e significado. O que te levou a compô-la?

Esta música tem duas versões, aquela que está publicada e uma anterior. É uma canção que nasceu de um lugar de muito amor, em forma de declaração aberta ao Alex, o meu companheiro e guitarrista/produtor em MaZela.  Quando percebi que queria mantê-la tão exclusiva quanto o meu coração sentia que era esta paixão, decidi reescrever os versos, como sempre, inspirada num desgosto, e daí nasceu a Entre Amor e Ódio. É a canção que, ao vivo, dedico ‘a todas as pessoas de quem discordo’, muito nesta onda da polarização que vivemos, e com o intuito de falar sobre o quão importante é não perder a curiosidade pelo diferente, a compaixão pelo erro e a empatia pelo outro. É uma canção sobre amor e raiva, sobre medo e moral, sobre empatia e a falta dela, que considero ser versátil e transversal a todos.

O que sentes quando estás em palco, a cantar estas canções?

Costumava ter como frase de apresentação: “Em quarto de lua,/ alma crescente,/ um palco preferido.”, como referência ao meu querido quarto, que é onde mais gosto de tocar e compor. Mas, tal como as pessoas, as canções também crescem, começam a precisar de espaço e de experiências que as permitam amadurecer e ganhar cicatrizes. A cada concerto, as canções ganham novos contornos e significados. Tenho vindo a domar o meu medo de palco com muita luta e tanto tempo quanto necessário, e nesse sentido, tenho me permitido crescer nas minhas canções.

2025 está aí à porta. O que podemos esperar?

2025 vai trazer mais concertos e novos lançamentos, um deles já se tem vindo a apresentar de surra em palco e que, ganhará finalmente a sua versão de estúdio. Vamos dedicar-nos à divulgação do Desgostos em Canções de Colo e, essencialmente, vamos procurar viver muito, porque é disso que vive a música e a criatividade, de amores, desamores e alguns murros no estômago.

“Desgostos em Canções de Colo” está disponíveis nas plataformas de streaming e em edição física no Bandcamp.



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