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Mel

A doce amargura da infância.

Com o espanhol “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice, de 1973, o turco “Mel”, de Semih Kaplanoğlu — Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado —, é um dos mais belos retratos da infância que o cinema nos deu. Veio-me à memória o filme de Erice também pela ligação dos títulos, se o “espírito de colmeia” desse filme tinha razões políticas, o mel destoutro é fruto do trabalho, é como o pai do pequeno Yusuf ganha a vida e a põe em risco.

Nos primeiros planos, muito fixos, Yakup, o pai de Yusuf, lança uma corda numa árvore, verifica se ficou bem presa, começa a subir para colocar lá em cima uma colmeia, mas o tronco onde está amarrada a corda quebra-se e fica literalmente suspenso entre a vida e a morte. Plano seguinte, está tudo bem: Yakup pede ao filho para ler o calendário antes de ir para a escola (e a leitura terá um papel importante no filme). Pensa-se que tudo não terá passado de um sonho. Não será assim.

“Mel” — que faz parte de uma trilogia que inclui “Ovo” e “Leite”, sobre a vida de Yusuf (em cronologia invertida, “Mel”, o último, é acerca da infância) — trata sobretudo da paixão do filho pelo pai. Um pai que lhe conta histórias de encantar, que lança a águia todos os dias para o guiar à escola, lhe faz pequenos brinquedos de madeira, do qual cada gesto é um mistério e uma lição. Esse encantamento extravasa para o filme, ou melhor, o filme sob a sua forma de realismo esconde a condição de conto infantil, ternurento e tenebroso na mesma medida.

Se o pai é o mel, a mãe é o copo de leite que Yusuf se recusa a beber (e o pai bebe por ele). Yusuf liga pouco à mãe, aos colegas da escola e aos trabalhos de casa, só tem olhos para o pai, quer à viva força ganhar uma medalha de leitura para lhe agradar, tem ciúmes quando dá a sua atenção a outro miúdo. E, de repente, a meio do filme, o pai desaparece. Ao espectador, voltam as imagens iniciais. Na vida das personagens, tudo muda. O mundo feminino toma conta da situação e Yusuf, no aconchego de uma árvore, chora os últimos momentos da infância.

Kaplanoğlu conta toda esta história (e muita ficou por contar por respeito ao espectador) com uma simplicidade de que só os grandes cineastas são capazes: a câmara elegante, a montagem sofisticada, as interpretações justíssimas, os sons vindos directamente das memórias de quando éramos pequenos. “Mel” é o primeiro grande filme do ano. Soberbo.



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