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“Pina” de Wim Wenders

Os sentimentos também dançam.

Wim Wenders – uma das figuras mais importantes do novo cinema alemão – conseguiu maravilhar qualquer um ao transportar para o grande ecrã (e ainda por cima em 3D) a magia do palco da dança-teatro tão particular e peculiar de Philippine “Pina” Bausch (1940-2009).

O filme “Pina”, que teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, é essencialmente um documentário que integra quatro vertentes que vão alternando ao longo do decorrer da acção: o trabalho de composição, o relacionamento pessoal entre a coreógrafa e os seus bailarinos (e não só), o legado intemporal e as saudades da própria Pina Bausch.

Desde o primeiro plano que o espectador é transportado para a cidade de Wuppertal, onde Pina viveu cerca de 36 anos e dirigiu a companhia Tanztheater Wuppertal. Também as declarações de Pina Bausch na primeira pessoa são um elemento arrepiante para quem escuta as suas palavras e sente na pele tudo o que é relatado.

Como o legado deixado por Pina é vasto e igualmente grandioso, Wim Wenders decidiu apenas apresentar quatro excertos: “A sagração da primavera” (1975), “Café Müller” (1978), “Vollmond” (2006) e “Kontakthof”.

Em “A Sagração da Primavera”, a partitura de Igor Stravinsky é ouvida em simultâneo com os ruídos do palco, os passos fortes dos bailarinos, o toque e as respirações. Os planos sequenciais transmitem ao espectador o movimento perfeito e rigoroso da experiência teatral e ao mesmo tempo a transparência das expressões que expõe e examina o ser humano enquanto ser frágil e apaixonado. Em “Café Müller”, por exemplo, o espectador tem a sensação de profundidade de campo (com um belíssimo efeito tridimensional) e consegue-se captar de forma soberba os detalhes de textura da pele, cabelos e o suor dos corpos.

“Kontaktof” é, de todas, a peça que mais se adapta a qualquer pessoa e a qualquer bailarino e apresenta-se no filme tal qual as três versões existentes: a original dançada pela companhia Tanztheater e inclusive pela própria Pina em 1978; a segunda versão foi feita com um grupo de pessoas de terceira idade no ano 2000; e em 2008 com estudantes entre 14 e 18 anos da qual resultou o documentário “Sonhos de dança” que estreou ao mesmo tempo que “Pina”. A montagem dos planos acaba por enfatizar a mudança entre cada uma das encenações, como por exemplo, um senhor que a meio de uma volta torna-se um adolescente.

Ao longo do filme são apresentadas: cenas filmadas dentro do teatro, como se estivéssemos a assistir ao próprio espectáculo (com cenário e guarda-roupa apropriados); depoimentos dos bailarinos e de outros artistas que sempre a acompanharam, onde através do grande plano o realizador foca o rosto e as reacções das suas palavras; material de arquivo e imagens de Pina em vida, ensaiando, coreografando, construindo uma nova história a partir de uma simples palavra – amor – que está presente em todas as suas obras.

O realizador acaba por conseguir o que desde o início foi o seu objectivo principal: tornar imortal o espectáculo e o legado de Pina, quer através do cinema, quer através da ultrapassagem de barreiras exploradas pelo próprio corpo em relação ao espaço do palco.

Por último, o grande destaque vai para o plano final do filme no qual surge um segmento do documentário realizado pelo português Fernando Lopes com Pina Bausch a dançar ao som de «Os Meus Olhos» (um fado de Germano Rocha).

Pina Bausch defendia que “a dança deve dar atenção aos sentimentos, desejos e dores” e é exactamente isso, nem mais nem menos, que Wim Wenders transmite a quem quer que vá assistir ao filme.

PINA – Dance, dance, otherwise we are lost – International Trailer from neueroadmovies on Vimeo.



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