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Meu Tio o Jaguar

Um monólogo a duas vozes ou um diálogo a uma só voz?

O palco é a sua casa. Uma casa pobre, onde não se adivinha tecto ou paredes. Apenas bancos feitos de troncos, fortes e secos. Há uma visita; vem de cavalo. Não se adivinha quem é. Nem sequer se é real ou imaginário. Mas durante cerca de duas horas este homem, que nos é tão estranho como próximo, conta a sua estória. Conta-a ao companheiro, real ou imaginário, mas também nos conta a nós. Olha-nos nos olhos, e diz-nos “eu vim para cá para matar onças… mas já não mato onças não”.

A peça foi um risco. Um risco por apresentar um “monólogo a duas vozes” (ou será um diálogo a uma só voz?) onde se conta a estória de um simples caçador de jaguares, adivinhando-se perto da floresta amazónica. Mas não há nada de simples na crua história do ser humano. E é isso que ouvimos da boca de José Artur Pestana, que encarna o caçador de onças-jaguar.

 

Começamos por ouvir um homem, acabamos por sentir o animal. A grande arma desta metamorfose é a solidão – essa força arrebatadora que leva o nosso estoriador para a fronteira entre a civilização humana e a natureza selvagem. Este dá-nos a conhecer a família que encontrou naquele mato, naquela selva – cada onça com uma história, cada onça com um parentesco… e o nosso protagonista junta-se à família que outrora caçara, passando a caçar outras presas, as presas do jaguar.

O belíssimo texto de João Guimarães Rosa transparece o Brasil tradicional – nas palavras de Jorge Listopad, “o Brasil fundamental”. O encenador afirma que passou mais de dez anos com o texto na cabeça (“porque nós temos amores durante muitos anos”), à procura de quem se aventurasse com ele. Considera Guimarães Rosa o melhor escritor brasileiro do século XX (“e um dos mais amados por mim – porque nós temos amores vários”), e foi em José Artur Pestana, que guardava o mesmo amor por Guimarães Rosa, que encontrou o seu aventureiro.

Meu Tio o Jaguar
14 de Junho a 1 de Julho
TNDMII | SALA ESTÚDIO
4ª a sábado. 21h15min | Domingo. 16h15min

Fotografia de Filipe Ferreira



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