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Quanto do teu sal são lágrimas?

“Deus me fez um cara fraco desdentado e feio”. Das maiores intempéries nascem obras lindíssimas que retratam inteligentemente a cara de um país. O Brasil, arraigado num mar de desigualdades, é terreno propício para o crescimento de uma cultura doída. “Do amor gritou-se o escândalo”.

Filhos da esperança. Essa expressão substantiva a nossa cultura cheia de cores e gestos. O Brasil, sem intenção de ufanar a minha bandeira, mas com fim de fazer uma análise crítica sobre o nosso povo, é palco de peças raras, de artistas formidáveis com expressões tão únicas, que fica bem difícil fazer algo novo por essas terras. Como inovar musicalmente ouvindo Cartola, Chico Buarque, Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Sergio Sampaio, Tom Zé e Hermeto Pascoal? Como criar novas cenas ao lado de Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira, Matheus Nachtergaele e Selton Mello. Como pixar os muros dos Gêmeos, redesenhar os modernos de Tarcila do Amaral, Lasar Segall e Anita Malfatti? Como traçar as mesmas linhas de Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Manoel de Barros? De onde vem essa efervecência multidisciplinar? As respostas talvez estejam em todos os lugares, mas creio fortemente que tais expressões surjam dos diversos abismos sociais que habitam este país. A forte presença da desigualdade cotidiana, apoiada por uma massa que ainda se deixa levar pelos besteróis enlatados, talvez seja a grande fomentadora desta forma de expressão criativa, emocionante e sincera.

Eu vou falar de desigualdade e isso também faz parte da cultura brasileira.

Estamos tão imersos num mundo de desencantos que nos esquecemos de olhar para as ruas de baixo de nosso dia-a-dia. Ainda há pouco, uma amiga voltou da Austrália dizendo os mesmos textos prontos sobre os países desenvolvidos: da ótima qualidade do ar, da falta de filas, da limpeza das ruas e do dinamismo dos transportes. Tudo bem para o texto decorado, mas por ser essa a primeira coisa que se diz ao voltar, vale a pena observar um pouco mais para o que encanta os olhos dos brasileiros no exterior. Esse desconforto diário acaba se tornando invisível, mas não é por se tornar invisível que deixa de ser agressivo para a nossa natureza. Quando voltamos para o Brasil, percebemos como faltam coisas básicas por aqui.

Para nós, o conceito de democracia ainda é recente. No século XIX, quando a corte real veio fugida das tropas do Napoleão, de colônia, instaurou-se a regência. Posteriormente surgiu o imperialismo que sobreviveu até 1889. De 1937 a 1945 Getúlio Vargas foi ditador e mais tarde, de 1964 a 1984, o exército mandou uma outra ditadura no país. Se for para colocar na ponta do lápis, não temos nem cem anos de democracia, o que para a história geopolítica é nada. A população brasileira viu-se arrastada durante muitos anos por uma onda egocêntrica, deixando-se levar sem entender o porquê de tantas desigualdades.

É em meio a isso que nascem artistas olhando para a história e sentindo uma incrível necessidade de expor suas agruras. Ouso fazer uma análise sobre as contradições e a arte: não será este, um terreno fértil para a construção da dialética e do senso crítico?  Será que na falta desse anacronismo social seríamos capazes de conceber tamanha singularidade? Se não for, como explicar o famosíssimo refrão de Luiz Gonzaga que diz “porque tamanha judiação?” ou de Gonzaguinha ratificando um “viver e não ter a vergonha de ser feliz”?

As mesmas hipóteses se apresentam nos famosos stand ups americanos em que piadas racistas e homofóbicas, deslizam das bocas de comediantes que levam a plateia ao delírio. Filmes como Shrek são símbolo do divertimento e do preconceito estético denunciado nas entrelinhas. A Europa, no período entre guerras, viu nascer um incrível Charlie Chaplin que satirizou as máquinas e os grandes ditadores com inteligência, amor e criatividade.  Essa atmosfera turbulenta, que dilacera tantas vidas, parece fomentar também expressões artísticas e, de certa maneira, relativiza o peso da história.

Não é só por uma questão de cultura boleira que o moleque cresce jogando futebol, mas porque na escola não anda lá essas coisas. Nascem daí pequenos gênios da bola e grandes ídolos mundiais. A mesma cena acontece na Argentina apesar da população ser mais politizada.

Diante deste levantamento, olhamos para as tragédias sociais com olhos furiosos ou benévolos? Não sei. Sei que esse jeitinho desajeitado de crescer no Brasil faz nascer também uma criatividade que é toda nossa: o que pode nos empolgar ou enfurecer. Como diz um poeta desconhecido, “talvez quando estivermos prontos estaremos também acabados”. Quem sabe seja melhor não desvendar esse segredo a fim de poder continuar admirando os Chicos, as Tarcilas, os Hermetos….



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