Mitski Be the Cowboy

Mitski | “Be the Cowboy”

Se a Mitski lesse com atenção todas as críticas que se escrevem sobre os seus álbuns, talvez percebesse que andamos todos a tentar perceber simplesmente o que faz com que ela seja um pequeno génio musical.

Quanto mais no embrenhamos nas entrevistas, nos vídeos explicativos e nas diversas teorias que proliferam como se se tratassem de mitos urbanos, menos sentimos saber ou perceber, por muito que a própria cantora afirme veementemente que tudo o que envolve o seu processo criativo é profundamente racional. É também profundamente humano tentar compreender e com Mitski a música quase parece sobre-humana, tanto que ao chegarmos ao seu quinto trabalho de estúdio, lançado há cerca de uma semana, “Be the Cowboy”, a cantora já se fartou de tanta atenção. Até nesse pormenor é deliciosa a contradição, dado que durante muito tempo Mitksi deu dezenas e dezenas de concertos em que cantava literalmente para ninguém e agora chega a considerar a atenção demasiado intensa.

O que é certo é que a curiosidade e fascínio que desperta no diversificado público que a segue de forma religiosa acabam por ser alimentados pelas contradições e, de certa forma, algumas das manias da cantora, o que é perfeitamente legítimo para alguém que é apenas um ser humano igual a tantos outros. Excepto que, neste caso, é um ser humano com uma capacidade criativa acima da média e que atinge em “Be the Cowboy” um estado de refinamento musical que faz com que a sua curta duração (cerca de 30 minutos, no total) nos deixe com aquela sensação gratificante de que tudo o que é bom acaba depressa. Se estivermos atentos aos seus anteriores álbuns, tendo em conta o seu ecletismo e variedade, poder-se-á ponderar que este LP não é um ponto de chegada mas apenas mais uma fase da vida da cantora que aos 27 anos agora já finalmente entende que o seu lugar no mundo só faz sentido na música. Um grande passo para alguém que nunca soube muito bem como se mover no frio mundo real mas que sente, ao mesmo tempo, grande atracção pela lei e ordem e pelas listas de tarefas, aparentando divertir-se a imaginar sob a forma de letras de tom quase cínico ou de amarga felicidade como seria ter uma vida estável em que pudesse estabelecer contacto com os humanos de forma fluida.

É que Mitski quer muito que lhe façamos companhia mas não pode ser muito próxima, sendo possível que a grande dificuldade em estabelecer fronteiras ou encontrar as palavras certas para a definir ou para enquadrar a sua música exerçam misticismo tal que nos deixem a todos um pouco toldados pelo fascínio. E as palavras certas acabam mesmo por se tornar escassas perante a mestria de Mitski, perita em criar frases que resumem toda uma vida dentro de ideias simples mas criadoras de intensa epifanias, como é o caso da excelente faixa “Nobody” em que a cantora declara que Vénus foi destruída pelo aquecimento global e se questiona se os habitantes do planeta também terão sido muito ambiciosos nos seus intentos. Para além de ter criado um corpo musical muito mais composto e harmonioso que nos seus anteriores trabalhos, conseguiu condensar em faixas curtas e intensas quase todas as suas melhores ideias e pensamentos sobre a vida em geral – quase como um impressionante manual de como reagir com humor às pedras do caminho. Se anteriormente parecia que Mitski apenas andava a destilar desordenadamente o seu talento, “Be the Cowboy” é o momento em que a cantora coloca a sua bandeira no planeta terra e declara que este é o seu domínio. É sensivelmente essa a ideia que está por detrás do título, o imaginar o que faria um homem branco dominante ao entrar numa sala e como tomaria as rédeas do seu destino. Mitski é esse homem branco aqui e coloca assim os pontos nos seus “i”, não nos “i” de outras pessoas, é esta a música que quer fazer e como quer fazer, na esperança que daqui a uns anos possa desligar-se por completo das obrigações que vêm com o facto de pertencer a uma editora, ter de vender álbuns, andar ciclicamente em tour e por aí adiante possam desaparecer da sua vida. Aliás, a cantora tem um plano em marcha para que isso aconteça e já escreve letras para outros cantores como forma de subsistência no futuro, estando subjacente a ideia de que os talentos podem não durar para sempre e é preciso pagar as contas independentemente do romantismo que circunda a carreira de músico. E Mitski é, como já assumiu, uma cantora de profissão, aquilo que faz faz com método e profissionalismo, não resulta de uma qualquer inspiração divina – talvez por isso lhe faça tanta confusão que as pessoas chorem com as suas músicas e lhe toquem nos concertos como se ela fosse uma deusa.

Alheios a tudo o que possa dizer sobre si e a sua música, o que é realmente certo é que o seu 5º trabalho de originais é um portento, mesmo sem sabermos se o que está por trás dele é magia ou não. Assim de repente, parece mesmo magia porque é perfeitamente possível e credível ouvir “Be the Cowboy” um dia completo, como nos aconteceu, e revisitá-lo depois continuamente durante uma ou mais semanas sem que se torne aborrecido ou que deixe de nos dar novidades sonoras ou novos sentimentos. Mitski encarna na perfeição todas as suas personas neste LP impressionante, aparentando conseguir recuperar tudo o que fez de extraordinário na sua vida do passado e juntar aqui esses elementos para criar a perfeição. O seu novo álbum de originais é a representação meio cínica meio sofrida de uma felicidade idealizada para outras pessoas, construído em cima de histórias que podem acontecer a qualquer um mas que na voz simultaneamente forte e frágil de Mitski podia com franqueza ser uma das suas desventuras enquanto vivia por esse mundo fora, subtraída e deslocada de uma vida social normal, sem amigos ou relacionamentos duradouros, como já confessou (sem tristeza ou ressentimento, só como facto). A beleza deste mundo misturado aparece plasmada também na capa, ainda antes de chegarmos à demonstração de força criativa e afirmação pessoal do título, onde Mitski aparece maquilhando-se como se pronta para fazer uma data de piscinas olímpicas. Um misto de força, ímpeto, humor, inteligência e bom gosto aprontando-se para se mostrar ao mundo e dar a conhecer este manifesto que é também uma maratona de esforço prazeroso.

“Be the Cowboy” está em riscos de se tornar no grande álbum deste ano que se tem mostrado um pouco morno em termos musicais e aqui corremos também o risco de o dizer porque nos sentimos mais audazes depois de ouvir Mitski. Cerca de uma semana passada do lançamento do álbum, a audácia ainda permanece e lentamente se transforma numa pequena grande certeza, tanto pela genialidade das letras como pelo facto de se ter juntado ao brilhantismo com que Mitski consegue criar melodias entre o pop e o indie rock clássico uma série de instrumentos que enriquecem o esqueleto brilhante deste trabalho. Sobressaem os instrumentos de sopro, as teclas a suspirar pelos idos anos 70 e 80 ou a grande percussão que explode a meio das faixas para nos deixar exaltados em pouco mais de 2 minutos e fazendo lembrar os clássicos recriados ao vivo com orquestra – assim Mitski já não precisa de estar tão solitária. É assim com “Geyser”, a brilhante faixa de abertura de “Be the Cowboy”, uma leve brisa amorosa de inspiração celta mas que é toda sentimento, tal como refere a própria Mitski – possivelmente contradizendo-se outra vez mas não importa.

Colocando de parte a sua grande necessidade de controlar o processo criativo do princípio ao fim, Mitski resolveu desta feita delegar no seu antigo colaborador Patrick Hyland mais tarefas, sendo que é habitualmente seu produtor e volta a sê-lo agora, bem como guitarrista. Sendo ou não essa a causa do facto de “Be the Cowboy” ter saído tão brilhante, o que interessa é que o é efectivamente e que apesar de o tom em que é cantado oscilar entre a nostalgia, a afirmação e o arrependimento, as letras prosseguem noutro sentido, reveladoras de verdades simples e directas. “Nobody” é um desses exemplos, criada num piano de brinquedo comprado em férias na Malásia (talvez o local que Mitski mais rapidamente poderá apelidar de casa, onde passou boa parte da sua infância) mas esse sentimento perpassa um pouco por todas as faixas, como “Old Friend”, que na forma é uma balada triste mas no interior tem esperança, como se fossem duas músicas fundidas numa só, criando uma montanha russa de sensações em pouco menos de 2 minutos. Dois minutos no planeta Mitski correspondem a anos na terra, é esse o sentimento quando olhamos para o tamanho de cada uma das faixas e percebemos porque é que ouvimos o mesmo álbum várias vezes seguidas: sabe sempre a pouco, quem dera que se prolongasse um pouco mais!

Parece inevitável que nos agarremos a “Be the Cowboy” com unhas e dentes, à semelhança do relacionamento tóxico de “Pearl” em que a personagem criada por Mitski profere que It’s just that I fell in love with a war/Nobody told me it ended e não é bem um não querer, é mais um não poder, uma inevitabilidade prática. As pérolas poéticas, essas, pululam um pouco por todo o álbum e surpreendem sempre mesmo que estejam envoltas em baladas próximas da folk e americana, como na faixa foguete “Lonesome Love” que do alto dos seus parcos 2 minutos de música declara com naturalidade ‘Cause nobody butters me up like you, and/Nobody fucks me like me e ficamos um bocado sem jeito a questionar afinal porque sofre de amor a personagem de Mitski quando ao mesmo tempo é tão auto-suficiente, acre e distante. E segue questionando os relacionamentos que duram para a vida em “Me and My Husband” dando-lhe uma forma musical jocosa, com base de piano de bar do tempo dos loucos anos 20, rouco, uma pitada de rock à antiga e sons de órgão Hammond romântico-kitsch a la anos 70 mas a pender para os 80. Poder-se-ia questionar igualmente como é que estas sonoridades podem casar e ficar bem mas, ao contrário do conteúdo inquisitivo-irónico da faixa mencionada, este é, de facto, um casamento perfeito que resulta numa das faixas mais criativas e vivazes do álbum And at least in this lifetime/We’re sticking together/Me and my husband.

As exigências emocionais específicas ecoam ao longo deste álbum mais rápido que a própria sombra e em “Nobody” Mitski declara, enquanto chora lágrimas de crocodilo que ela assevera terem sido verdadeiras (quem sabe?), que I don’t want your pity/I just want somebody near me e nem sequer precisa de falar, só existir com o disco sound em pano de fundo. Aqui, como no resto deste trabalho, independentemente das personagens criadas, estes são os termos ou regras de Mitski, neste terreno só pisam os corajosos e audazes que aceitam as condições da proponente, que apenas e somente exige Give me one good honest kiss/And I’ll be alright – parece fácil mas ao mesmo tempo já sabemos por esta altura que Venus, planet of love/Was destroyed by global warming, por isso se calhar não há muita esperança. Por esta altura também já percorremos todos os estilos musicais até chegar a este triunfo disco que no seu interior carrega o desgosto enquanto sorri para o exterior com o seu melhor sorriso e maquilhagem.

“Be the Cowboy” é um trabalho fascinante em todos os aspectos, sobretudo pela certeza que constitui a incerteza mas também pela forma sóbria como Mitski conseguiu desligar-se de todas as expectativas criadas para a sua sonoridade e percurso e criar exactamente aquilo de que teve vontade e como teve vontade. Na capa, algures entre a expressão de desafio e a ironia descarada, Mitski prepara-se cuidadosamente no exterior para o combate que se trava no interior entre a imensidão de coisas que precisava de exteriorizar, sob pena de não sobreviver nem mais um dia. É dessa tragédia falsa, cómica, irónica, ácida e certeira que é feito “Be the Cowboy”, ao mesmo tempo uma grande criação encenada para ser espaço de libertação telúrica das energias criativas de Mitski. Viajando livremente entre a intelectualização e a sentimentalidade forçada, “Be the Cowboy” é gerador de intensa experiência emocional e quase podemos sentir-nos ofendidos por Mitski não nos querer pendentes para a lágrima. É como se nos desse com uma mão para tirar logo com a outra, a julgar pelo tempo que demora a criar o momentum das faixas do álbum: quando estamos em êxtase acaba tudo e quem quiser que continue a ouvir tudo em loop para saciar os sentidos. Espécie de crooner manipuladora, deambula com gosto por uma quantidade incrível de estilos diferentes e até parece mentira como os mistura a todos sem pejo e resultad tudo tão harmonioso. E harmonioso em Mitski não significa que seja fácil e a tender à pastilha elástica cor-de-rosa, há ácido por baixo do algodão doce, uma lágrima de plástico oculta a verdadeira e o significado de tudo depende de quem ouve. Mitski só chegou para nos entregar uma pérola imensa que é “Be the Cowboy”, agarre-se com as mãos cheias porque é um objecto musical explosivo e viciante e estas linhas não lhe fazem metade da justiça que merece: é de audição obrigatória e contínua.



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