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Festival Vilar de Mouros | Dia 1 (23.08.2018)

Os festivaleiros que já andam por estas andanças há algum tempo por certo recordarão que a imagem de marca que durante muito tempo marcou o Festival Vilar de Mouros era de uma vaca com uma guitarra.

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Pois bem, assim que chegamos a Vilar de Mouros somos recebidos por uma paisagem rural minhota pontilhada aqui e ali pelo referido animal e assim que nos acercamos do recinto do festival percebemos que as guitarras também lá estão e que será uma questão de tempo até que se façam ouvir.

Tal como no futebol também no universo musical existem os denominados “treinadores de bancada” férteis em prognósticos e que nunca fazem jus a celebre frase de um jogador da bola que dizia numa entrevista “Prognósticos só no final do jogo!”. Assim que nos aproximamos do recinto percebemos que as alterações efetuadas pela organização relativamente às edições anteriores dividem opiniões entre os que acham que o aumento de áreas de atividades dentro do recinto ou o facto de a área da restauração estar agora confinada ao interior do mesmo são sinal de melhoria e de “modernização” do festival aos apologistas da desgraça que afirmam “isto é o fim de Vilar de Mouros”. O festival efetivamente já esteve perto de acabar mas tal e qual como muitos dos músicos que por lá atuam tem sabido resistir e a reinventar-se e a julgar pelas filas de vários metros para entrar no festival é possível afirmar que o festival está para durar e que o público “mais maduro” iria dominar no recinto.

Às 19:30h as guitarras dos Cavaliers of Fun ecoam no recinto abrindo as “cortinas de palco” para uma audiência que aos poucos se aproximava do “coração” do espetáculo. Nesta altura a assistência ainda não era muita mas numa sondagem visual feita através das t-shirts e restante merchandising que envergavam era fácil perceber que a maior parte vinha para ver Bauhaus. O trio dos Cavaliers of Fun venceu o EDP Live Bands em 2015 o que lhes deu o direito de gravar o álbum “Astral Division” e apesar de já terem tido honras de abertura para os Imagine Dragons sabiam que poucos entre a audiência conheciam o seu trabalho e que tinham pouco mais de trinta minutos para o divulgar pelo que agarraram cada minuto como se fosse o ultimo e deram um concerto ritmado marcado pelo seu pop-rock com nuances eletrónicas que permitiu que alguns pés marotos desrespeitando a vontade do próprio dono começassem a bater no relvado em ritmo compassado.

Findo o primeiro concerto é tempo (pouco) para afluir aos bares para a habitual hidratação festivaleira feita através da bebida que tem como base cevada que podia muito bem ser cultivada nas encostas verdejantes que envolvem o recinto. Ainda o copo (reutilizável por questões ambientais) não está na mão e já se ouvem os primeiros riffs da banda portuguesa Plastic People, é tempo de regressar ou como diriam os muitos espanhóis que marcam presença no festival de “volver” à zona do palco. A banda originária de Alcobaça cedo mostrou que a sua música é em muito influenciada por muitas das bandas de culto que já passaram por Vilar de Mouros (caso dos Jesus & Mary Chain, Iggy Pop, entre outros) e as suas melodias envoltas em sonoridades que vão desde o Rock ao Punk não desiludiram os muitos que a esta hora já marcavam presença dentro do recinto.

Pouco passava das 21:30h e sobem ao palco os PIL ou como muitos os conhecem a banda do ex-Sex Pistols Johnny “Rotten” Lydon. Se as duas primeiras bandas, pela experiência que tinham, tinham obrigação de cumprir, a partir daqui a fasquia estava bem elevada. Os muitos saudosistas de Sex Pistols presentes bem que puxaram por um John Lydon marcadamente em baixo de forma que por vezes mostrava ganas de transpor a fasquia mas logo qual gato domesticado se deixava vencer pelo cansaço, “se espreguiçava e se deixava dormir”. A voz também não ajudou e em muitos momentos falhou mesmo. Como lenda da música que é e pela “bagagem” que traz John Lydon “merecia” mais, mas numa visão mais descontraída do momento é possível afirmar que se os PIL fossem candidatos ao EDP Live Bands com este desempenho por certo ficariam pela primeira fase. Muitos dos seus fãs por certo discordarão desta analise com a justificação que “This Is Not A Love Song” ou melhor dizendo neste caso “This is Not a Love Concert”.

Ainda o concerto dos PIL não tinha acabado e já muitos ansiavam com o que vinha a seguir, e não foi preciso esperar muito até que os britânicos The Human League transportassem os presentes para uma galáxia dos idos anos 80. Com um Philip Oakey à altura dos acontecimentos a banda foi debitando sucesso atrás de sucesso passando por êxitos incontornáveis como “Don’t You Want Me”, “Human”, “Open Your Heart” entre outros. Com imagens de fundo apelativas e marcantes e com as suas duas vozes femininas de apoio os The Human League levaram o público a deixarem finalmente os corpos ondularem com os ritmos New Wave/Synthpop. No final ainda houve tempo para um encore para se ouvir num uníssono quase perfeito “Together in Eletric Dreams” cuja letra explica muito do que se passou em palco.

Se os The Human League agarraram o público os The Pretenders liderados por uma comunicativa Chrissie Hynde em grande forma física e vocal provocaram um autentico terramoto de emoções com êxitos como “I’ll Stand By You”, “Don’t get Me Wrong”, “Hymn to Her” a levarem o público a entoar as letras de inicio ao fim e a dançar de forma desenfreada sem preocupação em guardar energias para o que vinha a seguir. Para muitos dos presentes este foi “o concerto da noite” coroando Chrissie Hynde, que ainda chegou a pedir desculpas por tocar músicas antigas, como a rainha da noite. Rock musculado e energizante de início ao fim aqui e ali com um toque de folk num concerto concluído com Chrissie a agradecer ao “público fantástico que proporcionou uma excelente noite”.

A noite já ia longa e fria quando um pontual Peter Murphy entrou em palco cerca das duas da madrugada para reviver e comemorar os 40 anos dos Bauhaus acompanhado entre outros por David J que fez parte da banda original. Foi perante um recinto já mais despido (talvez por culpa de Chrissie Hynde que levou muitos dos presentes a gastar todas as energias que tinham) mas ainda assim muito bem composto que Murphy vestido em tons sombrios e de bigode “afiado” começou a “apresentar” o reportório Rock Gótico com algum Punk à mistura dos Bauhaus iniciando com “King Volcano” ainda sem grande entusiamo ou participação do público. Mas Murphy é um animal de palco e “agarrou” num público “ferido pelo cansaço” e transportou-os para um mundo escuro e sombrios com movimentos ameaçadores numa representação perfeita de um personagem que sente na pele a própria atuação. Para desânimo de alguns que esperavam ouvir um ou outro tema em nome próprio de Peter Murphy, o pouco mais de uma hora de concerto foi totalmente preenchido pelos temas de Bauhaus para gaudio dos muitos fãs presentes nas filas da frente.

A sincronia com David J foi perfeita e fez a diferença em temas com “Bela Lugosi’s Dead”, “She’s in Parties” ou “In The Flat Field”. Se o público tinha coroado Chrissie Hynde como a rainha da noite, Murphy no tema “Silent Hedges”, debateu-se com a colocação ou não de uma coroa cintilante, o que acabou por acontecer…estava encontrado o “casal real”. No final um encore em que só houve espaço para um único tema que fechou um concerto competente, nalguns momentos brilhante mas talvez demasiado curto. No entanto talvez o cansaço acumulado e notório do público levaram a que não houvesse muitos apelos para mais.

Nos próximos dois dias do festival ainda há espaço para ouvir nomes como GNR, David Fonseca, Editors, Incubus, Los Lobos, dEUS, James, Crystal Fighters entre outros.

Texto por José Graça e fotografia por Maria Inês Graça.



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