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Mount Eerie @ Galeria Zé dos Bois

Mount Eerie pode não ser a banda sensação da estação (nunca o foi, nem será), mas os seus seguidores são gratos.

Phil Elverum, ou Mount Eerie, ou, até 2004, The Microphones, vem das terras frias do estado de Washington, donde um dia saíram as camisas de flanela, guitarras esfrangalhadas, e um louro suicidário. Elverum não é louro, nem se matou (embora cante muito sobre a morte), não usa camisas de flanela, e, se a sua guitarra por vezes solta um ruído desenfreado, mais vezes está próxima do sussurro suave do cantor. A geografia é mentirosa: nada poderia ser mais distante do grunge de Seattle, que nos idos de noventa prometeu mudar a indústria discográfica e agora é um produto como outro qualquer. Esta música é ensimesmada e rarefeita, um folk distorcido, meio autista, que ora se esconde no barulho ora na frágil produção (isto, sim, é baixa fidelidade).

Na primeira visita a Portugal, Elverum, que já trabalhou com tantos músicos, trouxe consigo Nicholas Krgovich, com quem gravou o último álbum “Wind’s Poem” e que fez a primeira parte do concerto (já lá vou), e as suas canções cheias de neve, gelo, nevoeiro, vento, lua, e ruas desertas (Elverum canta sobre poucos elementos, tirando muito deles). Sentia-se que o público, estranhamente silencioso — tão silencioso que tanto Eleverum como Krgovich se admiraram, tão silencioso que até os cliques das máquinas fotográficas se ouviam e uma pequena tosse feria, tão silencioso que Elverum tinha de sinalizar o fim das canções com a cabeça para que se batessem palmas, tão silencioso que só podia ser domingo à noite, o final de um fim-de-semana —, há muito ansiava por ele e por elas. Mount Eerie pode não ser a banda sensação da estação (nunca o foi, nem será), mas os seus seguidores são gratos.

As canções de Mount Eerie, cujas fundações (a voz e a guitarra eléctrica de Elverum) ameaçam ruir sob o peso de todo aquele gelo, aconchegam-se no mato do sintetizador de Krgovich — que, mesmo quando não sabe a nota certa, bafeja-as com um pouco de calor — e acabam por marcar um espaço muito particular (é raro hoje em dia encontrar música tão rara), que ou parece proibir qualquer outro som ou simplesmente o assimila como seu (ainda assim, o silêncio cerimonioso do público foi o melhor elogio). Ao mesmo tempo, parecem a coisa mais natural do mundo, como se nunca tivessem deixado de existir, como se fossem uma extensão do corpo de Elverum ou o seu próprio sopro.

Consciente do poder da sua música, Elverum não quis exceder a sua estadia e esgotar a paciência dos seus anfitriões. Apesar dos protestos do público, foi anunciado o fim do concerto, que aconteceu tão naturalmente como tudo o resto. Antes, ainda ameaçou tocar uma versão de «Disarm» dos Smashing Pumpkins e tocou mesmo o seu hit — como brincou Krgovich — «The Moon» (canção por que me apaixonei aqui há uns anos), ainda da altura dos Microphones.

A primeira parte do concerto, como já escrevi, ficou a cargo de Nicholas Krgovich, que explora o riquíssimo filão do neo-MOR, umas vezes lembrando os artistas soul e R&B dos anos 80 e 90, outras o que Junior Boys e How to Dress Well fizeram com eles. Não foi uma surpresa, portanto, quando, depois de já ter refeito canções de Jim Reeves, John Martyn e David Lynch, se atirou a uma versão de «Let’s Go Out Tonight» dos Blue Nile. Ainda que Krgovich tenha tocado iPod e sintetizador e dançado à Ian Curtis, vestido de crooner betinho, o caloroso conforto que se sentiu no resto da noite de 20 de Novembro começou aqui.



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