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Movida Madrilena

Que es lo que tiene Madrid?

Os comportamentos de uma sociedade podem comparar-se de forma simplista a água contida numa barragem: quando se abrem as comportas, litros e litros de água escorrem pelo rio, dando origem a uma produção energética.

Madrid, anos 80. À falta de água, produziu-se uma energia que marcou uma geração e deu origem a um movimento artístico e social conhecido como “la movida”. Depois de anos de comportamentos reprimidos por uma longa ditadura, a época da transição despertou a ânsia de liberdade de expressão contida durante décadas. Abriram-se as comportas e o rio ainda não secou.

Almodôvar, Alaska, Los Secretos, La Guardia, são nomes que ainda hoje permanecem como referências nacionais e internacionais e que reflectiram o carácter excêntrico, alternativo e revolucionário da cultura dessa época. Ainda que o movimento se tivesse espalhado e obtivesse um eco nacional, nos anos oitenta Madrid era o epicentro desta cultura emergente (ficando igualmente a dever-se ao impulso dado pelo Alcaide de Madrid da época, Enrique Tierno Galván, entre outros políticos que impulsionaram esta nova forma de expressão como oposição à sociedade franquista). Mas era ainda mais do que isso. Nos anos oitenta, Madrid era a cidade onde toda a gente queria estar, ou pelo menos, passar.

E hoje, Madrid é uma cidade a convalescer dessa época, com traços de decadência ou abandono? Ou renovou-se e manteve o seu espírito?

Madrid é uma cidade que tem merecido cada vez mais a atenção dos portugueses. Vários factores podem ser apontados, como a proximidade (é uma capital que está no centro da península) os movimentos migratórios que se têm verificado nos últimos tempos (sobretudo numa faixa etária entre os 25 e os 35 anos), a facilidade de deslocação pelas companhias low-cost, etc. Embora muitos portugueses tenham por hábito dizer que preferem Barcelona, o facto é que os que visitam Madrid são reincidentes. A primeira desculpa pode ser a típica “para conhecer”. E as queixas multiplicam-se: o clima, a ausência de mar, os horários estranhos. Mas depois há uma segunda visita. E uma terceira, se possível.

Madrid fica na rota das cidades para voltar, não porque se queria “ver mais”, mas simplesmente para estar. É uma cidade onde se está bem.

Longe de uma eventual decadência urbana, Madrid reinventa-se para além de culturas que entretanto se vão desmoronando, de conflitos e tensões sociais, de terrorismo e crises económicas. Madrid é uma cidade de reinvenção, de sobrevivência, de vibração.

Mesmo quando no Inverno a temperatura é negativa, as pessoas saem à rua para conviver, para beber “unas copas”; mesmo quando a ressaca parece sugar toda a energia, sai-se de casa para tomar um aperitivo que começa às duas e pode acabar às horas que quisermos.

Madrid à noite é intensa, igualmente como de dia. Se os madrileños “hibernam” entre as duas e as cinco da tarde (principalmente no Verão quando o calor é asfixiante), tal serve apenas como um descanso prévio para a saída nocturna. Há sempre um amigo para ver, uma conversa para pôr em dia, uma celebração ou um desgosto que nos levam a sair de casa. É que qualquer desculpa é válida para ir beber um copo a um bar qualquer.

Com esta descrição, quase que pensamos que os madrileños são preguiçosos. Não, trabalham intensamente, movem-se diariamente entre distâncias longas entre casa e trabalho (por vezes, entre um e outro há mais de trinta quilómetros), sobrevivem a um trânsito caótico e vivem numa comunidade que tem 6 milhões de habitantes. Por tudo isto, o tempo livre é valorizado e é considerado crucial. Eventualmente por razões relacionadas com o clima ou outros factores, os madrileños são sociais, conversadores e gostam de “pasar un buen rato”.

Toda esta energia e esta vontade de viver plasmam-se na vida nocturna. Como qualquer outra cidade, Madrid está divida em bairros e as tendências nocturnas vão variando consoante o bairro onde nos encontremos. Em linhas gerais, o “centro” de Madrid poderá dividir-se em quatro bairros: La latina, Malasaña, Chueca e Salamanca. Subdividimos ainda a zona de Alonso Martinez e a zona de Huertas.

Se tivermos que definir tendências, o bairro da latina será talvez o mais castiço, onde podemos encontrar uma panóplia de bares e sítios de “picar” variados, indo desde o tradicional até uma mistura com o mais moderno; malasaña é talvez o bairro mais “intelectual” ou mais “alternativo”. Conta com alguns locais vintage, e a música que passa nos bares é estilo rock-pop dos anos oitenta e noventa. Chueca mistura o boémio da latina com o alternativo de malasaña e uma excentricidade quase recém adquirida. Em Chueca, também conhecido pelo bairro gay, podemos encontrar bares e discotecas gay, lésbico e mistas, com shows de drag queens, tudo num ambiente de uma grande abertura social e de expressão de qualquer orientação sexual. O importante mais uma vez é “pasarlo bien”. Nesta zona, os locais à escolha variam muito, consoante o espírito que mova o frequentador. Talvez o bar “Why Not” ou a discoteca “Delirium” sejam boas alternativas, para uma noite “gay friendly”, mas ainda assim, conservando um espírito heterossexual.

Já o bairro de Salamanca é o bairro mais selecto, com algumas das discotecas da moda, onde se encontram as “celebrities” espanholas e não só. Um dos últimos locais mais fashion da noite nesta zona é sem dúvida o restaurante/bar Ramsés. Situado ao lado da porta de Alcalá, beneficia de um decor adequado ao espaço e ao nome do bar.

A zona de Alonso Martinez, que está justamente entre Chueca e Salamanca, mistura as duas tendências dos dois bairros: o fashion boémio. Encontramos alguns bares e restaurantes que misturam os dois ingredientes e o resultado é delicioso. Beber um copo de champanhe no restaurante Privé por exemplo, na Calle Barbara de Braganza, ou então jantar no Maison Blanche ao som de um grupo de jazz, e saboreando desde húmus como entrada, a um risotto e terminar com um delicioso leite creme, e depois sair e beber um gin tónico no “Gin club” pode ser uma óptima forma de passar uma noite. Sugestão seria sair do Gin Club, passar para a Gran Via e beber um cocktail no famoso museu chicote. O museu chicote é um espaço mítico, remota aos anos trinta e nele beberam cocktails Hemingway, Dali, Ava Gardner, etc. O espaço mantém as fotos destes e outros famosos e a decoração, misturado com musica actual “pinchada” por DJ´s que, no ambiente descontraído, misturam o retro e o contemporâneo.

Como podemos ver, as opções são imensas, dependendo muito do ambiente que procuramos e do que pretendemos explorar.

Uma sugestão para uma noite bem passada seria a seguinte: começar por “picar” pela Latina. A calle Cava Baja tem uma panóplia de bares onde se pode sentar e comer ou simplesmente comer tapas. O tradicional entre grupos de amigos espanhóis é o de fazer uma espécie de mealheiro em que cada um dispõe de, por exemplo, 20 euros, e dai retirar-se o dinheiro para pagar o consumo de bar em bar. A oferta nesta zona é variada, e podemos escolher o tipo de tapas que preferimos (típicas da zona da Galiza, da Andaluzia, etc). Depois, podemos ir beber uns mojitos pelos bares da zona. O Delic é sem dúvida uma boa opção. Famoso pelos seus mojitos, dispõe também de uma carta de bolos e tartes apetecíveis para aconchegar o estômago numa noite de copos. A música é descontraída, o ambiente é composto sobretudo por pessoas entre os 20-35, e o espaço já foi considerado como um dos mais “cool” de Madrid.

Seguidamente, e para acabar a noite a dançar, num ambiente também alternativo de música electrónica (um dos poucos espaços onde não vamos ouvir música espanhola), nada como passar pela Sala Sol. Localizada numa rua mesmo ao pé da zona mais central de Madrid (a Puerta del Sol), a sala sol é uma discoteca, mas também sala de espectáculos e concertos, onde passam DJ´s e músicos conhecidos do mundo da música electrónica. O ambiente é igualmente descontraído, apenas um senão: algumas vezes está tão cheio que parece quase impossível chegar ao balcão e pedir uma bebida.

Para os verdadeiros nostálgicos da movida madrileña dos anos oitenta, há uma discoteca que mantém a decoração, o espírito e a música da época. A discoteca Moroko, propriedade de vocalista do grupo Alaska, onde toda a música que passa durante a noite remonta aos nomes dos anos oitenta espanhóis: Alaska, Mechano, La Guardia, etc. Não é um local muito adequado se não somos apreciadores do género, para além de que nos sentimos um pouco deslocados se não conhecemos a cultura. É que, quando o DJ passa os grandes hits espanhóis da época, toda a gente dança e canta os versos da música, numa nostalgia que, para quem não viveu essa época, sente que algo lhe está a escapar.

No dia seguinte, imaginando que passamos uma noite de “juerga” de sábado, a forma de evitar a ressaca é ir até um bar beber mais uns copos ou ter um almoço tardio. Para um sítio com um conceito vintage mas muito moderno temos o restaurante “junkclub”, cuja ementa oferece os pratos de “toda a vida”, mas com detalhes diferentes que marcam uma personalidade contemporânea. O “bocadillo de calamares” é servido com um molho especial, podemos beber uma gasosa de maracujá ou então saborear um pudim com peta-zetas. Este espaço conta com mobiliário antigo, livros dos anos sessenta, e talheres da “avó”, e a música ambiente vai desde a banda sonora do filme “o fabuloso destino de amelie poulain”, até algo mais jazzy.

Depois de um almoço tardio (que em Madrid pode ser pelas quatro da tarde), podemos ir beber um aperitivo ou um café ao tradicional “café del núncio”, ou, melhor, se estamos no Verão, descermos em direcção ao parque Atenas e aí ficar na esplanada do parque, sentados na relva, a ouvir chill-out e a beber umas “cañas” ou um “cubata” até à noite. Não esquecer que no Verão anoitece quase às dez da noite e, por vezes, estão trinta graus a essa hora, pelo que o clima “pede” que se saia da toca e se aproveite as horas frescas. Se for Inverno, o mesmo pode ser feito, mas dentro de portas. Inclusivamente, podemos acabar um domingo no Café central a beber um copo e a ouvir um concerto de jazz. Outra possibilidade é a de almoçar no Circulo de Bellas Artes e por ai ficar, a ver uma exposição ou simplesmente a saborear a paisagem desde as janelas, de onde se pode ver o cruzamento da calle alcala com a Gran via, na bonomia de uma tarde de domingo.

Pessoalmente, vivo em Madrid há quase três anos. Não sei o que é que Madrid tem, mas sei que o que não tem é aquilo de que por vezes fugimos: o tédio e a depressão urbanas. Olvidate de eso tío, que si vienes a Madrid, vienes para pasarlo bien!



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