“Mudanças” | Mo Yan

“Mudanças” | Mo Yan

Resistente ou subserviente?

O Prémio Nobel da Literatura, atribuído em 2012, foi tão polémico quanto a exibição em Portugal do filme “Império dos Sentidos” o terá sido nos idos anos oitenta. Acusado de subserviência ao regime comunista, Mo Yan chegou em tempos a pedir desculpa pela publicação de “Peito Grande, Ancas Largas”, escrevendo até uma autocrítica ao livro em jeito de penitência perante um governo em fúria.

A Divina Comédia, a nova editora de Alexandre Vasconcelos e Sá (ex-director editorial da Objectiva), escolheu como primeiro lançamento o livro “Mudanças”, escrito em 2010, para uma colecção sobre o comunismo. Um romance que, em boa verdade, irá adensar ainda mais o debate sobre a colagem do escritor ao regime chinês.

O livro é, todo ele, um percurso autobiográfico dividido entre o crescimento pessoal e o espanto perante o desenvolvimento da China enquanto potência mundial. Yan – se quisermos nomear a personagem principal como o próprio Mo Yan – revela-se um miúdo esperto, expulso por ter inventado uma alcunha para um dos professores, algo que não tinha feito. Paralelamente temos a história de He, um outro aluno, que a certa altura desafia a autoridade dos professores e rasga os livros antes de lhes virar costas, aparecendo no livro como um aventureiro, um empreendedor e alguém que não se deixa intimidar por nada para alcançar o máximo de felicidade. Arriscamos dizer que He terá sido, muito provavelmente, o herói pessoal de Yan, que talvez não se importasse de ter trocado uma vida de acomodação a uma outra com uma dose maior de aventura e espírito de incerteza.

Yan vai crescendo com o medo de ficar no patamar mais baixo da sociedade, apaixonado por camiões, passando uma temporada no exército e acabando por conseguir atingir a notoriedade através da escrita. É esta a mudança pessoal que o livro revela. Quanto à mudança estrutural do País, deparamo-nos com uma admiração pessoal de Yan pelo regime do Presidente Mao Tsé-Tung: a transformação dos restaurantes públicos em cooperativas de abastecimento, a primeira visita a Pequim que é de deslumbramento – com a fila interminável para tirar a foto na Praça Tianamen -, o desenvolvimento da rede de transportes, o medo sentido após a morte de Mao.

Por vezes a admiração ganha um ar panfletário, como ler isto a certa altura: «Passar do “toda a gente está metida nos assuntos de toda a gente” para a protecção da privacidade individual representou para os chineses um significativo passo em frente.» Ou, cena poeticamente política, quando num depósito de sucata e cercado por ratazanas, Yan usa as estatuetas do Presidente Mao que tem na mala como sentinelas que lhe salvam a vida.

Porém, quando nada faz prever, Yan apresenta a sociedade chinesa como assente num sistema bem definido de corrupção, aceite por toda a gente como algo que faz parte do ADN do País. Como se, depois de uma grande dose de bajulação, pudesse cravar um imenso espinho nas costas do gigante chinês. Afinal, o que temos aqui? Um bajulador incurável ou um resistente em lume muito brando? Cabe ao leitor decidir.

Última nota para a excelente edição da Divina Comédia, começando pela capa, passando pela escolha do lettering e do formato das letras e terminando na capa dura, algo que já vai sendo raro encontrar.



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