“Trans Iberic Love” | Raquel Freire

“Trans Iberic Love” | Raquel Freire

Não se vive sem amor

Natural do Porto, Raquel Freire (entrevista Rua de Baixo) é uma mulher de muitos ofícios: argumentista, realizadora, produtora, encenadora, ativista, cronista e agora escritora.

Trans Iberic Love” (Divina Comédia, 2013) marca a estreia da realizadora de filmes como “Rio Vermelho” ou “Rasganço” no mundo dos livros e, tal como acontece com as suas obras cinematográficas, também a sua escrita é direta, apaixonada e fraturante.

Longe de qualquer tentativa autobiográfica, “Trans Iberic Love” conta a estória de amor de Maria e José, duas almas atormentadas por uma conjuntura sociocultural opressiva para com o que é marginal, aqui entendido como fora da norma.

Raquel Freire apresenta dois personagens que pretendem uma definição de (trans)género, seja ele enquanto indivíduo ou pessoa sexual. Ela, Maria, é uma escritora portuense que tem Marx como grande mentor, lutando por um novo ideal em forma de cidadania através de uma atitude ativista. Ele, José, também ela, Eva, um sociólogo catalão que estuda e defende, afincadamente, o fim da dicotomia sexual dos géneros.

Em comum, Maria e José juntam vários parâmetros e afinidades que se adensam num mundo, e principalmente numa Europa, que vive sérios problemas económicos cujas ajudas podem, de certa forma, representar uma perda de identidade e independência dos próprios estados enquanto nação.

É neste contexto que Maria aposta, de corpo e alma, nas novas abordagens da visão feminista e procura uma sexualidade mais abrangente, enquanto José busca um pathos de contornos “trans” que rasgue as balizas dos conceitos de homem e mulher, definições que não têm necessariamente de ser opostos.

A livre circulação na União Europeia serve de metáfora para a abordagem que os dois personagens fazer da própria vida, da libertação de uma personalidade que não pode ficar apenas presa ao âmago da sua existência sob pena de se tornar num elemento definitivamente castrador.

A “Revolução Pendente” faz-se no eixo Porto-Lisboa-Paris-Barcelona, enquanto Raquel Freire explora elementos da cultura nacional – nomeadamente através da geração que cresceu de acordo com os ecos de Abril – e pisca o olho a alguns rastilhos que nasceram da chamada “Geração Rasca”.

Tendo como base o amor, sentimento aglutinador, Maria e José lutam por uma sociedade mais justa procurando fugir ao vulgar estado de androginia enquanto conceito fechado em si mesmo. “Trans Iberic Love” é um alerta contra a intolerância e os fragmentos alternados que dão voz a cada um dos personagens têm, como um dos maiores méritos, introduzir um novo tema a debater na literatura nacional, agitando consciências e “medos” que podem ferir algumas suscetibilidades.

Este romance arrebatador assume também ele vários géneros, luta contra preconceitos e pode ser visto enquanto uma aventura, um jogo ou uma projeção cinematográfica que mistura realidade, ficção e acima de tudo o desejo, ainda que descarnado da conotação sexual e direcionado para a vontade de Maria e José se sentiram inteiros, unos, completos.



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